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Após vinte anos de planejamento e 1 bilhão de dólares investidos, museu de George Lucas abre as portas


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Visto de fora, o museu criado por George Lucas no coração de Los Angeles parece saído de um roteiro de ficção científica. É uma estrutura branca, curvilínea, com janelas que mais lembram para-brisas, apelidada pelos locais de “nave espacial”. O arquiteto chinês Ma Yansong, autor do projeto, prefere a imagem de uma nuvem ou de uma copa de árvore pairando sobre o terreno. Não colou. O prédio remete mesmo ao capacete dos Stormtroopers, de Guerra nas Estrelas. Ele ocupa um antigo estacionamento no Exposition Park, ao lado do Coliseum, que sediou as Olimpíadas de 1984 e voltará a receber os Jogos em 2028, dos museus de ciências e de história natural, e da Universidade do Sul da Califórnia. Esse novo templo de entretenimento, cultura e tecnologia é a cara de Hollywood — e abrirá suas portas no próximo dia 22, após uma saga épica que durou duas décadas.

VISIONÁRIO - O premiado diretor: “Tenho fascínio por fazer coisas que dizem ser impossíveis”
VISIONÁRIO - O premiado diretor: “Tenho fascínio por fazer coisas que dizem ser impossíveis” (Beata Zawrzel/NurPhoto/Getty Images)

O surpreendente é que o local não foi a primeira opção quando o cineasta iniciou o planejamento, em 2006: ele sonhava em construir seu museu em San Francisco, sua cidade natal, com Chicago como plano B — mas o interesse das duas cidades não foi recíproco. As obras em Los Angeles começaram em 2018, e a pandemia adiou por quatro anos a inauguração, antes prevista para 2021. “Sou do contra”, disse Lucas à imprensa. “Tenho fascínio por fazer coisas que dizem ser impossíveis.”

A primeira impressão que o cineasta fez questão de afastar é a de que construiu um templo em homenagem à sua principal obra, o universo de Guerra nas Estrelas. Os robôs R2-D2 e C-3PO, a Millennium Falcon em miniatura e o landspeeder de Uma Nova Esperança estão lá e vão atrair multidões, mas a CEO da instituição, Tracey Bates, lembra: “A saga ocupa só 7% do museu”. O conceito do novo espaço é mais amplo: ele pretende abranger tudo que for “arte narrativa”, guarda-chuva em que cabe qualquer obra dedicada a contar histórias. Pintura, quadrinhos, fotografia, murais, cinema, tudo tem espaço no Lucas Museum of Narrative Art.

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FORÇA GALÁCTICA - Os robôs cultuados do universo Star Wars: obra do cineasta ocupa só 7% do acervo
FORÇA GALÁCTICA – Os robôs cultuados do universo Star Wars: obra do cineasta ocupa só 7% do acervo (Mario Tama/Getty Images)

A jornada que o museu quer contar começa na galeria do térreo, com pinturas rupestres exibidas em telas de LED, e termina na galeria de mangá, num retrato de Pikachu vestido como Van Gogh. “Todo tipo de arte, de certa forma, conta uma história”, explica o curador, Ryan Linkof. “Mas para nós o critério é: esse objeto está interessado em narrar algo?”.

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A força do acervo aparece na mistura deliberada entre “alta” e “baixa” cultura: Frida Kahlo divide uma galeria com a fantasia original de Batman — O Cavaleiro das Trevas, e um Diego Rivera — recriação do mural O Homem Controlador do Universo, destruído em 1934 — divide espaço com quadrinhos de Charles Schulz e Robert Crumb, além de ilustrações de Norman Rockwell e Frank Frazetta. Uma das galerias justapõe a tela O Fugitivo, de Rockwell, com a releitura crítica que a revista MAD fez da obra décadas depois. A surpresa da pré-abertura foi um Banksy inédito: na entrada da galeria infantil, o artista britânico de identidade misteriosa instalou um par de leões de pedra com um chicote na boca e uma cartola caída aos pés, o focinho manchado de tinta vermelha. Mais peças suas aparecem na exposição inaugural sobre arte em espaços públicos.

SURPRESAS - Criação do britânico Banksy numa das galerias: coleção reúne da arte de rua aos quadrinhos
SURPRESAS - Criação do britânico Banksy numa das galerias: coleção reúne da arte de rua aos quadrinhos (David Crane/Getty Images)
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Para Lucas, tudo isso converge numa ideia simples e ambiciosa. “Uma imagem é muito poderosa, e as histórias são muito poderosas”, disse o cineasta a 300 jornalistas reunidos na pré-abertura à imprensa. “A arte narrativa cria um grupo de pessoas com um sistema de crenças comum, que permite trabalhar junto, não se matar, e fazer coisas que uma pessoa sozinha não conseguiria”, completou, aludindo à experiência de trabalhar em superproduções como seus filmes.

Foram quase duas décadas de busca por espaço, recusas, atrasos e trocas de comando no projeto. Passaram pela instituição duas CEOs e um curador-chefe antes da atual gestão, vítimas tanto das dificuldades práticas da empreitada como da própria conceituação da ideia. A esposa de Lucas, Mellody Hobson, assume a “acusação” de dar um ar de entretenimento à cultura sem constrangimento: “É um museu do povo, para o povo”. O lugar é a realização do sonho do casal, que bancou o custo de 1 bilhão de dólares do próprio bolso. A nave dos sonhos pousou — não numa galáxia muito distante, mas na sortuda Los Angeles.

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Publicado em VEJA de 11 de setembro de 2026, edição nº 3012



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