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Bonito no mapa das operações: do narcotráfico à corrupção, a Capital do Ecoturismo acumula investigações de peso

Em dez anos, a Capital do Ecoturismo apareceu em investigações sobre cocaína internacional, contrabando, tráfico de armas, lavagem de dinheiro, corrupção, licitações e saúde pública. As operações são independentes, mas a sequência deixa um contraste difícil de esconder: debaixo d’água, transparência de cartão-postal; em terra firme, trabalho para Polícia Federal, GAECO, GECOC e Ministério Público.

Bonito não precisa de apresentação. É a terra das águas cristalinas, da flutuação, das grutas e da propaganda que atravessou fronteiras. Só que existe outro mapa da cidade, bem menos usado nas campanhas de turismo. Nele aparecem nomes como Nevada, Oiketicus, Paraíso Marcado, Auditus, Águas Turvas, Blindagem e Pietra Cava. Não se trata de uma única quadrilha nem de uma investigação contínua. São casos distintos. O que chama atenção é a frequência com que o mesmo destino turístico reaparece no endereço das diligências.

A Operação Nevada, deflagrada pela Polícia Federal em junho de 2016, já mostrava uma vocação logística que definitivamente não constava no Plano Municipal de Turismo. A investigação alcançou Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e São Paulo e mirava tráfico transnacional de cocaína e lavagem de dinheiro. Foram expedidas 20 prisões preventivas, 31 buscas e apreensões, sete conduções coercitivas e 47 ordens de sequestro de veículos. Bonito estava entre as cidades onde houve cumprimento de mandados. (A Tribuna MT)

A engrenagem impressionava mais que os números. Segundo informações da Polícia Federal reproduzidas à época, cocaína vinda da Bolívia chegava pelo ar, era lançada em áreas rurais e depois transportada para pontos de armazenamento em Bonito e Bodoquena, antes de seguir em caminhões e caminhonetes para São Paulo. No dia da operação, equipes que atuaram em Bonito apreenderam cerca de 30 quilos de cocaína e uma arma e efetuaram uma prisão. Durante toda a investigação, aproximadamente 778 quilos de cocaína e US$ 2,2 milhões já haviam sido apreendidos. (Campo Grande News)

Era 2016. Enquanto o visitante aprendia a chegar às cachoeiras, havia gente que, segundo a PF, já dominava outro roteiro sem precisar de guia.

Dois anos depois apareceu a Oiketicus. GAECO e Corregedoria da Polícia Militar investigavam uma organização criminosa formada por policiais e relacionada principalmente à facilitação do contrabando de cigarros. Bonito integrou o conjunto de municípios alcançados pela operação, que mobilizou dezenas de mandados. O turismo continuava oferecendo passeio de bote. A Corregedoria preferiu navegar por outros caminhos.

A história ganhou outro peso com a Paraíso Marcado. Dessa vez, Bonito não era apenas uma cidade no meio de uma operação estadual. O MPMS descreveu uma organização criminosa armada estabelecida havia anos no município e arredores, dedicada principalmente ao tráfico de drogas, comércio ilegal de armas e lavagem de dinheiro, com participação de agentes públicos. O nome da operação foi escolhido justamente porque a cidade teria sido adotada como residência e base das atividades ilícitas da liderança investigada.

Na segunda fase, em setembro de 2023, foram cumpridas sete prisões preventivas e outras medidas judiciais. O caso chegou às condenações: em 2025, o Ministério Público anunciou pena de 27 anos de prisão para a liderança da organização, além de multa aproximada de R$ 90,8 mil. Quatro policiais militares também foram condenados em processo separado relacionado ao apoio prestado ao grupo.

A Capital do Ecoturismo havia conseguido uma façanha pouco recomendável: transformar a expressão “Paraíso Marcado” em nome de operação policial.

Em julho de 2025, o foco saiu do narcotráfico e entrou na saúde. A Operação Auditus cumpriu dez buscas em Bonito, Jardim e Nioaque para investigar possíveis fraudes em licitações e contratos de serviços médicos, consultas, exames e procedimentos. O prejuízo potencial apontado pelo MPMS superava R$ 3 milhões.

A cereja desse bolo indigesto estava na origem do nome. Entre os fatos investigados apareciam cobranças relativas a exames de triagem auditiva neonatal, o popular teste da orelhinha, que não teriam sido efetivamente realizados. “Auditus” significa audição. Nessa altura, já não era preciso colocar sarcasmo na reportagem. O próprio processo entregava.

Três meses depois, em outubro, surgiu a operação que praticamente nasceu com título de jornal: Águas Turvas. Foram quatro prisões preventivas e 15 buscas em Bonito, Campo Grande, Terenos e Curitiba. O MPMS passou a investigar suspeitas de organização criminosa, fraude em licitações, corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro.

A apuração apontava possível direcionamento sistemático de licitações de obras e serviços de engenharia em Bonito desde 2021, incluindo concorrência simulada, exigências que favoreceriam determinados participantes e suposta atuação de agentes públicos no fornecimento de informações privilegiadas. Naquele momento, os contratos investigados somavam R$ 4,397 milhões.

E “Águas Turvas” não foi invenção de jornalista maldoso. O próprio Ministério Público explicou que o nome fazia contraponto às águas cristalinas que tornaram Bonito famoso. Quando o órgão acusador começa a disputar no sarcasmo, fica difícil competir.

Nem deu tempo de a água assentar. Em novembro de 2025 veio a Operação Blindagem, contra uma organização criminosa armada investigada por tráfico interestadual de drogas, corrupção, usura, comércio ilegal de armas e lavagem de dinheiro. Segundo o GAECO, a estrutura era comandada inclusive de dentro de presídios e mantinha colaboradores em várias cidades, entre elas Bonito.

A ofensiva envolveu 35 mandados de prisão preventiva e 41 buscas e apreensões em Mato Grosso do Sul, São Paulo e Santa Catarina. O balanço posterior apontou 30 presos, armas e R$ 227 mil em dinheiro vivo apreendidos.

Paraíso Marcado, Águas Turvas e agora Blindagem. Se fossem nomes de atrações turísticas, alguém provavelmente já estaria vendendo pacote.

Em abril de 2026 chegou a Pietra Cava, talvez a operação com a logística mais cinematográfica da coleção. O GAECO investigava um grupo que utilizaria uma marmoraria para esconder cocaína em cavidades feitas nas próprias pedras transportadas. Foram seis prisões preventivas e 16 buscas em Ponta Porã, Jardim, Campo Grande e Bonito.

Quase 800 quilos de cocaína atribuídos à organização já haviam sido apreendidos pela Polícia Rodoviária Federal na região de Guia Lopes da Laguna no ano anterior. O significado do nome resume o método: pedra escavada.

Depois de droga chegando de avião, passando por propriedades rurais e rodovias, faltava mesmo o acabamento em mármore.

O levantamento precisa ser lido com uma ressalva fundamental: essas operações não podem ser costuradas artificialmente como se revelassem uma única organização criminosa. Nevada não é Paraíso Marcado; Paraíso Marcado não é Águas Turvas; Blindagem não é Pietra Cava. Cada investigação tem seus próprios fatos, provas, investigados e processos.

Mas separar juridicamente os casos não obriga ninguém a ignorar a fotografia formada pelo conjunto.

Em uma década, Bonito apareceu no caminho de investigações envolvendo cocaína internacional, contrabando, armas, lavagem de dinheiro, agentes públicos, serviços de saúde e contratos milionários de obras. Mudaram os anos, os crimes investigados e os órgãos responsáveis. O endereço, curiosamente, continuou aparecendo.

Talvez esteja aí a maior ironia de todas.

Bonito construiu sua fama mundial oferecendo uma experiência rara: entrar na água e conseguir enxergar tudo.

Em terra firme, pelo visto, deu muito mais trabalho.

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