Fábio Trad usa o horário eleitoral para dizer que Mato Grosso do Sul teria apenas dois caminhos para governador. O problema é que João Henrique Catan aparece praticamente no mesmo patamar em duas pesquisas diferentes e se apresenta como a direita que rejeita tanto o ciclo Riedel-Azambuja quanto o PT. Quando se abre o retrovisor dos últimos 12 anos, aparecem perguntas demais para caber numa propaganda eleitoral.
Fábio Trad encontrou uma solução simples para uma eleição complicada: decretou que existem apenas duas vias. De um lado, ele, candidato do PT. Do outro, Eduardo Riedel, governador e sucessor político do ciclo iniciado por Reinaldo Azambuja. É uma bela economia de democracia: elimina-se o terceiro candidato na propaganda antes de o eleitor eliminá-lo — ou não — na urna.
O problema é que duas pesquisas recentes colocaram João Henrique Catan num patamar difícil de tratar como figuração. A AtlasIntel apontou Riedel com 49%, Trad com 26% e Catan com 12,4%. Uma semana depois, o Real Time Big Data mostrou Riedel com 42%, Trad novamente com 26% e Catan com 13%. São institutos e metodologias diferentes, portanto não cabe misturar os levantamentos, mas existe uma coincidência politicamente incômoda: nos dois, Catan aparece praticamente no mesmo lugar.
O Real Time trouxe outro dado importante. Na espontânea enquanto 44% não souberam ou não responderam e 7% declararam branco ou nulo. Isso significa que 51% não apontaram espontaneamente candidato algum. Não são 51% de indecisos e muito menos votos esperando Catan passar com um caminhão para recolhê-los. São grupos diferentes, mas revelam um enorme pedaço do eleitorado ainda sem candidato espontaneamente nomeado.
Catan continua em terceiro e precisa crescer. Mas a terceira estrada que Trad gostaria de retirar do mapa já existe.
Muito microfone para uns, sola de sapato para outros
Pela distribuição do horário eleitoral, Riedel ficou com 9 minutos e 20 segundos e 653 inserções, enquanto Trad recebeu 3 minutos e 15 segundos e 229 inserções. Catan não dispõe de tempo gratuito porque o NOVO não atende aos critérios de representação parlamentar exigidos para essa divisão.
A mesma lógica apareceu no pool formado por A Crítica, Campo Grande News, Correio do Estado, JD1 Notícias, SBT MS e TV Guanandi. Foram convidados Riedel, Trad, Delcídio do Amaral e Lucien Rezende para sabatinas de aproximadamente 45 minutos. Catan ficou fora porque o pool adotou o critério de representação partidária previsto pela legislação eleitoral para participação obrigatória. Seu convite seria facultativo.
Não é preciso chamar isso de censura. A própria matemática fornece picardia suficiente: o candidato que aparece com 2% terá aproximadamente 45 minutos diante dos seis veículos; o candidato que supera 12% em duas pesquisas não terá cadeira. A regra conta parlamentares. A pesquisa conta eleitores. Cada calculadora produz sua própria realidade.
Doze anos da “República de Maracaju”
Ao final deste mandato, o ciclo político iniciado por Reinaldo Azambuja e continuado por Eduardo Riedel completa 12 anos consecutivos no Governo de Mato Grosso do Sul. Azambuja governou de 2015 a 2022; Riedel integrou sua administração em postos estratégicos, comandou a Secretaria de Governo e Gestão Estratégica, foi escolhido para a sucessão e assumiu em 2023. Se for reeleito e concluir outro mandato, esse ciclo chegará a 16 anos.
É o que chamamos, com a devida licença do sarcasmo, de “República de Maracaju”. Não é denominação oficial, evidentemente, mas uma referência política à longa continuidade de um mesmo eixo de poder. Mudaram nomes na porta dos gabinetes, rearrumaram-se partidos e alianças, mas a sucessão Azambuja-Riedel é pública e conhecida.
Quem considera positivo o resultado desse período tem todo direito de escolher mais quatro anos. Democracia também permite continuidade. O difícil é pegar continuidade, trocar a embalagem e colocá-la na prateleira da novidade.
É justamente aí que Catan procura espaço: entre o eleitor de direita que rejeita o PT, mas não considera obrigatório renovar o contrato do grupo que governa o Estado desde 2015.
Segurança: discurso armado, delegacia desfalcada
O Governo promete enfrentamento às organizações criminosas num Estado que conhece de perto o narcotráfico de fronteira. Do outro lado da propaganda, o Sinpol-MS aponta déficit de 34% no quadro legal da Polícia Civil, superior a 1.300 cargos vagos.
Ao mesmo tempo, 447 aprovados — 330 investigadores e 117 escrivães — concluíram a formação na Acadepol. Já os policiais em atividade reclamam de valorização. O sindicato contestou o RGA de 3,81% em 2026, afirmou não ter participado da negociação do índice e cobra medidas para a carreira além da reposição inflacionária.
Isso não significa que toda a política de segurança do Estado possa ser resumida nesses números. Significa que eles também fazem parte da conta. Porque facção criminosa pode até aparecer no comercial eleitoral; para prendê-la, continua sendo necessário policial.
Gutenberg: quando os livros chegaram à fila do hospital
Entre os episódios mais graves do período está a Operação Gutenberg, investigação do Gaeco sobre um suposto esquema superior a R$ 27 milhões envolvendo, segundo o Ministério Público, fraudes em contratos públicos, corrupção e lavagem de dinheiro. A responsabilidade individual dos investigados e acusados será definida pela Justiça.
Mas a operação alcançou um lugar onde livro nenhum deveria servir como moeda de negociação: a regulação da saúde pública.
Nesse capítulo aparece Ed Carlo Britto Burgatt, servidor efetivo no cargo de auditor de serviços de saúde, que exercia função de confiança na Secretaria de Estado de Saúde e atuava na estrutura responsável pela regulação de acesso a exames, cirurgias, procedimentos e leitos.
Segundo o material reunido pela investigação, essa influência teria sido utilizada para pressionar municípios a contratar empresas ligadas ao grupo investigado. Nos diálogos atribuídos aos envolvidos surgem expressões como “só opera se fechar”, “deixa o povo sem leito lá” e “senão vai morrer todo mundo”.
Em outra conversa apontada na investigação, Ed Carlo teria mencionado a possibilidade de disponibilizar R$ 300 mil em exames, além de cirurgias, enquanto se discutia uma expectativa de pagamento de R$ 80 mil para ele.
São elementos de uma investigação, não condenações antecipadas. Os envolvidos têm direito à defesa, ao contraditório e à presunção de inocência. Politicamente, entretanto, sobra uma pergunta administrativa bastante simples: quais mecanismos de controle fiscalizavam uma estrutura com tamanho poder sobre o acesso dos pacientes ao SUS antes de o Gaeco bater à porta?
Gutenberg não pode ser reduzida à operação dos livros. O ponto mais assustador aparece justamente onde livro nenhum deveria entrar: na porta do hospital. Quando uma investigação oficial alcança conversas sobre cirurgias e leitos, atrás de cada mensagem existe algo que contrato nenhum consegue transformar em número: uma pessoa esperando atendimento.
Santa Casa: outra porta da saúde pedindo socorro
A Santa Casa de Campo Grande também atravessou grave crise financeira e operacional, levando o Ministério Público a adotar medidas relacionadas a medicamentos, materiais, anestesiologia, pronto-socorro e serviços de média e alta complexidade. Um acordo de R$ 54,1 milhões, firmado no final de 2025, ajudou a quitar atrasos com profissionais e preservar atendimentos.
Isso não significa atribuir pessoalmente a Riedel todos os problemas da instituição, tampouco misturar a Santa Casa com as acusações da Gutenberg. O ponto é administrativo: depois de uma longa continuidade política, a saúde precisa ser avaliada pelas obras e entregas anunciadas pelo Governo, mas também pelos problemas que chegaram ao Ministério Público e à Justiça.
Vitrine é importante. Corredor de hospital também.
JBS, Vostok e os famosos 30%
No retrovisor político também aparecem Joesley e Wesley Batista. As delações que alimentaram a Operação Vostok sustentaram a existência de um suposto esquema de pagamentos relacionado a benefícios fiscais concedidos à JBS durante o governo Azambuja.
Wesley Batista declarou que teriam sido acertados cerca de R$ 70 milhões em pagamentos indevidos, dos quais aproximadamente R$ 53 milhões teriam passado, segundo a versão dos delatores, por empresas e operações envolvendo notas fiscais. A acusação também trabalhou com a alegação de que aproximadamente 30% de determinados valores economizados pela companhia em incentivos fiscais seriam destinados ao suposto esquema.
Daí ficaram famosos os 30%.
Essas afirmações vieram de delações e acusações e não podem ser apresentadas como condenação judicial. Reinaldo Azambuja sempre negou irregularidades, e a ação da Vostok contra ele foi posteriormente trancada, sem condenação criminal.
A ressalva não apaga a história. Apenas coloca cada coisa no lugar correto: acusação é acusação, defesa é defesa e condenação é outra coisa.
Márcio Monteiro e as “vacas de papel”
Nesse mesmo capítulo aparece Márcio Campos Monteiro, ex-prefeito de Jardim, ex-deputado estadual e federal, secretário de Estado de Fazenda durante parte do governo Azambuja e posteriormente conselheiro do TCE-MS.
Segundo a versão apresentada pelos delatores da JBS, Monteiro estaria entre produtores envolvidos em operações nas quais teriam sido emitidas notas fiscais sem a correspondente entrega física do gado. Foi registrado pagamento de R$ 333 mil da JBS em dezembro de 2016, relacionado a 140 cabeças.
Monteiro apresentou versão oposta: afirmou à Polícia Federal que a venda foi verdadeira, os animais existiram e a operação foi legítima, negando participação em irregularidades.
Foi desse confronto de versões que nasceu a irresistível imagem das “vacas de papel”. Segundo a acusação, havia papel sem boi; segundo Monteiro, havia papel e havia 140 bois. Não cabe ao Bonito Sem Filtro News decidir qual versão está correta. Para a crônica política, porém, já é suficientemente peculiar que a existência física de 140 bois tenha virado tema de investigação envolvendo um então secretário da Fazenda e uma das maiores empresas de proteína animal do planeta.
O sarcasmo, nesse caso, não precisa inventar nada.
Os Batista voltam ao roteiro: agora de jato e com malas
Em setembro de 2026, o sobrenome Batista reapareceu no debate eleitoral. Rodrigo Perez Ramos, atual secretário de Estado de Governo e Gestão Estratégica, desembarcou em Campo Grande de um Embraer Phenom 300 operado por empresa ligada à família Batista. Imagens registraram também a retirada de malas da aeronave.
Existe uma coincidência administrativa relevante: Perez ocupa hoje a mesma Secretaria de Governo e Gestão Estratégica que Eduardo Riedel comandou durante o governo Reinaldo Azambuja, antes de Riedel assumir outra função no Executivo e posteriormente disputar o Governo.
Isso não demonstra irregularidade. Demonstra uma continuidade administrativa relevante para contextualizar o episódio.
Catan e Fábio Trad apresentaram representações pedindo esclarecimentos sobre o voo, incluindo questões relativas à aeronave, passageiros, despesas e bagagens. Aqui não cabe insinuação disfarçada de notícia: mala não é dinheiro e avião não é crime. Não há prova pública de que as bagagens contivessem dinheiro, material ilícito ou qualquer objeto irregular, nem de que o simples uso da aeronave constitua crime. A versão apresentada pela coligação governista é de que Perez estava em viagem particular com sua família.
Depois de JBS, Vostok, incentivos fiscais e todo o histórico anterior, o atual ocupante da antiga cadeira de Riedel desembarcar de uma aeronave operada por empresa ligada à família Batista naturalmente produz perguntas. As malas são apenas malas até que alguma prova demonstre o contrário. As perguntas, porém, continuam sendo perguntas.
Riedel e Azambuja: a política da cadeira vazia
Eduardo Riedel não compareceu aos dois primeiros debates entre candidatos ao Governo. Ausência em debate não é ilegal nem prova receio de adversário. Pode ser simplesmente estratégia eleitoral de uma campanha que avalia riscos e benefícios de cada exposição.
Mas estratégia também pode ser submetida à ironia. Quem pede mais quatro anos de mandato provavelmente possui assunto suficiente para algumas horas de perguntas.
Reinaldo Azambuja, candidato ao Senado, também não compareceu aos dois primeiros debates realizados na disputa. Novamente, trata-se de decisão política, não de infração. A conta, entretanto, é curiosa: Riedel pede mais quatro anos no Governo e Azambuja, seis no Senado. Entre os dois, o eleitor é chamado a entregar dez anos de novos mandatos. Algumas horas respondendo perguntas não parecem exigência absurda.
Azambuja leva Nelsinho Trad na suplência
Outro nome que merece atenção na chapa ao Senado é Nelson Trad Filho, o Nelsinho Trad, primeiro suplente de Reinaldo Azambuja.
Nelsinho responde a ação de ressarcimento relacionada a uma acusação de suposta propina de aproximadamente R$ 50,7 milhões envolvendo a licitação do lixo de Campo Grande e a contratação da Solurb. A acusação menciona suposta vantagem indevida e uma operação envolvendo a Fazenda Papagaio, com audiência de instrução e julgamento marcada.
É fundamental registrar: não existe condenação definitiva nesse processo, e Nelsinho tem direito à defesa, ao contraditório e à presunção de inocência.
Também é importante lembrar que suplente de senador não é enfeite eleitoral. Nas hipóteses previstas em lei, o primeiro suplente pode assumir o mandato. Portanto, saber quem acompanha o candidato na chapa não é fofoca. É conferir as letras pequenas antes de entregar uma procuração de seis anos.
Tereza, Dagoberto e o PP com várias opções de montagem
Riedel está no PP. Tereza Cristina também e é uma das principais referências conservadoras de Mato Grosso do Sul. Ela chegou a ser tratada como possível nome para compor como vice a chapa presidencial de Flávio Bolsonaro, mas o PP nacional decidiu pela neutralidade na eleição presidencial, inviabilizando aquela composição nas condições colocadas.
Politicamente, a fotografia é curiosa. Tereza empresta ao PP uma poderosa referência conservadora; quando chegou a hora de o partido nacional escolher formalmente um lado na eleição presidencial, a legenda preferiu a neutralidade.
E dentro do mesmo PP está Dagoberto Nogueira. Não precisamos chamá-lo de petista — porque ele não é. Podemos fazer algo muito mais objetivo: olhar seus atos e deixar o eleitor decidir onde colocá-lo no mapa ideológico.
No caso do escândalo do INSS, Dagoberto colocou seu nome no pedido de criação da CPI em maio de 2025 e posteriormente participou da CPMI. Quando surgiu o requerimento para uma CPMI específica do Banco Master, articulada pelo deputado Carlos Jordy, Dagoberto não apareceu entre os signatários. O deputado declarou ser favorável à investigação do banco, mas defendeu que o assunto fosse apurado dentro da própria CPMI do INSS. Portanto, não cabe dizer que ele foi contra investigar o Master; cabe registrar que não assinou a comissão específica e apresentou outra estratégia para a investigação.
A fotografia fica ainda mais interessante quando se amplia a lente. O Ranking dos Políticos, plataforma independente de acompanhamento parlamentar, apresenta Dagoberto com 93,35% de taxa de alinhamento ao governo, segundo a metodologia da própria plataforma. O índice não significa que o deputado tenha votado 93,35% das vezes “com o PT” e muito menos autoriza chamá-lo de petista.
Mas oferece ao eleitor conservador uma pergunta perfeitamente legítima: como um deputado do mesmo PP que apresenta Riedel como opção da direita alcança índice superior a 93% de alinhamento ao Governo Lula segundo esse levantamento?
No INSS, Dagoberto assinou. Na CPMI específica do Master, não assinou. No conjunto acompanhado pelo Ranking dos Políticos, aparece com mais de 93% de alinhamento ao governo. Nada disso transforma Dagoberto em petista por decreto, mas também torna difícil resumir a discussão dizendo apenas: “é PP, portanto é direita”.
Talvez o PP de Mato Grosso do Sul seja mesmo um restaurante por quilo: Tereza Cristina coloca a direita no prato, Riedel apresenta a etiqueta conservadora, Dagoberto aparece com elevado alinhamento ao Governo Lula segundo o Ranking dos Políticos e, na eleição presidencial, o partido nacional escolheu a neutralidade. A placa continua dizendo PP. O eleitor é que precisa conferir o que está sendo servido.
O Estado cresce. E a conta também
Riedel apresenta Mato Grosso do Sul como um Estado em expansão, atraindo indústrias, investimentos e novos empreendimentos. Há resultados econômicos que sustentam parte desse discurso. Mas existe uma fotografia das contas públicas que também precisa aparecer quando se fala em eficiência: no acumulado até junho de 2026, as despesas com pessoal representaram aproximadamente 60% da receita total do Estado, conforme levantamento baseado em dados do Tesouro Nacional.
Quando se acrescenta o custeio, a conta fica ainda mais apertada: pessoal e custeio consumiram 84% da receita, enquanto os investimentos ficaram em torno de 9%. No período analisado, as despesas cresceram mais rapidamente que as receitas e o Estado apresentou déficit primário próximo de R$ 460 milhões. São números que não anulam obras, crescimento econômico ou investimentos privados; apenas impedem que a discussão fiscal termine no primeiro slide da apresentação oficial.
Existe ainda outra cifra que merece sair das letras pequenas do orçamento. Mato Grosso do Sul prevê aproximadamente R$ 11,95 bilhões em renúncias tributárias em 2026, concentradas principalmente em benefícios relacionados ao ICMS. A estimativa equivale a cerca de 50% da receita considerada no levantamento da LDO. Para 2027, a projeção chega a aproximadamente R$ 12,6 bilhões e, para 2028, R$ 13,4 bilhões. Somadas, as projeções alcançam perto de R$ 37,9 bilhões em três anos.
O Governo defende a concessão desses incentivos como instrumento para atrair empresas, gerar empregos, aumentar competitividade e desenvolver cadeias produtivas. É uma política econômica legítima e que pode produzir retorno. A pergunta que também precisa entrar na campanha é quanto cada bilhão concedido em benefícios fiscais efetivamente devolveu à sociedade em empregos, salários, arrecadação adicional e desenvolvimento regional.
Porque quando o discurso é de eficiência, desenvolvimento e prosperidade, o eleitor também pode olhar para o outro lado da calculadora: aproximadamente 60% da receita comprometida com pessoal, pessoal e custeio consumindo 84%, investimento na casa dos 9% e quase R$ 12 bilhões de renúncia tributária prevista para um único ano.
Aí a pergunta deixa de ser apenas quanto Mato Grosso do Sul cresceu.
Passa a ser quanto desse crescimento efetivamente ficou para o contribuinte depois da folha, do custeio e dos benefícios fiscais.
A terceira estrada
É nesse cenário que Catan resolveu disputar o Governo. Poderia buscar outro mandato proporcional, mas escolheu enfrentar estruturas partidárias muito maiores. Seu partido aparece inclusive no extremo direito da régua partidária elaborada pelo GPS Partidário 2026 da Folha, que analisa votações, frentes parlamentares, migrações partidárias, coligações e doações.
A chapa registrada para a disputa tem João Henrique Catan para governador e Antonio João Coimbra Jacintho para vice, ambos pelo NOVO. Segundo o vice Antonio João Jacintho, em suas falas de campanha ele frisa sempre que quem quer mudança não vota nos mesmos e que a direita raiz está com Catan.
Isso não garante vitória, segundo turno ou voto algum. Catan precisa convencer. Mas Trad pode decretar duas vias e Riedel pode vender continuidade como futuro; pesquisa, conta pública e urna não obedecem ao roteiro do horário eleitoral.
E talvez seja justamente aí que todos esses números se encontrem. Depois de 12 anos do mesmo ciclo, o Estado chega à eleição com um governo falando em crescimento enquanto aproximadamente 60% da receita é consumida por pessoal, pessoal e custeio chegam a 84%, investimentos ficaram em torno de 9% no período analisado e a renúncia tributária prevista para 2026 encosta em R$ 12 bilhões. Ao mesmo tempo, o eleitor ainda carrega no retrovisor Gutenberg, a crise da saúde, o déficit policial, JBS, Vostok, os 30%, as “vacas de papel”, o episódio do jato e as cadeiras vazias dos debates.
Nada disso determina sozinho o voto. Mas tudo isso faz parte da conta.
O Governo tem o direito de apresentar suas obras, investimentos e resultados. Trad tem o direito de tentar transformar a disputa numa eleição de duas vias. Catan tem o direito de dizer que existe uma terceira.
E o eleitor tem o direito de perguntar quanto custou a estrada que já percorreu antes de decidir por onde seguirá.
Antonio João resume o argumento da chapa em uma frase: quem quer mudança não vota nos mesmos.
Catan abriu a terceira estrada.
Agora precisa convencer o eleitor a entrar nela.
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