InícioBonito MSBonito pagou R$ 818 mil. Depois veio a mensagem: "Pagaram. Agora só...

Bonito pagou R$ 818 mil. Depois veio a mensagem: “Pagaram. Agora só distribuir.” O GAECO quer saber o resto da história.

Se esta fosse uma biblioteca, a história começaria pelo índice.

Mas como estamos falando da Operação Gutenberg, o livro começa algumas páginas antes da assinatura do contrato.

E, segundo a denúncia do GAECO, é justamente aí que a história começa a ficar interessante.

Capítulo 1 – A editora que nasceu e já virou best-seller dos cofres públicos

Segundo a denúncia, a Editora Avante foi criada em novembro de 2021 com capital social de apenas R$ 40 mil.

Até aí, nada de anormal.

O curioso é que, pouco tempo depois, a empresa já colecionava contratos milionários com diversos municípios de Mato Grosso do Sul.

Entre eles, Bonito.

O contrato nº 170/2022 foi publicado em 28 de novembro de 2022, no valor de R$ 818.958,50.

Segundo o GAECO, justamente por ser uma empresa recém-constituída e com estrutura considerada reduzida, esse crescimento chamou a atenção dos investigadores.

Capítulo 2 – O livro chegou antes da licitação

Agora vem uma parte curiosa da cronologia.

Em 9 de junho de 2022, cerca de cinco meses antes da publicação do contrato, o servidor estadual Ed Carlo Britto Burgatt, segundo a denúncia, pediu ao advogado Gabriel Taquino de Paula os encartes dos produtos da Editora Avante.

O objetivo?

Encaminhá-los para a Prefeitura de Bonito.

A denúncia não identifica quem recebeu esse material dentro da Prefeitura.

Também não aponta, nesse trecho, qualquer resposta de servidor municipal.

Mas a sequência cronológica chamou a atenção do Ministério Público.

Primeiro chegaram os catálogos.

Meses depois veio a contratação.

Coincidência?

Essa é justamente uma das perguntas que ainda aguardam resposta.

Capítulo 3 – O dinheiro caiu

No dia 15 de dezembro de 2022, o Município de Bonito efetuou o pagamento de R$ 818.958,50 referente ao contrato.

Até aí, apenas mais um pagamento público.

Mas, segundo a denúncia, é exatamente nesse momento que a investigação muda de capítulo.

Capítulo 4 – “Pagaram. Agora só distribuir.”

Segundo o GAECO, assim que o pagamento foi compensado, surgiram mensagens atribuídas à responsável pela empresa.

Primeiro:

“Pagaram.”

Logo depois:

“Agora só distribuir.”

É importante deixar claro:

A mensagem não cita Bonito nominalmente.

Quem faz essa ligação é a própria denúncia, ao cruzar o horário da compensação do pagamento realizado pelo Município com as conversas e as movimentações financeiras ocorridas na sequência.

É quase como assistir a um filme em que o diretor faz questão de mostrar o relógio antes da próxima cena.

Capítulo 5 – A distribuição que não era de livros

Segundo o GAECO, logo após o crédito começaram diversas transferências bancárias.

Entre elas:

• R$ 47.103,34 para Rossana Jafar;

• R$ 75.661,27 para Superconteúdo;

• R$ 99.120,00 para Galeria das Letras;

• além de outros pagamentos registrados nos extratos.

O Ministério Público sustenta que essas movimentações integram a dinâmica financeira da organização investigada.

As defesas dos acusados terão oportunidade de contestar essa interpretação durante o processo.

Capítulo 6 – O dinheiro continuou chegando

Quem imaginava que a história terminava em 2022 precisa virar mais uma página.

Segundo a denúncia, em 2024 o Fundo Municipal de Saúde de Bonito voltou a contratar a mesma empresa.

Novo pagamento.

R$ 357.618,00.

Somando os dois contratos, Bonito destinou à Editora Avante:

R$ 1.176.576,50

Mais de um milhão de reais.

Capítulo 7 – Exclusividade ou exclusividade?

Outro ponto questionado pelo GAECO envolve a justificativa utilizada para a contratação direta.

As inexigibilidades foram fundamentadas na alegação de exclusividade dos materiais.

Segundo a denúncia, porém, parte das obras seria da Galeria das Letras e poderia ser comercializada por outros distribuidores.

Essa é uma das teses centrais da acusação e também será objeto de discussão no processo.

Capítulo 8 – E Bonito?

Até aqui, um detalhe precisa ser dito com absoluta clareza.

Nenhum prefeito, secretário ou servidor municipal de Bonito integra a lista dos 17 denunciados nesta ação penal.

Também não aparece, nos trechos relacionados ao município, mensagem indicando que servidor local tenha solicitado ou recebido vantagem indevida.

Mas a própria denúncia informa que a apuração sobre eventuais ilegalidades nas contratações poderá ser objeto de ação penal própria, caso as investigações apontem responsabilidades de outros agentes.

Ou seja…

Este livro ainda não ganhou o último capítulo.

Enquanto isso…

A população continua esperando respostas simples.

Quem recebeu os primeiros encartes enviados à Prefeitura?

Quem escolheu a empresa?

Como foi comprovada a exclusividade dos materiais?

Quem conferiu a entrega dos kits?

Onde estão esses livros?

Quantos alunos utilizaram o material?

Quais resultados foram alcançados?

E talvez a pergunta mais importante de todas:

Depois da Operação Gutenberg, a Prefeitura abriu alguma investigação interna ou preferiu deixar essa história na prateleira onde a poeira costuma esconder capítulos inconvenientes?

Porque uma coisa é certa.

Na biblioteca da transparência, o contribuinte não quer ler ficção.

Ele quer ter acesso ao livro-caixa.

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