Delegada revelou que garota sobrevivente também sofria violência e recebia funções dentro da rede

“Ela não se tornava membro desse grupo. Ela teria que exercer outras funções, como, por exemplo, trazer outras meninas para esse grupo ou praticar atos contra animais.” A afirmação é da delegada Anne Karine Trevisan, titular da DEPCA (Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente) de Mato Grosso do Sul, ao revelar uma nova dinâmica identificada na investigação da Operação Lívia. A informação foi divulgada na manhã desta quinta-feira (17), durante coletiva de imprensa realizada na Delegacia-Geral da Polícia Civil.
A Polícia Civil de Mato Grosso do Sul revelou, em coletiva realizada nesta quinta-feira (17), novos detalhes da Operação Lívia, que investiga a morte da adolescente Lívia, de 13 anos. Grupos digitais chamados de “panelas” coagiam vítimas a se automutilarem e cometiam suicídio. Seis adolescentes entre 13 e 17 anos foram apreendidos no Distrito Federal, São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Bahia, totalizando 12 investigados.
Segundo a Polícia Civil, uma das vítimas submetidas a automutilações pelos grupos chegou a exercer funções determinadas pelos integrantes das comunidades, entre elas atrair outras meninas e praticar atos de violência contra animais. Também participou da coletiva Ivan Barreira, delegado e diretor do DPE (Departamento de Polícia Especializada).
A investigação aponta que essas comunidades, chamadas pelos próprios integrantes de “panelas”, funcionavam com uma estrutura organizada e tinham como finalidade a prática de violência dentro do ambiente digital.
No caso de Lívia, de 13 anos, a Polícia Civil afirma que a adolescente foi coagida durante horas até praticar o ato que resultou em sua morte, em 22 de julho. Integrantes do grupo teriam dado comandos e orientações sobre como ela deveria agir.
Anne Karine afirmou que não houve uma única ameaça determinante para a morte da adolescente. Segundo ela, foram diversas ameaças, todas consideradas graves dentro do contexto de pressão exercida sobre Lívia.
Vítimas eram submetidas a automutilação – A investigação revelou que a violência contra as próprias vítimas fazia parte da dinâmica de permanência nas comunidades. Segundo a delegada, adolescentes eram obrigadas a se automutilar e, em determinadas situações, escrever o nome de integrantes do grupo com o próprio sangue.
No caso de Lívia, a polícia confirmou que ela passou por esse tipo de violência antes da morte. Uma Bíblia utilizada pela adolescente nesse ritual foi apreendida e integra o material analisado pelos investigadores.
Segundo a Polícia Civil, a violência também era utilizada como mecanismo de ascensão dentro das comunidades. Quanto mais atos violentos eram praticados, maior era o prestígio alcançado pelo integrante ou pela “panela”. “Eles ganham fama. Quanto mais violenta é a ‘panela’, mais famosa ela fica entre as outras ‘panelas’”, explicou a delegada.
Duas “panelas” formaram plateia para morte – Outro elemento revelado durante a coletiva foi que a transmissão da morte de Lívia não ficou restrita a uma única comunidade. De acordo com a Polícia Civil, duas “panelas” se uniram para formar uma plateia que acompanhasse o chamado “evento” em tempo real.
A comunicação ocorreu por diferentes plataformas. Segundo a investigação, o Zangi foi utilizado para transmitir os comandos sobre como Lívia deveria tirar a própria vida. O vídeo também circulou pelo Telegram, Discord e Instagram.
A polícia afirma que o conteúdo da morte chegou a ser veiculado no Instagram e no Discord. A transmissão ocorreu pelo Zangi e pelo Discord.
Segundo a delegada, o recrutamento das vítimas começava em plataformas abertas, onde os integrantes procuravam adolescentes considerados vulneráveis.
Os responsáveis pela captação buscavam possíveis vítimas em redes sociais com bate-papo. Após identificar alguma vulnerabilidade, passavam-se por amigos e faziam uma espécie de engenharia social da vida familiar da adolescente.
A partir das informações obtidas, começavam as ameaças e tentavam levar a vítima para dentro da comunidade, onde seria submetida ao chamado “evento”.

A delegada explicou que fotos íntimas não eram necessariamente o principal instrumento de ameaça. Informações sobre família, escola e situações pessoais também eram utilizadas.
Um dos exemplos citados durante a coletiva foi o de uma adolescente que havia terminado um relacionamento e estava em uma situação de maior carência. Ela poderia ser abordada por alguém que se passava por amiga, mas que, na realidade, utilizava uma identidade falsa.
Os investigados utilizavam usernames e fotografias para ludibriar as vítimas. A investigação também identificou como ocorria o recrutamento dos próprios integrantes das “panelas”.
Segundo Anne Karine, os adolescentes frequentavam comunidades públicas relacionadas a determinados assuntos. Entre os grupos identificados estavam comunidades com conteúdos ligados à misoginia e ao nazismo.
A partir do interesse demonstrado pelos adolescentes, os donos das “panelas” começavam a conversar com eles para identificar se tinham o perfil necessário para ingressar na comunidade.
Conforme a delegada, os integrantes eram, em sua maioria, do sexo masculino e não aceitavam realizar “eventos” envolvendo meninos.
Perfis sociais variados – Questionada sobre a classe social dos adolescentes apreendidos, a delegada afirmou que os perfis eram variados. Havia meninos de escolas públicas e particulares e de diferentes contextos sociais.

Uma característica identificada entre os investigados era o isolamento social. Segundo Anne Karine, muitos permaneciam praticamente o dia inteiro dentro dos quartos, trocavam o dia pela noite e mantinham principalmente amizades virtuais.
Durante os interrogatórios, os adolescentes não demonstraram arrependimento pelos atos, segundo a delegada. Ao contrário, apresentaram satisfação e buscavam fama dentro das comunidades.
A delegada afirmou que existe uma necessidade pela violência entre os investigados, mas ressaltou que qualquer avaliação sobre eventual perfil psicológico precisa ser feita por profissionais especializados e não compete à Polícia Civil.
Seis adolescentes – A segunda fase da Operação Lívia foi deflagrada após a análise dos celulares e demais equipamentos recolhidos durante a primeira etapa da investigação.
Com apoio do Cyberlab, do Ministério da Justiça, e de forças policiais de outros Estados, foram cumpridos seis mandados de busca e apreensão no Distrito Federal, São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Bahia.
Os seis adolescentes, com idades entre 13 e 17 anos, foram localizados e apreendidos. Segundo a delegada, todos apresentaram participação efetiva no caso de Lívia e ocupavam posições relevantes dentro das comunidades.
A investigação identificou funções como donos, subdonos e responsáveis pela captação de novas vítimas. Os adolescentes determinavam quando ocorreria um “evento”, quem seria convidado, quem poderia participar e quem ficaria responsável por encontrar uma vítima.
Com os seis novos alvos, 12 pessoas já foram investigadas no caso, considerando os cinco adolescentes e um adulto apreendidos na primeira fase.

A Polícia Civil ainda não detalhou individualmente a função exercida por cada um porque continua extraindo e analisando dados dos aparelhos apreendidos.
Polícia identifica outras vítimas – Além de Lívia, a investigação já identificou outros adolescentes submetidos à violência dos grupos. Segundo a delegada, há vítimas que praticaram automutilação, embora não tenham cometido suicídio.
A quantidade exata não foi divulgada. Parte dos casos está relacionada a outros Estados e deverá ser encaminhada às respectivas polícias para investigação.
A apuração também continua para identificar todos os autores e partícipes da morte de Lívia e verificar a existência de outras vítimas.
A investigação revelou ainda que uma das vítimas que sofreu automutilação chegou a ser utilizada pelo grupo para atrair outras meninas e praticar atos contra animais.
A Polícia Civil ainda não conseguiu contabilizar todo o material virtual apreendido nas duas fases da operação. Segundo Anne Karine, são diversas extrações de celulares, que precisam ser analisadas individualmente para verificar a origem e o conteúdo das informações.
Caso sejam identificados crimes praticados contra vítimas de outros Estados, os elementos serão encaminhados às respectivas polícias, já que a investigação conduzida em Mato Grosso do Sul está concentrada no caso Lívia.
A delegada orientou as famílias a acompanhar o que crianças e adolescentes consomem na internet, verificar com quem conversam e utilizar mecanismos de controle parental.
“Antes se pensava que o perigo estava na rua. Hoje, o perigo para os adolescentes está dentro do espaço virtual”, afirmou.
A investigação da Operação Lívia continua para individualizar a participação de todos os envolvidos, identificar outros autores ou partícipes e verificar a existência de novas vítimas.



