Tem havido um fenômeno no Japão, mais intenso, que ficou conhecido como doença de Hikikomori (as pessoas acabam por viver um afastamento e isolamento social; a maioria é de jovens). Essas pessoas acabam deixando os seus estudos, trabalhos e toda forma de relações pessoais. Esses jovens acabam tendo um afastamento de tudo, de suas próprias famílias, mesmo que morem na mesma casa.
O nome “isolado de casa” é uma tradução da palavra Hikikomori. Essa doença ainda não tem um lugar na Classificação Internacional de Doenças (CID); embora esteja colocada nas condições relacionadas aos dependentes de jogos e internet.
Segundo os especialistas, essa doença pode ocorrer de duas formas: a primária (quando não está relacionada a outros transtornos mentais) e a secundária (quando está associada a fatores de depressão, ansiedade e fobia social, bullying e outras causas). A partir de alguns estudos e observações, percebeu-se que os jovens sofreram bullying na infância e são oriundos de famílias disfuncionais e, até, em alguns casos, pode haver uma relação com o espectro (TEA), transtorno do espectro autista.
O que é tão preocupante na doença de Hikikomori é ver jovens que passam a viver isolados, trancados em seus quartos. É quase um estado de regressão psicótica, no qual os vínculos mais antigos (familiares e afetivos) vão sendo excluídos. Embora esses jovens não fiquem deitados em suas camas, passam a viver num universo particular, no qual a única comunicação seja por meio das telas, de filmes e da criação de um afastamento quase total.
Esse comportamento pode surgir como uma fuga das situações que foram dolorosas (amores, situações de trabalho, vínculos de amizade) e pode ser uma fuga, ou “proteção”, de situações tão dolorosas (o mundo é sentido como um lugar ameaçador).
Esse quadro foi amplamente discutido no Congresso Encephale, na França, em 2026, o que nos aponta o quanto essa doença tem ocorrido em vários países. E isso nos leva a pensar por que esse afastamento social está se tornando cada vez mais comum entre os jovens.
O que a pandemia mudou e o papel das “conexões”
Sabemos que a pandemia instaurou hábitos que foram importantes, no sentido da casa como uma possibilidade de proteção; e a internet mostrou ser capaz de permitir muitos trabalhos e conexões. Embora muitos desses hábitos tenham passado, algumas necessidades se tornaram um comportamento de exceção.
A nossa clínica terapêutica nos mostra que as “chamadas conexões” podem ser também um mecanismo de se sentirem perto e ligadas a outras pessoas. Esse mecanismo até pode funcionar, embora leve a um afastamento e comprometimento das interações familiares, psíquicas e sociais, traduzindo-se em um enorme medo de ser rejeitado, provocando uma fobia social e emocional.
Um caso clínico: quando o isolamento vira refúgio
Um pouco da clínica – onde não somente os jovens se sentem ameaçados. A paciente em questão se chama Gabriela, tem 44 anos e é arquiteta (viveu alguns anos fora do Brasil). Ela relata sempre ter vivido uma relação difícil com seus irmãos (homens com 5 e 3 anos mais velhos que ela). Gabriela traz a figura do pai como muito forte e importante em sua vida, embora se desse bem com sua mãe; não conseguira fazer o luto.
Vivia uma constante guerra com seus irmãos e vivera um distanciamento muito grande. Acabara se apaixonando por um homem 15 anos mais velho e achava que havia encontrado um novo amor após a perda de seu pai. Esse amor – paixão e idealização – não conseguiu se sustentar; as expectativas eram muito diferentes. E essa dor, somada à de um outro casamento que não dera certo, fez com que Gabriela se refugiasse em sua casa.
Após alguns meses de pequenas e curtas sessões on-line, a nossa relação terapêutica passou a ganhar alguns contornos e, delicadamente, após um longo período, pôde vir ao consultório. Ela pôde falar de seus medos e angústias de enfrentar o mundo, as pessoas, essa realidade tão dolorosa para ela.
Esse trabalho foi uma possibilidade de lidarmos com as dores e medos que muitas vezes acabam por isolar e deixar as pessoas mais sozinhas e adoecidas. Podemos pensar que um certo isolamento pode restaurar algumas dores e feridas tão profundas, que necessitam de um tempo e lugar. Eu chamo esse lugar de um recomeço, de um novo vínculo, como Winnicott fala sobre a necessidade de relações cuidadosas entre a mãe e o bebê. A escuta terapêutica pode ser uma possibilidade para darmos fala e compreensão às angústias e dificuldades que nossa sociedade e cultura nos convocam a intervir.
*Texto escrito pela psicóloga Dra. Dorli Kamkhagi, Head Nacional de Psicologia da Brazil Health – CRP 15511


