Antigo diretor é citado em reportagens baseadas no relatório do Gecoc como titular da conta que teria recebido um Pix de R$ 20 mil relacionado a Beto da Pax; registros também mostram ligação profissional anterior entre ele e seu sucessor.
Esta é a segunda parte da investigação sobre o contrato de R$ 9,5 milhões da Infra+ executado na Pilad Rebuá.https://bonitosemfiltro.com.br/suspenso-apos-operacao-aguas-turvas-contrato-de-r-95-milhoes-volta-a-ser-executado-na-pilad-rebua/
Oito dias depois da deflagração da Operação Águas Turvas e cinco dias após a Prefeitura de Bonito suspender dois processos de contratação da Infra+, a empresa passou por uma mudança em sua direção.
*Jerry José Gibertoni, que aparecia como diretor desde abril de 2024, deixou de constar no cargo. Em seu lugar passou a aparecer *Sérgio José Joaquim Fenelon.
A alteração cadastral ocorreu em 15 de outubro de 2025.
A sucessão chama atenção pela proximidade das datas e porque o nome de Jerry aparece em reportagens baseadas no relatório do Grupo Especial de Combate à Corrupção, o Gecoc.
Essa coincidência temporal, entretanto, não permite afirmar que a operação provocou a troca. Para estabelecer essa relação seria necessário ter acesso à ata societária que formalizou a mudança ou a uma manifestação da própria Infra+.
A sequência das datas
Os acontecimentos ocorreram em um intervalo de apenas oito dias:
- 7 de outubro de 2025: MPMS deflagra a Operação Águas Turvas;
- 10 de outubro: prefeito assina a suspensão de quatro processos administrativos;
- 13 de outubro: suspensão é publicada no Diário Oficial;
- 15 de outubro: Sérgio Fenelon passa a constar como diretor da Infra+ no lugar de Jerry Gibertoni.
Um dos processos suspensos foi o PA nº 260/2023, responsável pelo contrato de R$ 9.539.550,70 executado na Avenida Heron do Couto, Pilad Rebuá e vias adjacentes.
A Prefeitura também incluiu na suspensão o PA nº 91/2025, referente a outra contratação da Infra+, de aproximadamente R$ 15,5 milhões.
O que as reportagens atribuem a Jerry
A nota oficial do MPMS sobre a Operação Águas Turvas não cita nominalmente Jerry Gibertoni.
O nome dele aparece em reportagens que afirmam reproduzir informações do relatório produzido pelo Gecoc.
Segundo essas publicações, o então secretário municipal de Administração e Finanças, *Edilberto Cruz Gonçalves, conhecido como Beto da Pax, teria autorizado o pagamento de *R$ 102.445,17 a uma empresa ligada ao empreiteiro Genilton Moreira.
Depois do pagamento, conversas de WhatsApp obtidas pelos investigadores mostrariam Beto encaminhando a Genilton uma identificação de Pix registrada em nome de Jerry José Gibertoni.
No dia seguinte, ainda segundo o conteúdo atribuído ao relatório, teria ocorrido uma transferência de R$ 20 mil para a conta indicada.
Uma reportagem do Midiamax baseada no relatório investigativo afirma que Jerry teria sido apontado como um suposto intermediário — chamado de “laranja” no contexto da investigação — para o recebimento do dinheiro.
“Laranja” é uma expressão utilizada quando se suspeita que o nome ou a conta bancária de uma terceira pessoa tenha sido usado para ocultar o possível destinatário de um valor.
É necessário destacar que:
- a transferência precisa ser analisada no conjunto da investigação;
- a nota oficial do MPMS não identifica Jerry;
- não foi localizada condenação criminal contra ele relacionada ao episódio;
- e a condição de investigado, citado ou suspeito não equivale a uma condenação.
Portanto, não é correto afirmar como fato definitivo que Jerry “foi o laranja de Beto da Pax”. A formulação documentalmente segura é que ele foi apontado dessa forma em reportagens que atribuem a informação ao relatório do Gecoc.
Jerry deixou a direção, mas permaneceu ligado à Infra+
A mudança de outubro de 2025 alcançou a direção administrativa da empresa. Ela não significou, conforme os registros disponíveis, o rompimento completo da relação de Jerry com a Infra+.
Documento do CREA-MS publicado em 2026 informa que ele permanece registrado como responsável técnico da empresa desde 17 de dezembro de 2024.
Em maio de 2026, Jerry ainda solicitou ao Conselho o registro de um atestado técnico emitido em favor dele e da Infra+, relacionado a serviços realizados no Aeroporto Teruel, em Campo Grande. A informação consta na pauta oficial do CREA-MS, páginas 159 e 160.
Assim, os documentos indicam que Jerry deixou a diretoria, mas continuou mantendo vínculo técnico com a companhia.
Quem é Sérgio Fenelon
Sérgio José Joaquim Fenelon é empresário ligado ao setor de construção, pavimentação, mineração e serviços.
Ele aparece como sócio-administrador da BTG Empreendimentos, Locações e Serviços Ltda. e mantém participação ou administração em outras empresas do mesmo setor.
Sua entrada na direção da Infra+ não colocou uma pessoa sem relação profissional anterior com Jerry no comando da companhia.
Em agosto de 2023, a Prefeitura de Porto Murtinho publicou uma reportagem sobre obras de reconstrução asfáltica na qual Sérgio e Jerry aparecem juntos. Sérgio foi apresentado como empresário e Jerry como engenheiro ligado às atividades executadas pela empresa mencionada na publicação como TBG — aparentemente uma referência à BTG Empreendimentos. Veja a publicação de Porto Murtinho.
O registro demonstra que os dois já mantinham relação profissional no setor de pavimentação antes de Jerry deixar a direção da Infra+ e ser sucedido por Sérgio.
Isso não comprova qualquer participação de Sérgio nos fatos investigados na Operação Águas Turvas. Também não foi localizado documento público que o relacione ao Pix atribuído a Jerry.
Coincidência de datas exige esclarecimentos
A documentação disponível permite afirmar que:
- Jerry dirigia a Infra+ quando a Operação Águas Turvas foi deflagrada;
- dois processos de contratação da empresa foram suspensos pela Prefeitura;
- oito dias depois da operação, Sérgio assumiu a direção;
- Jerry foi citado em reportagens sobre o suposto recebimento do Pix;
- os dois já apareciam juntos em atividades profissionais anteriormente;
- e Jerry permaneceu como responsável técnico da Infra+ depois de deixar a diretoria.
O que os documentos disponíveis não permitem afirmar é que a troca de diretor tenha sido provocada pela investigação ou realizada para afastar formalmente Jerry da administração.
Para esclarecer esse ponto, são necessários:
- a ata que formalizou a saída de Jerry;
- a justificativa empresarial para a mudança;
- o resultado da apuração aberta pela Prefeitura;
- e a manifestação da Infra+, de Jerry e de Sérgio.
A operação ocorreu, o contrato foi suspenso e a direção da empresa mudou oito dias depois. São fatos documentados.
A relação de causa e efeito entre esses acontecimentos ainda depende de explicações que não foram encontradas publicamente.

