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Vi uma enorme bola de fogo, mas não entendi que era o 11/9 – 10/09/2026 – Mundo


No dia 11 de setembro de 2001, eu tinha 29 anos e trabalhava no mercado financeiro em Nova York, em uma divisão do Deutsche Bank no 4 World Trade Center, prédio ao lado da Torre Sul. Cheguei cedo ao escritório. Havia pouca gente. Eu estava perto de uma grande janela de vidro quando o primeiro avião atingiu a Torre Norte.

Senti uma vibração, um barulho muito forte, talvez o calor. Quando olhei para trás, vi uma enorme bola de fogo. Comecei a receber mensagens de colegas, avisando para sair do prédio imediatamente. Desci pelas escadas rapidamente, deixando minha bolsa, meu celular, minhas chaves, tudo. Curiosamente, não estava com medo. Eu simplesmente não compreendia o que estava acontecendo.

Sentamos na calçada perto das torres. Lembro de papéis caindo do céu. Chegamos a imaginar que tivesse ocorrido um acidente com algum avião de acrobacia. Meu pensamento mais banal foi que queria voltar logo para o escritório. Tinha muito trabalho para fazer e todas as minhas coisas estavam lá.

É difícil explicar hoje o grau de desinformação em que estávamos naquele momento. Os celulares eram basicamente telefones, não havia smartphones, redes sociais. Não podíamos abrir um aplicativo e descobrir o que estava acontecendo a poucos metros de nós. Sem saber, estávamos no centro de um dos acontecimentos mais importantes da história contemporânea.

Ficamos ali por cerca de 15 ou 20 minutos. Então ouvi o segundo avião.

Lembro daquele som até hoje. Era um ruído muito forte, como se o avião estivesse acelerando ao máximo. Quando atingiu a Torre Sul, tudo mudou. Começaram explosões. Na minha cabeça, um avião estava sobrevoando e jogando bombas sobre nós. Pensei que não havia como sobreviver.

Tentei entrar em alguns prédios para me proteger, mas as pessoas fechavam as portas. Então comecei a correr, em direção à St. Paul’s Chapel. Havia saído do escritório de salto alto e, a essa altura, já estava descalça. Em algum momento, as explosões diminuíram. Olhei para trás e comecei a ver coisas caindo das torres. Primeiro achei que fossem cadeiras. Depois entendi que eram pessoas.

Foi talvez o momento em que a dimensão daquela tragédia me atingiu. Fiquei completamente anestesiada. Não queria continuar olhando. Só conseguia pensar em uma coisa: precisava avisar meus pais, no Brasil, que eu estava viva.

Tentei um telefone público, mas as linhas estavam congestionadas. Sem conseguir falar com ninguém, fiz o que centenas de pessoas fizeram naquele dia: segui o fluxo. A polícia orientava todos a entrar no metrô. Entrei.

Quando finalmente cheguei à rua 81, onde morava, bati na porta de uma vizinha. Eu não tinha como entrar em casa. Foi diante da televisão dela, quase quatro horas depois de ter deixado o World Trade Center, que compreendi o tamanho do que havia acontecido. As duas torres tinham desabado.

Vinte e cinco anos depois, ainda penso muito naquele dia. Não apenas no que aconteceu em Nova York, mas no que aconteceu comigo a partir dali.

Eu já vinha me fazendo perguntas sobre a vida que levava. O 11 de Setembro não me deu uma resposta. Seria simplista demais dizer isso. Mas tornou algumas perguntas impossíveis de ignorar. Depois de estar tão perto da morte, uma delas ganhou outra dimensão: o que eu queria fazer com a vida que tinha pela frente?

Seis meses depois, decidi fazer um mestrado em Relações Internacionais na Universidade Columbia. Continuei por algum tempo com um pé nas finanças, parte importante da minha formação e da minha história, mas comecei a procurar algo que me aproximasse de um trabalho com propósito e impacto social.

A educação sempre me mobilizou. Nasci na Alemanha, filha de pai alemão e mãe francesa, e cresci tendo contato com jornais e revistas feitos especialmente para crianças. Essas publicações abriram janelas para mim. Mostraram que o mundo era muito maior do que a escola, a casa ou a cidade onde eu vivia. Deram repertório, despertaram curiosidade e, sobretudo, me ensinaram a querer entender.

Quando surgiu a oportunidade de voltar ao Brasil, em 2006, larguei tudo e me mudei com minha família para São Paulo. Foi meu recomeço. Depois de tropeços e fracassos iniciais, em 2011 lancei o Joca, o primeiro jornal de atualidades feito para crianças e adolescentes do Brasil.

Para mim, o Joca nunca foi apenas um jornal. Ele é uma ferramenta de vida. Meu trabalho hoje é dar a eles ferramentas para compreender o mundo desde cedo. Quero que aprendam a perguntar, a duvidar, a buscar fontes confiáveis, a distinguir informação de desinformação. Quero que formem suas próprias ideias. É assim que começamos a formar cidadãos.

Quando olho para trás, vejo que minha vida foi marcada por alguns momentos em que tive a sensação de que tudo estava desmoronando. O 11 de Setembro foi, evidentemente, o mais radical deles. Mas depois vieram outros. Mudei de carreira. Empreendi. Fali. Recomecei. Errei. Mudei o modelo. Mas continuei.

Eu não romantizo o sofrimento. Não acredito que as coisas difíceis precisem acontecer para que algo bom venha depois. Mas acredito profundamente na nossa capacidade de decidir o que fazemos com aquilo que nos acontece.

Talvez essa seja uma das maiores coisas que aprendi desde aquele 11 de setembro: há acontecimentos na vida que nos fazem perder completamente o rumo. Só muito tempo depois conseguimos perceber que, algumas vezes, aquele fim também nos levou a procurar um caminho que jamais teríamos procurado antes.

É nesse sentido que considero o 11 de Setembro um renascimento. Talvez renascer seja exatamente isso. Não apagar o que aconteceu, não esquecer o medo, a dor ou as perdas, mas conseguir transformar aquilo que nos atravessou em movimento e reinventar-se.



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