O Piauí foi o estado que registrou o maior avanço para o ensino médio desde o início da série do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica). Em 2005, o estado tinha o menor resultado do país para essa etapa, de 2,3, mas, em duas décadas, conseguiu mais do que dobrar esse resultado e alcançou a segunda maior nota.
Os resultados do Ideb 2025, principal indicador de qualidade da educação brasileira, foram divulgados nesta quarta-feira (5) e mostraram que a rede estadual do Piauí alcançou nota de 4,9 —atrás apenas do Paraná nessa etapa.
O crescimento de 2,6 pontos nesse período é o maior registrado no país. Goiás e Pernambuco ficam atrás, com aumento de 2 pontos no Ideb para o ensino médio.
Assim como em grande parte dos estados, parte da melhoria do Ideb do Piauí se deve ao aumento da taxa de aprovação dos estudantes. O indicador é calculado com a combinação da taxa média de aprovação (fluxo escolar) e a nota média dos alunos em provas de matemática e português.
Nesse período, a rede piauiense passou de 65% de aprovados no ensino médio para 99,5%. Dos cerca de 103,3 mil alunos matriculados nessa etapa, o estado registrou que apenas 103 estudantes foram reprovados e que 415 abandonaram os estudos no ano passado.
Mais do que chegar ao teto da aprovação, assim como outros estados, o Piauí se destaca por ter conseguido aumentar significativamente a proficiência dos estudantes. Nessas duas décadas, a nota média em matemática subiu 46,84 pontos, chegando a 286,6 (em uma escala de 500). Em português, a média piauiense subiu 43,17 pontos.
Esse crescimento está muito acima da média das redes estaduais do país, que avançaram 8,46 pontos em matemática e 24,63 pontos em português, no mesmo período.
A maior parte do crescimento da proficiência dos estudantes do Piauí está concentrada nos últimos dois anos. De 2023 a 2025, o avanço em matemática foi de 20 pontos e 13, em português.
Essa variação é considerada relevante por estudiosos, já que a escala das notas estabelece que o avanço de 12 pontos representa a progressão de um ano inteiro de aprendizado. Ou seja, desde 2005, os estudantes do Piauí passaram a aprender o equivalente a quase quatro anos a mais do conteúdo de matemática.
Para o secretário de Educação, Rodrigo Torres, a melhoria registrada pelo estado, acelerada sobretudo nos últimos dois anos, não foi por acaso. Em 2023, o governador Rafael Fonteles (PT) decidiu que a educação seria o eixo estruturante de seu projeto para o desenvolvimento do estado.
O plano, segundo ele, envolveu a meta de universalizar o ensino integral para essa etapa, integrado à educação profissional. Nesse período, o estado passou de 21% para 81% das matrículas de ensino médio em tempo integral, atingindo o maior percentual do país. Pernambuco, com a segunda maior cobertura, tem 61% dos alunos nessa modalidade.
“A gente conseguiu desconstruir aquele mito de que, ao aprovar muito, o desempenho cai. Passamos a fazer um trabalho de acompanhamento individualizado do aluno, que evita que ele abandone a escola e, ao mesmo tempo, faz com que ele consiga aprender melhor”, disse Torres à Folha.
O secretário afirma que a ampliação do tempo integral exigiu prioridade política e planejamento. “A gente tinha 96 escolas com esse modelo. Hoje, são mais de 500. Não construímos nenhuma nova escola, mas precisamos reformar quase todas para que tivessem a infraestrutura adequada, com laboratórios, quadra, refeitório. Ainda falta a reforma em algumas.”
“Isso tudo envolve um investimento alto, mas entendemos que ele era necessário para melhorar a qualidade da educação.”
Torres também refuta estudos recentes que têm apontado pouco avanço das escolas de tempo integral no Ideb. Para ele, os dados precisam ser interpretados com cautela.
“Quando você amplia o universo de escolas em tempo integral, como ocorreu no país nos últimos anos, essa conta envolve todo tipo de escola: aquelas que eventualmente tinham estrutura pior, desempenho mais baixo, alunos com menor nível socioeconômico. Antes, esse modelo atendia um grupo menor, com melhor condição. Então, acho que a interpretação não pode ser precipitada.”
Ele ainda defende que seja avaliado o tipo de ensino que é ofertado nas escolas de tempo integral. “Não é simplesmente aumentar o tempo do aluno dentro da escola. Precisa haver uma mudança curricular. Nossos alunos têm as disciplinas comuns, recomposição de aprendizagem, mas também têm o curso técnico, disciplinas de inteligência artificial e educação financeira e também tempo para atividades esportivas e culturais.”
Outro fator que ele avalia ter contribuído para os avanços no Ideb é o Pé-de-Meia, programa federal que paga a estudantes bolsas mensais. Hoje, 83% dos alunos do ensino médio do Piauí recebem o benefício criado pelo governo Lula, do qual a gestão estadual é aliada. “Com certeza, colabora para que aquele jovem em situação mais vulnerável não seja obrigado a sair da escola para trabalhar.”
“Mas há também um trabalho de convencimento da sociedade. Nós temos trabalhado com um pacto social para reforçar a importância dos alunos de 15 a 17 anos ficarem na escola. É também uma questão cultural que precisa ser alterada. A gente precisa convencer as famílias de que, se o jovem terminar o ensino médio, ele tem possibilidade muito maior de aumentar sua renda no futuro. Esse é o desafio e acho que estamos conseguindo.”
