Vereadores disputam a prova principal, servidores correm em páreo separado e condenação recente pela “farra das diárias” em Ribas do Rio Pardo mostra por que dinheiro de viagem merece fiscalização
Se a Câmara Municipal de Bonito fosse um hipódromo, a temporada estaria longe do fim, mas o placar já seria suficiente para chamar a atenção de qualquer apostador.
Desde janeiro de 2025 até 11 de setembro de 2026, o atual mandato acumulou R$ 2.764.211,15 em diárias, segundo levantamento feito pelo Bonito Sem Filtro News a partir dos relatórios do Portal da Transparência da própria Câmara.
A comparação com uma corrida de cavalos é nossa. Os números, não. Eles saem dos registros oficiais, que identificam beneficiários, cargos e pagamentos.
E para ninguém reclamar de cavalo correndo em categoria diferente, são dois páreos. Vereador disputa com vereador. Servidores e assessores têm classificação própria.
NA RAIA DOS VEREADORES, A DISPUTA É APERTADA
Ângelo Carlos Peres Cheres aparece na liderança, com R$ 169.318,75 em diárias desde o início do mandato.
A vantagem, porém, é pequena. Adão Carlos Duarte vem logo atrás, com R$ 168.071,58. Apenas R$ 1.247,17 separam os dois primeiros.
Dá para dizer que Ângelo está com o focinho na frente, mas ainda não é hora de soltar as rédeas.
Na terceira posição está Jhonatan Jacques Marques, com R$ 164.089,50, seguido de Rosineide Aparecida dos Santos, com R$ 163.670,02.
André Luiz Ocampos Xavier ocupa o quinto lugar, com R$ 162.281,95, enquanto Lucas Leandro Paes fecha o primeiro pelotão, com R$ 157.752,90.
Depois aparecem Paulo Xavier dos Santos, com R$ 147.615,30; Pedro Aparecido Rosário, com R$ 135.827,65; e Ramona de Lima Aquino, com R$ 132.419,35.
Completam o ranking parlamentar Michele da Cruz Flores, com R$ 107.465,62, e Paulo Henrique Breda Santos, com R$ 101.907,98.
Um detalhe chama atenção: todos os onze vereadores ultrapassaram R$ 100 mil em diárias no período analisado.
Juntos, os parlamentares acumulam R$ 1.610.420,60.
ENTRE OS SERVIDORES, O CONTADOR PUXA O PELOTÃO
No segundo páreo, a liderança traz uma coincidência curiosa. Quem está na frente é justamente o homem dos números.
Rui Almeida Gil Filho, contador, ocupa a primeira posição entre servidores e assessores, com R$ 47.167,71.
Em segundo lugar aparece Simone da Costa Carriço, assessora parlamentar, com R$ 40.379,50.
Logo atrás está Aparecida Gonçalves Guerra, assessora parlamentar, com R$ 40.201,06. Nos documentos ela também aparece como Aparecida Gonçalves, mas a conferência pelo CPF mascarado mostra tratar-se da mesma beneficiária.
A diferença entre segunda e terceira colocadas é de apenas R$ 178,44. Outra disputa que caberia fotografia.
Na quarta posição está Eli Sandro Sanches Cardoso, com R$ 39.917,71. Em 2025 ele aparece como Controlador Geral e, em 2026, como Assessor Legislativo II.
Na sequência há empate. Andre Luiz da Silva, assessor parlamentar, e Renato de Oliveira Rosa, assessor legislativo I, acumulam R$ 39.067,51 cada.
Alzira Rios Weis, assessora de imprensa, vem com R$ 38.294,94; José Carlos de Oliveira, assessor parlamentar, com R$ 37.315,08; e Ariani Samara da Cruz Paulin, assessora de imprensa, com R$ 37.138,86.
Aí aparece uma daquelas coincidências feitas sob medida para um Grande Prêmio.
Diogo Gonçalves da Silva soma R$ 36.367,44.
Logo atrás estão Flavio Henrique Gauna, Flávio Vaner Teixeira Dantas e Luiz Henryque Gonçalves Borges, cada um com R$ 36.367,43.
Um centavo.
Nesse trecho não precisa fotografia da chegada. Precisa de lupa.
Na sequência aparecem Rubirlei Becker Leite, assessor parlamentar, com R$ 34.382,56; Adriana de Oliveira, Secretaria Legislativa, com R$ 34.051,99; Eder Alves Oliveira Junior, com R$ 33.843,56; e Rodolfo Pereira Dias de Souza, assessor parlamentar, com R$ 33.553,74.
Depois vêm Ronni Gil de Queiroz, assessor parlamentar, com R$ 32.895,91, e Paulo Sergio Nazareth dos Santos, assessor parlamentar, com R$ 32.340,29.
É nesse ponto que surge um nome capaz de fazer o apostador conferir o bilhete.
Leide Ligia de Almeida Alves, zeladora, soma R$ 31.682,50 em diárias.
Sim, zeladora. Não é cargo inventado pela reportagem. É a identificação que consta nos documentos oficiais analisados.
Logo abaixo aparecem Rafael Augusto Loreto Ribeiro, assessor parlamentar, com R$ 31.625,11, e Fabio Luis Victorino da Silva, assessor parlamentar, com R$ 30.115,96.
Luciana Gomes de Souza Moraes, assessora parlamentar, soma R$ 29.865,25. Ela também aparece nos registros como Luciana Gomes de Souza, mas a conferência do CPF mascarado permitiu consolidar os pagamentos.
Depois vêm Francilene dos Santos Rodrigues, assessora parlamentar, com R$ 28.982,42; Mariane Pereira Duarte, assessora parlamentar, com R$ 28.427,91; e Marcello de Rezende Giglio, técnico legislativo, com R$ 27.900,75.
Quase emparelhados aparecem Janio dos Santos Jacques, diretor financeiro, com R$ 27.712,73, e Tiago da Rocha, assessor legislativo I, com R$ 27.600,22.
Shirlene Francisca de Assis, assessora parlamentar, soma R$ 26.862,53; Silson Ramos Peralta, assessor parlamentar, R$ 24.218,71; Ruy de Araujo Elias, registrado como controlador interno e depois controlador geral, R$ 22.867,08; e Talissa Balbueno Leite, assessora parlamentar, R$ 20.906,76.
Mais atrás aparecem Cleberson Jacques da Cruz, assessor parlamentar, com R$ 16.200,43; Gustavo Demetrius Dulcrerc Perreli, assessor parlamentar, com R$ 16.005,98; Edvaldo Rebeque Pereira, diretor geral, com R$ 14.066,10; e Carolina Spitza de Azevedo, assessora parlamentar, com R$ 12.114,98.
Na reta final vêm Jessica Akemia Sanches Matsumoto, assessora parlamentar, com R$ 6.669,83, e Lais Jacques da Rocha, assessora parlamentar, com R$ 5.954,64.
Logo depois há um empate triplo. Os vigilantes Pedro Rodrigues da Rocha, Moizes Teixeira e Ernandes Junior Pereira Mayer receberam R$ 4.242,97 cada um.
Fecham o ranking Tereza Izilda Victorio Mandetta Castioni, assessora parlamentar, com R$ 2.700,07; Marcilio Silva dos Santos, assessor parlamentar, com R$ 1.928,62; e Mariana Alves Rodrigues da Rocha, diretora jurídica, com R$ 1.565,40.
R$ 2,76 MILHÕES ACUMULADOS E O ALERTA QUE VEM DE RIBAS
O placar até 11 de setembro é objetivo: R$ 2.764.211,15 em diárias no atual mandato da Câmara de Bonito.
Desse montante, R$ 1.610.420,60 correspondem aos vereadores e R$ 1.153.790,55 aos servidores, assessores e demais beneficiários.
E uma decisão judicial publicada neste mês mostra por que acompanhar diárias não é procurar pelo em ovo.
Em Ribas do Rio Pardo, a Justiça condenou em primeira instância 15 réus a penas que, somadas, chegam a 127 anos e 28 dias de prisão no escândalo conhecido como “farra das diárias”. O ex-presidente da Câmara Adalberto Alexandre Domingues, o Betinho, recebeu a maior pena, 43 anos, dois meses e 29 dias. Todos poderão recorrer em liberdade.
O caso ganhou repercussão nacional e foi investigado pelo Gaeco. Segundo a reportagem de O Jacaré, a denúncia tratou de um esquema de aproximadamente R$ 3,5 milhões em diárias entre 2013 e 2014. Na época, uma diária de vereador chegava a R$ 750.
A comparação exige responsabilidade.
Bonito não é Ribas do Rio Pardo e gasto elevado não significa fraude.
No caso de Ribas, a condenação não ocorreu simplesmente porque vereadores e servidores viajaram muito ou receberam valores altos. A sentença, segundo a reportagem, apontou provas relacionadas à concessão fraudulenta de diárias, simulação de participação em cursos e eventos, falsidade ideológica, fraudes em licitações e contratos e desvio de recursos públicos.
Entre os episódios descritos está o pagamento de diárias para participação em um congresso em Curitiba. Conforme registrado na sentença citada pela reportagem, vereadores e servidores teriam recebido recursos referentes a cursos e eventos dos quais não participaram.
É justamente aí que termina a brincadeira do Grande Prêmio e começa a fiscalização.
O levantamento de Bonito mostra quanto foi pago e quem recebeu. Não demonstra, por si só, qualquer ilegalidade.
A próxima etapa precisa responder outra coisa: para onde foram essas viagens, quais compromissos justificaram os deslocamentos, quem efetivamente participou e qual resultado voltou para a população de Bonito.
Ribas deixou uma lição cara, demorada e bastante clara. A Operação Viajantes levou mais de uma década até chegar à sentença de primeira instância.
Por isso, transparência não deve começar quando aparece o Gaeco, nem terminar quando o dinheiro sai da conta pública.
O Grande Prêmio de Bonito continua até 2028.
Ainda haverá muita pista pela frente.
Mas talvez seja bom manter os binóculos apontados para ela.
Porque existe uma diferença enorme entre cruzar a linha de chegada e cruzar a linha vermelha. E, quando o dinheiro é público, é muito melhor fiscalizar antes que descobrir essa diferença anos depois diante de um juiz.



