InícioEducaçãoEnsinar engenharia de outro jeito não deveria ser novidade - 09/07/2026 -...

Ensinar engenharia de outro jeito não deveria ser novidade – 09/07/2026 – Educação


A Folha lançou uma série sobre os cursos de engenharia no Brasil e seus desafios; o maior deles, hoje, é atrair e reter jovens. O retrato é preocupante: no ciclo 2020 a 2024, 57,2% dos estudantes abandonaram a graduação na área, a maior parte nos dois primeiros anos.

À exceção da computação, a concorrência por vaga nas melhores universidades públicas caiu vertiginosamente desde o início dos anos 2000. Boa parte da explicação está em currículos muito teóricos nos primeiros semestres, que o aluno não consegue ligar à prática profissional.

Não é um destino inevitável: há décadas várias instituições ao redor do mundo vêm reorganizando a formação de engenheiros. Em 2018, o estudo “The Global State of the Art in Engineering Education”, encomendado pelo MIT, apontou o Olin College, nos Estados Unidos, como a principal referência mundial em inovação no ensino de engenharia, com um currículo construído sobre projetos e parcerias com empresas.

O relatório mapeou líderes consolidados e emergentes, como a dinamarquesa Aalborg, que organiza toda a universidade em torno de problemas reais desde os anos 1970, a National University of Singapore e a PUC do Chile, e citou a experiência brasileira do Insper entre as instituições a observar. Naquele momento, a engenharia do Insper tinha apenas três anos. De lá para cá, ajudou a influenciar a reforma das Diretrizes Curriculares Nacionais do ensino de engenharia e inspirou a transformação de instituições tradicionais e a criação de novas, como o Inteli.

O que essas instituições consideradas inovadoras têm em comum? Elas colocam o estudante no centro e desenham seus currículos para proporcionar um aprendizado ativo, com foco em competências, não em uma lista de conteúdos. A experiência mostra resultados consistentes: alunos engajados desde o início do curso, com uma formação conectada ao mercado, capaz de desenvolver competências essenciais ao engenheiro, como empreendedorismo, pensamento crítico e comunicação, sem perder profundidade técnica.

O aprendizado ativo também ataca um problema crônico no Brasil: o abismo entre a forma como a matemática e a física são ensinadas na escola básica e na universidade. O salto abrupto gera reprovações sucessivas, desmotivação e desistência logo no início do curso. Um ensino centrado no aluno permite desenhar disciplinas que suavizem essa transição, em vez de transformá-la em filtro nos primeiros semestres. Um filtro que, durante muito tempo, se comemorou como sinal de rigor do programa, não como falha do processo de ensino-aprendizagem.

Os currículos tradicionais tratam teoria e prática como um dilema. É uma falsa escolha. Quando o estudante enfrenta projetos aplicados, muitos deles a partir de problemas reais trazidos por empresas, a teoria deixa de ser um pré-requisito abstrato e passa a ser a ferramenta de que ele precisa para avançar; é o problema que cria a demanda pelo fundamento, não o contrário.

Esse percurso desenvolve o que nenhuma aula expositiva entrega: autonomia de aprendizagem, a capacidade de reconhecer o que ainda não se sabe e ir atrás. Em vez de competir com o rigor técnico, a prática lhe dá sentido e profundidade. Para isso, as escolas precisam se conectar intimamente com empresas, não só em projetos de pesquisa ou parques tecnológicos, mas dentro do currículo. Fica a dúvida se os incentivos das universidades estão alinhados para que isso se torne realidade na educação brasileira, e não só na engenharia.

A educação passa, cada vez mais, pelo reforço das conexões. Conexão com o estudante, para desenhar uma trajetória centrada na sua experiência de aprendizagem. Conexão com as empresas, para trazer desafios reais e ancorar o aprendizado em problemas concretos. Só assim se constrói engajamento e se forma o profissional que o país precisa: alguém preparado para aprender durante toda a vida.



Veja a matéria completa aqui!

RELATED ARTICLES

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

- Publicidade -

mais vistas