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BONITO VIROU A CIDADE DO “FUÇA AQUI, FUÇA ALI”: POR FORA BELA VIOLA, POR DENTRO PÃO BOLORENTO

BONITO SEM FILTRO NEWS | OPINIÃO

Fuça aqui, abre ali e, antes de terminar, começa outra. Pilad Rebuá, 29 de Maio, Luiz da Costa Leite, Portal do Formoso, Vila Mimito, ponte da Monte Castelo, BNH e Jardim Andrea desenham hoje um mapa de intervenções que alcança bairros, centro e os principais corredores de circulação.

São várias frentes de trabalho abertas ao mesmo tempo e, até agora, nenhuma dessas obras foi concluída. Antes de entregar uma, abre-se outra. Máquinas e equipes aparecem em diferentes pontos da cidade, os transtornos se multiplicam e o cidadão continua esperando o ponto final. Bonito virou um grande canteiro de obras onde parece haver mais pressa para começar do que para terminar.

A situação fica mais delicada durante o Festival de Inverno. Com eventos no CMU e na região central, Pilad Rebuá e Luiz da Costa Leite, dois importantes corredores urbanos, ficam bloqueadas no entorno da Praça da Liberdade durante a programação, restringindo ainda mais as possibilidades de circulação justamente quando Bonito recebe um volume maior de moradores, turistas e veículos.

E existe um ponto particularmente sensível nesse quebra-cabeça: a ponte da Rua Monte Castelo também está em obras. Quando se mexe em uma ponte e simultaneamente se comprometem corredores que distribuem o trânsito, o reflexo não fica naquela quadra. Espalha-se pela cidade inteira.

O funil começa para quem chega pela rodovia Bonito–Guia Lopes. O trânsito entra pela General Osório e, a partir dela, divide-se entre Rua das Flores e Rua 24 de Fevereiro, que acabam concentrando boa parte do fluxo diante das demais intervenções e bloqueios.

Só que Bonito não recebe apenas automóveis de moradores e turistas. Estamos em período de safra de milho e sorgo, com circulação de carretas, além do fluxo pesado de calcário e cimento. Esses veículos não desaparecem porque existe Festival, palco ou obra no caminho.

Turistas chegando, moradores tentando atravessar a cidade, veículos de serviço, ônibus e caminhões passam a disputar as mesmas alternativas. Não era preciso bola de cristal para prever isso. Safra tem calendário. Festival tem calendário. Obra tem cronograma.

Enquanto o trânsito enfrenta esse funil, novas frentes continuam surgindo. A Infra+ iniciou no BNH outro pacote de reconstrução asfáltica, de R$ 5.841.756,39, com o Jardim Andrea também contemplado. E continuam no mapa Pilad Rebuá, 29 de Maio, Luiz da Costa Leite, Portal do Formoso, Vila Mimito e Monte Castelo.

Nas ruas que não estão em obras aparece outro problema. Há buracos e vídeos publicados por vereadores questionando pavimentos deteriorados, inclusive trechos do já conhecido “asfalto que vira farofa”.

Obra é necessária. O que não parece razoável é transformar praticamente toda a cidade em frente de serviço sem concluir as que já estavam abertas.

Máquina trabalhando rende fotografia. Asfalto arrancado rende vídeo. Visita de autoridade rende postagem. Só existe um detalhe menos fotogênico: entregar a obra pronta.

E estamos falando de Bonito, uma cidade que levou quase quatro décadas para construir uma marca mundial, 19 vezes o o melhor destino de ecoturismo. Uma reputação construída pelo trade, empresários, trabalhadores, guias e moradores.

Some a esse cenário a TCA e o fato de o nome de Bonito ter aparecido em operações e investigações envolvendo suspeitas de corrupção, fraudes e desvios de recursos públicos. Investigação não significa condenação, mas desgaste de imagem não espera sentença judicial.

A velha expressão resume a contradição:

Por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento.

E existe um detalhe que torna o planejamento do trânsito ainda mais difícil de compreender: no mesmo período do ano passado, a via interditada era justamente a Rua das Flores. Muda-se a rua, conserva-se a receita. Um ano fecha-se uma alternativa; no outro, ela praticamente vira a salvação do trânsito.

É uma competência para complicar a circulação que causa inveja.

Agora a Rua das Flores recebe o fluxo que consegue escapar dos bloqueios, enquanto carretas carregadas de milho, sorgo, calcário e cimento dividem espaço com moradores e turistas do Festival.

Que venha o caos. E se vira, bonitense.

Há anos repito uma frase que nunca perde a validade:

Bonito nunca foi para amadores.

Só que agora parece existir uma especialidade nova: abrir uma obra antes de terminar a outra, espalhar frentes pela cidade e deixar para o cidadão descobrir por onde passa.

Não há prova de um propósito deliberado de desconstruir o nome de Bonito. Mas a sucessão de decisões produz uma sensação cada vez mais incômoda de que existe.

Foram quase quatro décadas para construir uma marca reconhecida mundialmente.

Uma  má gestão passa. O estrago na imagem de Bonito pode demorar outras décadas a mais para ser reconstruído.

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