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O tio da menina de quatro anos, que morreu com marcas de violência, foi preso nesta quinta-feira (20), em Porto Alegre. O homem, que até então estava em local incerto, apresentou-se a uma guarnição da Brigada Militar e prestou depoimento sobre o caso. A ocorrência foi registrada e, depois, encaminhada à 3ª Delegacia de Polícia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (DECA).
A menina, identificada como Samylle Valentina Borba Ramiro, chegou sem vida a uma UPA de Porto Alegre. Segundo a delegada, Alice Fernandes, responsável pelo caso, o tio confessou o crime no depoimento. Ele relatou que a criança havia feito cocô e que, ao tentar repreendê-la, deu palmadas no bumbum dela. O suspeito negou ter cometido qualquer outro tipo de agressão ou utilizado algum instrumento contra a menina.
Apesar da versão apresentada pelo homem, a delegada foi categórica ao afirmar que a causa da morte foram agressões, incluindo politraumatismo. “Ainda esperamos mais detalhes que só saberemos com o laudo, mas uma coisa já está posta: ela foi morta por agressões, inclusive com politraumatismo”, afirmou Alice Fernandes. A delegada disse, ainda, que o suspeito demonstrou arrependimento durante o depoimento e alegou que não tinha intenção de matar a sobrinha, afirmando que “se excedeu na correção”.
Trajetória de guarda
A delegada detalhou à reportagem a trajetória da guarda de Samylle nos últimos meses. A mãe da menina havia retomado a guarda das duas filhas após um pedido judicial. Depois do fim de um relacionamento, ela passou a viver com outro companheiro e levou as crianças consigo. Durante uma separação temporária, no entanto, ficou sem ter onde morar e deixou as filhas aos cuidados de uma amiga, que permaneceu com as meninas por cerca de dez a quinze dias.
Posteriormente, por decisão da família, a filha mais velha foi morar com o pai, enquanto Samylle ficou sob os cuidados de uma tia. Essa tia procurou o Conselho Tutelar e, depois, a Defensoria Pública, e desde julho tinha a guarda provisória da menina, já encaminhando a regularização da situação.
Segundo a delegada, a mãe demonstrou estar muito abalada durante o depoimento e relatou sentir-se culpada pela morte da filha, afirmando que não via a menina há cerca de dois meses e que tentava manter contato por telefone, sem sucesso. Ela também relatou dificuldades pessoais, incluindo a busca por ajuda para superar problemas relacionados ao uso de drogas.
A amiga que havia acolhido as meninas, temporariamente, também foi ouvida pela polícia. Ela disse que poderia ter continuado com os cuidados, mas que a família optou por deixar as crianças com parentes. Segundo seu relato, Samylle tinha boa relação com a tia e não havia qualquer indício anterior de violência. Tanto a mãe quanto a amiga mencionaram, apenas, um ferimento no rosto da menina, atribuído a uma queda, mas nenhuma das duas presenciou o episódio. A delegada mencionou, ainda, desentendimentos entre mãe e tia, envolvendo questões patrimoniais e pensão, mas, segundo a mãe, os conflitos eram de natureza financeira.
Laudo pendente e suspeito procurado
A delegada Alice Fernandes esclareceu que a Polícia Civil ainda não recebeu nenhum laudo oficial do Instituto-Geral de Perícias e que não existe resultado preliminar disponível – qualquer informação circulando fora desse canal não consta em documento oficial da investigação.
Um ponto considerado fundamental para o andamento do caso é o depoimento do companheiro da tia, que estava com Samylle nas últimas horas antes da chegada dela em casa. Ele ainda não foi localizado, desde que deixou uma unidade de saúde e é procurado pela polícia. A delegada ressaltou, no entanto, que ele ainda não é tratado como suspeito.
Próximos passos
Com a prisão do tio, a Polícia Civil tem, agora, um prazo de dez dias para reunir mais elementos probatórios antes de formalizar a denúncia. “A partir de agora vamos continuar a investigação. Vamos extrair dados do celular e buscar outros elementos para entender o contexto de tudo que aconteceu. O laudo que estamos esperando é importante porque poderemos entender se houve agressões pretéritas e presentes. O suspeito, no depoimento, negou qualquer agressão anterior ao fato”, completou a delegada Alice Fernandes.
A investigação ainda precisa esclarecer a relação entre as lesões encontradas no corpo da menina e a causa da morte, para, então, definir se o caso será enquadrado como maus-tratos, maus-tratos com resultado de morte ou homicídio e, a partir disso, apontar eventual autoria.

