Liberdade de escolha, modernização e venda direta. O debate sobre o Voucher Único de Bonito chegou com um discurso atraente, mas há muito mais em jogo do que facilitar a compra de um passeio. Mexer em um sistema que movimenta milhões e sustenta empregos significa mexer também em interesses.
É aí que surge uma nova sombra sobre o nosso conhecido Reino das Águas Turvas. Não se trata de apontar irregularidades, mas de saber quem realmente quer mudar o jogo. A iniciativa parte dos turistas, dos atrativos, de grandes operadores, de plataformas digitais ou do poder público? Quem tem interesse nessa abertura — e por quê?
Uma parte dessa história não pode ser esquecida: a mão de obra. Bonito tem vendedores, atendentes, administrativos, receptivos e famílias que vivem direta ou indiretamente das agências. Se elas perderem espaço, esses profissionais serão absorvidos pelos atrativos e por novos negócios ou substituídos pela venda digital? Antes de celebrar a tecnologia, é preciso calcular o impacto sobre quem trabalha.
Também chama atenção o papel da Secretaria Municipal de Turismo. Enquanto aqui se discute a venda direta, Bonito continua sendo promovido fora do município junto a agentes, operadores e grandes empresas do setor. Em junho, por exemplo, a Secretaria participou de encontro da Azul Viagens com centenas de agentes, trabalhando a comercialização do destino. Afinal, o que Bonito está vendendo lá fora e qual espaço pretende reservar aos agentes aqui dentro?
Outra conta precisa ser aberta à população. Quanto o Município recebe hoje em tributos gerados por agências e atrativos? O Voucher auxilia o controle da atividade turística, enquanto a TCA acrescentou uma cobrança de R$ 15 por visitante/dia. Se a forma de comercialização for alterada, qual será o impacto nos cofres públicos?
O momento merece atenção. A Prefeitura já falou em atualizar a comercialização turística para ampliar resultados e, paralelamente, movimenta uma nova plataforma integrada para o Voucher Digital. Isso, por si só, não indica qualquer irregularidade. Mas coloca tecnologia, dados e um negócio milionário na mesma discussão.
Também falta explicar como a venda direta funcionaria na prática. Os atrativos venderiam apenas os próprios passeios? Plataformas nacionais ou internacionais poderiam entrar nesse negócio? Qual seria o papel das agências? Quem controlaria os dados dos visitantes? E para onde iria a parcela que hoje remunera a intermediação?
O Voucher não precisa permanecer congelado no tempo. O turismo mudou, a tecnologia avançou e o consumidor também. Bonito precisa acompanhar essa evolução. Entretanto, tornar um sistema mais eficiente é uma coisa; mudar quem fica com uma fatia do bolo é outra.
Antes de qualquer decisão, empregos, impacto tributário, regras da venda direta e interesses econômicos precisam estar sobre a mesa. Só então será possível avaliar se a proposta fortalece Bonito ou apenas redistribui um mercado já consolidado.
Porque abrir mercado para gerar concorrência e oportunidades é uma coisa. Abrir a porteira para alguém ocupar o espaço econômico de quem já está dentro é outra bem diferente.
No fim, tudo desemboca em uma pergunta curta — e que pode valer milhões:
Para quem estão querendo abrir o Voucher?
No Reino das Águas Turvas, quando uma nova sombra aparece sobre um negócio desse tamanho, acender a luz não é ser contra mudanças. É descobrir quem está segurando a lanterna — e o que prefere deixar no escuro.
Bonito Sem Filtro News todas as imagens divulgação dos passeios.













