A violência contra jornalistas não é, infelizmente, novidade no Brasil. Em período eleitoral, esse fenômeno tende a se intensificar, ainda mais tendo em vista o cenário político brasileiro da última década. E, nesses momentos, são as mulheres as principais vítimas desse tipo de agressão nas mídias sociais, com insultos que focam questões de gênero e passam longe de críticas profissionais.
O primeiro relatório do monitoramento de violência contra jornalistas no período eleitoral de 2026, realizado pela CDJor (Coalizão em Defesa do Jornalismo), revelou de 2.630 ataques virtuais a profissionais da imprensa entre os dias 16 e 29 de agosto. Os alvos: 91 veículos de comunicação e 46 jornalistas, sendo as mulheres as mais visadas. A cada 3 agressões online, 2 foram direcionadas a elas.
Entre os casos mais emblemáticos, o levantamento destaca as ofensas às jornalistas Natuza Nery, do Grupo Globo, e Natália Viana, da Agência Pública, ambas vítimas de difamação baseada em violência de gênero. O monitoramento é realizado em parceria com o Labic (Laboratório de Internet e Ciência de Dados) da UFES (Universidade Federal do Espírito Santo).
O resultado parcial do monitoramento não difere, infelizmente, do registrado pela Coalizão nos pleitos municipais de 2024, em que as mulheres também foram as principais vítimas desse tipo de abordagem, chegando a 50,8% das ofensas a jornalistas. Ou seja: a tendência não parece ser de melhora.
Não é coincidência que esse tipo de ataque cresça em um momento em que vemos uma escalada de violência contra as mulheres nas mais diversas formas —mesmo porque essa deslegitimação não nasceu com a internet, mas sem dúvidas ganhou outra dimensão nos ambientes digitais.
Em nível internacional, o cenário é semelhante. O exemplo mais óbvio é o americano, onde os exemplos de hostilidade a jornalistas mulheres, vindos do próprio presidente, não são raros. O último caso aconteceu em agosto, quando a repórter Kristen Holmes, da CNN, questionou Donald Trump sobre sua relação com o ditador norte-coreano Kim Jong-un. O republicano mandou que ela se calasse, chamando-a de grosseira.
Horas depois, um perfil no X ligado à Casa Branca atacou novamente Holmes, divulgando uma mensagem que citava os filhos da repórter, afirmando que “eles ficarão enojados e envergonhados de ter uma mãe tão insensível e vingativa”.
Entidades internacionais alertam que a violência online tende a se complexificar com a expansão das ferramentas de inteligência artificial generativa. Um documento da ONU Mulheres divulgado em abril mostrou que 12% das jornalistas, ativistas e profissionais de mídia já tiveram imagens pessoais e/ou de teor sexual compartilhadas sem consentimento. O estudo também afirma que 6% delas foram vítimas de deepfakes. Ademais, 41% delas confessaram se autocensurar nas redes sociais para mitigar xingamentos.
No contexto em que vivemos, onde os fatos simplesmente não têm mais relevância para a formação de opiniões políticas, parece praticamente impossível tentar explicar que misoginia não é crítica —é ódio. Não se trata de coibir análises ou opiniões à prática jornalística por mulheres, mas de não admitir que elas sejam feitas de modo virulento e sexista, diminuindo e achincalhando a capacidade dessas profissionais apenas por uma questão de gênero.
Assim como a liberdade de imprensa não pode ser confundida com falta de ética e irresponsabilidade, o direito à liberdade de expressão não inclui, de modo algum, uma autorização irrestrita para a prática e a disseminação de discursos odiosos, tanto nas plataformas digitais como fora delas, como esses que sistematicamente diminuem e desprezam mulheres no exercício de suas profissões.


