Seu Jorge volta ao Festival de Inverno de Bonito pela terceira vez. Veio em 2009, retornou em 2014 e estará novamente no palco em 2026, agora por R$ 500 mil para um show de 90 minutos. O artista é excelente. A criatividade na escolha é que parece estar precisando de um empurrãozinho.
Com meio milhão de reais na mesa, opção não falta. Contratações públicas recentes mostram Luísa Sonza por R$ 450 mil, João Gomes por R$ 450 mil, Eduardo Costa por R$ 450 mil, Gustavo Mioto por R$ 400 mil e Israel & Rodolffo por R$ 350 mil. Isso não significa que estivessem disponíveis na data, mas mostra que dava, no mínimo, para pesquisar antes de abrir a gaveta das atrações repetidas.
E repetição não é novidade. Sandra de Sá esteve no FIB em 2013 e 2024 e voltou a Bonito na FLIB de 2026. Zé Ramalho passou pelo festival em 2008 e 2024, Monobloco em 2012 e 2024, Almir Sater em 2008 e 2015 e Maria Rita em 2012 e 2014. Repetir um artista que fez sucesso não é problema. O que falta saber é qual pesquisa apontou que essa era novamente a preferência do público.
Onde está a consulta aos moradores, turistas, empresários do turismo e ao público que realmente frequenta os shows? Quais nomes foram apresentados como opção? Quantas pessoas foram ouvidas? Afinal, estamos falando de um festival que também existe para movimentar Bonito e atrair visitantes.
E aqui a memória resolve incomodar. Em 2013, Sandra de Sá foi escolhida com participação popular por meio de votação realizada em uma rádio local. Treze anos depois, com Instagram, Facebook, WhatsApp, formulários eletrônicos e pesquisas que podem alcançar milhares de pessoas em poucas horas, parece que ficou mais difícil perguntar ao povo o que ele gostaria de assistir.
A contratação por inexigibilidade é permitida por lei. A pergunta vem antes dela: quem escolhe o artista que depois será contratado diretamente? A inexigibilidade dispensa a competição em determinadas situações, mas não explica por que determinado nome foi escolhido entre tantas possibilidades.
Bonito vende experiência, diversidade e novidade para turistas do mundo inteiro. Talvez não fosse pedir demais aplicar um pouco dessa filosofia também na programação de um dos maiores eventos culturais do Estado.
Em 2013, o público ajudava a escolher. Em 2026, Seu Jorge volta pela terceira vez por R$ 500 mil.
Pelo visto, a participação popular ficou mais moderna: o povo não precisa mais votar. Basta pagar a conta e assistir ao escolhido.


