O município doou nada menos que 156 mil metros quadrados de patrimônio público à SANESUL, distribuiu isenções tributárias de bandeja por décadas e, como grande prêmio de consolação, agora anuncia com orgulho um “acordo histórico” para quitar a dívida de água do próprio hospital em carinhosas 100 parcelas. Diante de tanta generosidade, a pergunta que não quer calar continua pairando no ar: afinal de contas, quem saiu dando risada nessa parceria?
Dizem por aí que não existe almoço grátis. Em Bonito, a nobreza local descobriu que não existe sequer água grátis, nem quando o copo d’água é para a UTI.
Na primeira parte desta minuciosa investigação, o Bonito Sem Filtro News já havia escancarado a piada de mau gosto: a dívida de água do Hospital Darci João Bigaton, que começou a mofar lá em 2001, virou uma bola de neve astronômica de R$ 1.722.583,09 no gabinete do juiz.
O enredo é uma comédia pastelão administrativa: faturas vencidas acumulando poeira, um silêncio sepulcral e sem contestação em 2015, condenação definitiva e um plano de pagamento que nunca deu as caras. Enquanto os gestores olhavam para o teto, a conta crescia alegremente até bater no R$ 1,7 milhão. Competência pura!
Eis que surge o novo capítulo dessa epopeia. Em um figurado vídeo gravado na própria sede da Sanesul, na Capital com direito a tradicional a famosa “Bajulada” nos seus políticos de estimação, com o carimbo do triunfante “dever cumprido”, o prefeito anunciou o grande feito: parcelaram o rombo em 100 parcelas de R$ 8 mil. A soma de R$ 800 mil no total. Traduzindo do juridiquês para a vida real: serão 8 anos e 4 meses sangrando os cofres públicos para pagar por algo que a própria omissão municipal deixou explodir. Se esse “misericordioso” acordo é um desconto generoso sobre a cobrança judicial ou só a entrada do problema, os documentos futuros que se matem para explicar. Por enquanto, fiquemos apenas com a performática declaração pública do nosso ilustre prefeito.
Uma história de amor que começou em 1972Muito antes dessa conta salgada bater à porta da saúde, Bonito já havia escancarado as portas (e os cofres) para a empresa de saneamento. Em maio de 1972, a Prefeitura autorizou a concessão. Em outubro, selaram o matrimônio.
E a concessionária não levou apenas o direito de explorar o serviço e faturar. Levou também o combo ostentação: isenção de impostos municipais, passe livre para usar áreas públicas, carta branca para promover desapropriações e, para fechar com chave de ouro, a promessa de que a própria Prefeitura taparia os buracos das ruas abertas pelas obras da rede. Bonito não entregou apenas uma concessão; entregou a chave da cidade com um laço de fita.
O patrimônio também entrou no banquete
Se faltava terra, o Cartório de Registro de Imóveis refresca a memória dos esquecidos com três doações de fazer inveja a qualquer investidor:
1982: 3.500 m² na Vila Donária (um agradável aperitivo).
1988: 2.500 m² para o sistema de abastecimento (a entrada).
2005: uma modesta gleba de 150.000 m² para a Estação de Tratamento de Esgoto (o prato principal).
Resultado? 156.000 metros quadrados de patrimônio público doados. Ou, para quem prefere a ostentação rural: 15,6 hectares.
Nas escrituras, é claro, ninguém teve a “audácia” ou o brilhantismo de registrar um centavo de pagamento ou de exigir em troca a garantia de água de graça para o Hospital, escolas ou postos de saúde. Afinal, por que pensar no futuro, não é mesmo?
E a contrapartida? Ah, a contrapartida…
Após meio século de um romance onde Bonito só doa terras, concede privilégios e alivia impostos, a população comete o “absurdo” de perguntar se não cabia uma contrapartida decente para proteger a saúde pública.
O Hospital Darci João Bigaton jamais viu a cor da gratuidade. O contrato de 2016 até acenou com um “generoso” desconto de 50%, mas com uma pegadinha: só valia se a conta estivesse em dia, exatamente o que uma instituição sufocada não conseguia fazer.
Enquanto isso, na vida real, a ironia alcança níveis poéticos: o Sindicato Rural de Bonito fornece água para o hospital e, reza a lenda local, não recebe nem um “muito obrigado” para custear a energia da bomba do poço. Na Câmara, a vereadora Michelle Flores sugerir através de indicação uma ideia absurdamente lógica: instalar painéis solares para baratear a energia usada na bomba e aliviar o Sindicato Rural de Bonito. Uma solução simples, barata e sem drama. Mas qual seria a graça se não houvesse uma briga judicial milionária para arrastar por anos?
O silêncio do município é de ouro (literalmente, para quem cobra)
Os autos do processo revelam a cereja do bolo: quando a ação estourou em 2015, o hospital foi oficialmente citado para se defender. E o que fez? Nada. Veio a condenação. A Justiça pediu um plano de pagamento. O hospital fingiu que não era com ele. O tempo passou, os juros, que nunca tiram férias, trabalharam incansavelmente, e a conta virou uma obra-prima de sete dígitos.
No fim das contas, a matemática de Bonito é brilhante: doou terrenos, perdoou tributos, financiou infraestrutura, calou-se no tribunal e agora comemora o privilégio de pagar em 100 suaves prestações.
Ilegal? A Justiça diz que não. Tudo dentro das estritas regras do jogo. Apenas documentos frios mostrando que Bonito soube ser um parceiro incrivelmente dócil e generoso. Afinal, depois de 50 anos de concessão e 15,6 hectares doados, quem seria ingênuo a ponto de esperar que o hospital da cidade tivesse prioridade sobre o boleto no fim do mês?
Água é essencial. Saúde também. Mas em Bonito, pelo visto, a prioridade máxima é garantir que a conta chegue, e que a população continue pagando.
No fim das contas, a matemática da gestão pública adora essa receita: privatiza-se o filé, socializa-se o osso e a conta do restaurante fica sempre para o contribuinte pagar em “suaves” 100 parcelas, com direito a brinde de juros, jargão bonito nas redes socias esse prefeito se supera, afinal, pimenta no olho do contribuinte é refresco.
