Veja aonde chegamos. Um playboy de barbichinha de cantor mexicano, cabelo engomado, iPhone na mão e WhatsApp nervoso conseguiu produzir uma das cenas mais constrangedoras da República. Daniel Vorcaro não precisou de tanque, tropa ou revolução. Bastaram dinheiro, relações, mensagens e uma extraordinária facilidade para circular perto de gente poderosa. O resultado é um Brasil assistindo Executivo, Legislativo, Judiciário e órgãos de Estado aparecerem, direta ou indiretamente, no mesmo novelo de relações que agora precisa ser desembaraçado pelas investigações.
E aqui está a parte que não pode ser convenientemente esquecida: aparecer numa mensagem, participar de uma reunião ou frequentar determinado ambiente não transforma ninguém automaticamente em criminoso. Crime exige prova. Mas o cidadão também não é obrigado a fingir que não enxerga o tamanho da promiscuidade institucional quando dinheiro, poder, negócios privados e autoridades públicas começam a circular próximos demais uns dos outros.
O celular de Vorcaro acabou se transformando numa janela indiscreta para Brasília. Vieram mensagens, encontros, contratos, viagens, suspeitas envolvendo agentes públicos e informações que precisam ser devidamente esclarecidas. Até conversa sobre uma festa com 120 mulheres para 20 homens apareceu no material divulgado pela imprensa. Parece roteiro escrito depois de uma garrafa de whisky, mas é justamente aí que mora o escárnio: enquanto o brasileiro comum discute a fatura do cartão e faz conta para chegar ao fim do mês, existe um andar de cima onde milhões, autoridades, jantares, viagens e festas parecem caber na mesma agenda.
Ainda cabe às investigações determinar onde termina a ostentação, onde eventualmente começa o tráfico de influência e, principalmente, onde existem provas de crimes. Mas uma pergunta já pode ser feita sem condenar ninguém antecipadamente: como um empresário conseguiu construir tamanho acesso aos corredores do poder brasileiro?
Talvez essa seja a pergunta que mais incomoda.
Porque Daniel Vorcaro não inventou Brasília. Apenas deixou rastros.
O Brasil já atravessou Anões do Orçamento, Mensalão, Petrolão, Lava Jato, escândalos envolvendo estatais, fundos públicos e até dinheiro de aposentados. Trocam-se personagens, partidos, slogans e salvadores da pátria, mas permanece uma extraordinária capacidade nacional de aproximar interesses privados do poder público até o cidadão já não saber direito onde termina um e começa o outro.
E quem paga essa festa não aparece nas fotografias.
É o trabalhador endividado, o pequeno empresário espremido pelos juros, quem espera atendimento na saúde pública, quem manda o filho para uma escola que deveria oferecer muito mais e quem entrega uma parcela considerável do que produz ao Estado esperando, no mínimo, alguma competência em troca.
Talvez nosso maior erro seja continuar acreditando que esse problema possa ser explicado dividindo o Brasil simplesmente entre esquerda e direita.
Não pode.
Enquanto eleitor tratar político como time de futebol, sempre haverá alguém disposto a vestir a camisa certa para meter a mão no cofre errado. O corrupto de estimação continua corrupto. O incompetente ideologicamente conveniente continua incompetente. Canalhice não recebe certificado de honestidade simplesmente porque veio embrulhada na bandeira que você gosta.
O voto também precisa fazer sua autocrítica. Durante décadas aprendemos a escolher candidatos pela ideologia, pelo benefício particular, pelo favor, pelo emprego prometido, pela amizade ou pelo ódio ao adversário. Competência, currículo, capacidade administrativa e idoneidade frequentemente aparecem depois — quando aparecem.
Depois reclamamos dos escolhidos.
Pedra branca ou pedra preta pouco importa quando quem controla o tabuleiro escreve as regras, escolhe boa parte dos jogadores e ainda convence o peão de que ele participa do poder.
O peão paga imposto, paga juros, espera hospital, espera escola, vota e depois assiste ao espetáculo.
Por isso determinadas expressões de Brasília já provocam alergia no brasileiro. Uma delas é “pedido de vista”. Juridicamente, trata-se de instrumento legítimo para que um magistrado examine melhor determinado processo. Para quem acompanha escândalos brasileiros há décadas, porém, ouvir que alguma autoridade pretende pedir vista imediatamente desperta outra pergunta: quando essa história termina?
Entre investigar, denunciar, processar, julgar e efetivamente responsabilizar alguém existe no Brasil uma distância que às vezes parece maior que o próprio país.
Querem falar de soberania? Soberania não deveria significar blindar autoridade de investigação. É exatamente o contrário. Uma República verdadeiramente soberana é suficientemente forte para investigar banqueiro, empresário, deputado, senador, ministro, juiz, presidente ou qualquer cidadão sem precisar perguntar primeiro qual sobrenome está escrito na porta.
Vorcaro deverá responder pelo que eventualmente for comprovado contra ele. Autoridades e demais pessoas mencionadas têm direito ao contraditório, à ampla defesa e à presunção de inocência. É assim que funciona — ou deveria funcionar — uma democracia séria.
Nós, porém, também temos o direito de olhar para tudo isso e sentir vergonha.
Porque talvez o maior escândalo não seja existir um homem capaz de circular por tantos corredores do poder.
O verdadeiro escândalo é descobrir quantas portas estavam abertas.
E não procure conforto na esquerda nem na direita. Enquanto continuarmos votando primeiro em bandeiras e depois em caráter, competência e responsabilidade, seguiremos trocando os garçons sem jamais fechar a conta.
O Brasil é o puteiro mais caro do mundo.
E o pior não é descobrir quem estava na festa.
É descobrir que a conta continua chegando para nós.
Beto Busin



