A proposta de abrir a comercialização direta dos passeios de Bonito vem sendo apresentada como modernização, liberdade de mercado e aumento da concorrência. Até aí, discurso bonito combina perfeitamente com Bonito. O problema começa quando se olha quem está ao redor da mesa, quem representa os setores interessados e quem poderá ganhar economicamente se as regras forem alteradas.
O Bonito Sem Filtro decidiu fazer o caminho inverso. Em vez de começar pelo nome, seguimos os cargos, os negócios e as entidades. E encontramos um personagem que, nesta matéria, permanecerá sem nome. Não porque sua identidade seja desconhecida, mas porque o que interessa agora é mostrar quantos chapéus uma mesma pessoa consegue usar enquanto se discute o futuro da principal atividade econômica do município.
Nos registros públicos pesquisados, esse personagem aparece simultaneamente como 1 empresário e sócio-administrador de atrativo turístico em Bonito, 2 dirigente ligado a grupo empresarial que reúne importantes empreendimentos turísticos da região, 3 suplente de representação da ATRATUR no Conselho Municipal de Turismo, 4 titular da representação da mesma associação no Conselho Empresarial de Turismo e Hospitalidade de Mato Grosso do Sul e 5 participante antigo de entidades e discussões institucionais relacionadas ao modelo turístico de Bonito.
Cinco posições ou vínculos relevantes em torno do mesmo setor.
Nenhuma delas, isoladamente, representa irregularidade. Empresário pode participar de associação, associação pode participar de conselho e conselho existe justamente para reunir representantes dos setores envolvidos. O problema jornalístico aparece quando uma mudança de legislação pode beneficiar economicamente determinado segmento e uma associação desse mesmo segmento aparece como responsável pela contratação da pesquisa utilizada para demonstrar que o trade apoia a mudança.
Segundo o documento da chamada “Abertura do Mercado”, foi a ATRATUR quem contratou a pesquisa apresentada como termômetro da opinião do trade. Nela aparecem 83,3% de aprovação no transporte, 78,3% entre atrativos, 62,5% no comércio e entre guias e 60% na gastronomia. Curiosamente, a tabela apresentada não informa o número absoluto de entrevistados de cada segmento. Na hospedagem, há outro detalhe delicioso: 41,7% são favoráveis e 45,8% contrários. Ou seja, justamente ali os contrários superaram os favoráveis.
A pergunta, então, deixa de ser apenas se o mercado deve ou não ser aberto.
Passa a ser: quem decidiu fazer essa pesquisa, quem pagou, quanto custou, quem escolheu a empresa responsável, quem elaborou as perguntas e quais dirigentes da entidade participaram da articulação para levar seus resultados aos vereadores?
São perguntas absolutamente normais quando uma pesquisa privada começa a ser utilizada para influenciar uma decisão pública.
O interesse econômico também existe e não precisa ser escondido. Os atrativos podem se beneficiar da possibilidade de ampliar vendas diretas e reduzir despesas com intermediação. As agências, por sua vez, possuem interesse econômico na preservação de seu espaço dentro da cadeia. Não há santo nem vilão automático nessa história. Há dinheiro, mercado e interesses legítimos disputando regras.
O estranho é tentar vender a discussão como se fosse apenas uma batalha filosófica pela liberdade do turista.
O próprio documento afirma que existem agências cobrando comissões de 25%, 30% e até 40%. Depois promete que, com a abertura, haverá redução dessas comissões, mais dinheiro para divulgação, maior ocupação dos atrativos e manutenção das agências locais entre os principais vendedores.
Se diminuir comissão é apresentado como benefício da mudança, então existe necessariamente dinheiro em jogo. E quanto maior o atrativo e seu volume de visitantes, maior pode ser a dimensão econômica da alteração.
Nosso personagem oculto não surgiu ontem nesse cenário. Os registros encontrados mostram participação antiga nas discussões institucionais do turismo e presença em diferentes espaços de representação. Também aparece ligado a empreendimento turístico beneficiado por investimento público em estrada de acesso, num convênio que passou de R$ 1,7 milhão, destinado à recuperação de aproximadamente sete quilômetros. Isso, por si só, não significa favorecimento: estrada é infraestrutura pública e pode beneficiar toda uma região. Mas ajuda a demonstrar o tamanho da interlocução desse personagem com o poder público.
E existe uma contradição histórica interessante.
Em discussões anteriores sobre o turismo regional, esse mesmo personagem já apareceu defendendo ou utilizando como referência justamente o Voucher Único e o modelo de controle de Bonito. Agora, a discussão capitaneada pelo setor dos atrativos não é necessariamente acabar com o Voucher. A proposta apresentada diz que ele continuará existindo para controlar a capacidade de carga. O que muda é algo muito mais interessante: quem poderá vender diretamente o passeio e ficar com a parcela econômica hoje destinada à intermediação.

Aí o Paraíso das Águas Turvas começa a ficar um pouco mais turvo.
Não encontramos até agora documento provando que nosso personagem oculto seja o autor da proposta, que tenha pago pessoalmente pela pesquisa ou que tenha negociado vantagem particular com vereadores. Portanto, não faremos essa acusação.
Mas encontramos algo suficiente para exigir transparência: uma pessoa com pelo menos cinco posições, vínculos empresariais ou representações relevantes dentro do mesmo universo econômico que será diretamente afetado pela mudança, enquanto a entidade representativa dos atrativos aparece como contratante da pesquisa utilizada para sustentar politicamente a abertura.
Por isso, antes de votar qualquer mudança, a Câmara poderia exigir da ATRATUR a íntegra da pesquisa, o contrato da empresa responsável, o valor pago, a fonte dos recursos, a metodologia, o número absoluto de entrevistados e a ata que autorizou sua contratação.
E poderia pedir também as atas do COMTUR nas quais a abertura do mercado foi discutida.
Aí saberemos quem estava presente.
Quem defendeu.
Quem discordou.
Quem votou.
E principalmente quem colocou a proposta para andar.
Por enquanto, não precisamos dar nome ao personagem.
No Paraíso das Águas Turvas, às vezes é melhor acompanhar primeiro as pegadas deixadas na margem.
Depois a gente acende a luz.

