Bonito vive mais uma edição da FLIB, um evento importante para a cultura, a educação e a valorização da literatura. Mas, paralelamente às atividades culturais, outro assunto domina as conversas da cidade: a Operação Gutenberg, deflagrada pelo Gaeco em diversos municípios de Mato Grosso do Sul.
Embora a investigação não tenha sido desencadeada em Bonito, o município aparece no contexto das apurações e volta a despertar a atenção dos órgãos de controle. A lembrança é inevitável. Afinal, quando o assunto é operação policial, Bonito já conhece esse roteiro.
A população ainda guarda na memória a Operação Águas Turvas, investigação que teve início em Terenos e posteriormente chegou a Bonito, culminando com a prisão de secretário municipal e servidores públicos. Agora, diante de uma nova operação de grande repercussão, muitos moradores voltam a se perguntar: será que Bonito poderá viver novamente um capítulo semelhante? Haverá novas fases da investigação? Poderemos assistir, novamente, a possíveis prisões de agentes públicos? Essas respostas caberão exclusivamente às investigações. Mas a apreensão da população dispensa qualquer apresentação.
O momento preocupa porque, enquanto o município constrói há mais de três décadas uma imagem consolidada como um dos principais destinos de ecoturismo do mundo, notícias envolvendo investigações acabam projetando uma imagem completamente diferente daquela construída com muito investimento público e privado, muito esforço coletivo e muito suor do trade turístico, dos empresários, dos trabalhadores e de toda uma comunidade que ajudou a transformar Bonito em referência internacional. Parece que alguns insistem em trocar as águas cristalinas pelas manchetes policiais.
A reputação de um destino turístico não se constrói da noite para o dia. Ela é fruto de planejamento, investimentos, preservação ambiental, profissionalismo, muito esforço e muito suor. Mas basta uma sucessão de suspeitas, operações e escândalos para colocar décadas de trabalho coletivo em risco. Destruir uma reputação costuma ser muito mais rápido do que construí-la.
E fica uma reflexão que certamente muitos bonitenses fazem: de quem é a responsabilidade por esse cenário? De uma eventual má gestão? Da falta de fiscalização? Ou de um Poder Legislativo que, enquanto deveria exercer seu papel constitucional de fiscalizar o Executivo, parece mais preocupado em funcionar como escudo político? Fiscalizar dá trabalho. Blindar, aparentemente, tem sido bem mais confortável.
E a população? Vai começar a cobrar dos seus vereadores uma fiscalização firme e independente ou continuará em sua letargia, assistindo passivamente ao desgaste da imagem de Bonito e permitindo que o dinheiro público continue sendo desperdiçado? Porque, quando a fiscalização falha, quem paga a conta é sempre o contribuinte — e quem perde é uma cidade inteira que levou décadas de trabalho, investimento, dedicação e muito suor para construir o nome que hoje corre o risco de ser lembrado por motivos bem diferentes dos seus atrativos naturais.
Bonito Sem Filtro: enquanto a FLIB celebra livros e conhecimento, muitos bonitenses torcem para que os próximos capítulos da história de Bonito não sejam escritos em mandados de busca, operações policiais e possíveis prisões. Afinal, um destino turístico vive da confiança. E confiança, quando se perde, não se recupera com discurso, fotografia ou propaganda oficial.


