Quem vê o novo credenciamento aberto pela Prefeitura de Bonito para o fornecimento de alimentação individual pode até achar que o município está apenas preocupado com a nutrição da máquina pública.
Mas quando puxamos o fio do novelo das despesas consumidas ao longo dos últimos anos, o que acende o alerta não é apenas o novo edital. É a evolução dos pagamentos e a forma como os fornecedores foram mudando até que, ao final da série histórica, as despesas passaram a ficar concentradas em um mesmo cadastro empresarial.
Longe desta redação afirmar que existe qualquer irregularidade. O que fazemos aqui é organizar dados públicos e mostrar como os pagamentos evoluíram ao longo do tempo. As conclusões cabem aos órgãos de controle.
A dança das cadeiras: como o Fornecedor B ganhou espaço
Em 2021, o cenário era dominado pelo Fornecedor A, que já vinha de contratos anteriores e concentrava os pagamentos daquele período.
Naquele ano, recebeu sozinho: R$ 137.131,60.
O Fornecedor B ainda não aparecia nos pagamentos analisados.
Mas o cenário começou a mudar.
o Fornecedor B passa a aparecer nas contratações de alimentação.
O pagamento daquele ano ficou dividido:
Fornecedor A: R$ 208.330,00
Fornecedor B: R$ 115.039,80
Total pago em 2022: R$ 323.369,80.
O mercado das refeições públicas começava a ganhar um novo participante.
2023: a virada do cardápio, a distribuição dos pagamentos muda completamente.
O Fornecedor A cai para: R$ 42.069,00.
Enquanto isso, o Fornecedor B salta para: R$ 464.180,20.
A diferença chama atenção pela velocidade da mudança na participação dos pagamentos.
Em 2024, o Fornecedor B vence todos os itens da contratação:
Self-service; À la carte; Marmitex.
O valor homologado chega a: R$ 515.295,00.
Em 2025, os relatórios apontam R$ 427.545,70 pagos ao fornecedor B.
Em 2026, até a data do levantamento, já aparecem R$ 235.813,80 pagos ao Fornecedor B
Valor total recebido: R$ 1.685.415,00
A história ganha mais um capítulo quando os documentos públicos mostram que o Fornecedor B passou a aparecer posteriormente com outra razão social, permanecendo vinculado ao mesmo cadastro empresarial.
A mudança de razão social é permitida pela legislação e, por si só, não representa irregularidade.
Mas o detalhe chama atenção de quem acompanha os gastos públicos: ao longo dos anos, os documentos podem apresentar nomes diferentes, enquanto a continuidade do cadastro empresarial permanece.
O histórico mostra que os fornecedores mudaram ao longo dos anos, mas os gastos com alimentação continuaram crescendo.
Outro dado que chama atenção na linha histórica é a evolução dos valores contratados ou homologados para alimentação.
Em 2019, o contrato de alimentação firmado com a empresa A foi de R$ 91.574,00. Já em 2024, o Pregão Eletrônico nº 09/2024 foi vencido pela empresa B, pelo valor total homologado de R$ 515.295,00.
A diferença entre os dois valores é de R$ 423.721,00, o que representa uma evolução aproximada de 462,71% entre o contrato de 2019 e a licitação de 2024.
O dado não indica irregularidade por si só, já que quantidades, demanda, preços de mercado e condições de fornecimento podem ter mudado ao longo dos anos. Mesmo assim, a diferença reforça a necessidade de transparência sobre a evolução dos gastos com alimentação pública no município.
O tempero do Bonito Sem Filtro
Como o histórico até agora mostra que o fluxo de dinheiro com alimentação acabou afunilando em um único CNPJ, o radar precisa ficar ligado. O dinheiro é público. A refeição pode vir na quentinha de alumínio por R$ 38, ou no prato fino de R$ 128, mas a prestação de contas precisa parar de esconder quem é que está desfrutando do banquete.


