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ritual de Finados no Cemitério do Cruzeiro


Vestidos de branco, integrantes de duas casas da Capital fizeram oferendas e defenderam o respeito à fé

Ritual de umbandistas leva conforto e axé aos visitantes no São Sebastião
Ritual dos umbandistas é assistido de perto por quem visita o cemitério do Cruzeiro (Foto: Geniffer Valeriano)

No vaivém de visitantes no Cemitério São Sebastião, conhecido como Cruzeiro, um grupo todo vestido de branco se destaca. Eles se aproximam do Cruzeiro das Almas, a grande cruz no centro do local e iniciam o ritual de Firmeza das Santas Almas, em homenagem aos espíritos dos antepassados.

Umbandistas e juremeiros realizaram o ritual Firmeza das Santas Almas no Cemitério São Sebastião, o Cruzeiro, no Dia de Finados. Vestidos de branco, ofereceram pão, água e velas aos espíritos dos antepassados, com cânticos e orações. A juremeira Mãe Adriana Alves participa há seis anos e relata que a recepção dos visitantes mudou: do estranhamento inicial, passou ao acolhimento. Segundo ela, o contato ajuda a combater a intolerância religiosa.

Vitória Tavares é filha de santo da Casa de Umbanda Estrela de Aruanda e foi até o cemitério participar do ritual. “A gente oferece pão e água às almas benditas, às assistidas, às que foram esquecidas; a gente está aqui para dar uma força, um apoio e prestar o nosso carinho e a nossa fé”, explicou.

Emocionada, Vitória diz que acredita na missão da Preta-velha, entidade espiritual associada à sabedoria, à ancestralidade africana e ao acolhimento. “Veio ajudar quem precisa, dar uma palavra de conforto, um axé”.

Ritual de umbandistas leva conforto e axé aos visitantes no São Sebastião
Pão, água e vela fazem parte do ritual realizado esta manhã (Foto: Geniffer Valeriano)

Vitória conta que, durante muito tempo, evitou falar sobre sua religião por medo do preconceito. Agora, afirma que as experiências vividas na Umbanda e a ajuda espiritual que atribui à Preta-velha lhe deram coragem para assumir publicamente sua fé. “Muitas pessoas talvez não saibam que eu sou de Umbanda, e eu tenho muito orgulho e muita fé”, declarou.

Para ela, o respeito deve existir independentemente da crença de cada pessoa. Vitória defende que nenhuma religião deve ser julgada e faz um convite a quem ainda desconhece a Umbanda. “Mesmo você que não acredita, que tem medo, uma hora, se você tiver a oportunidade, vá, e talvez seja o melhor dia da sua vida e de uma grande transformação, assim como foi na minha”.

Do lado de fora, Mãe Adriana Alves, juremeira da Casa de Catimbó Vovó Maria Conga, recebia com abraços quem se aproximava. O título de juremeira identifica sua ligação com a Jurema Sagrada, tradição religiosa brasileira de raízes indígenas e influências africanas, marcada pelo culto aos ancestrais, aos mestres espirituais e às forças da natureza.

Antes de entrar no cemitério, os filhos de santo jogaram moedas na entrada do cemitério.  Na Umbanda e em algumas tradições religiosas de matriz afro-brasileira, é um gesto simbólico de respeito, proteção espiritual e pedido de licença às entidades consideradas guardiãs do local.

Depois, o grupo se dirigiu até o Cruzeiro das Almas, onde já estava Vitória e os filhos de santo da outra casa. Eles se uniram no ritual, com cânticos e oferendas de pão e água.

Há seis anos, Mãe Adriana participa da celebração do Dia de Finados no cemitério, onde realiza o ritual conhecido como Firmeza das Santas Almas. A cerimônia reúne tradições da Jurema Sagrada e da Umbanda, com cânticos, orações e oferendas de água, pão e velas. “Respeitar quem já passou por essa terra é recordar com fé a importância que eles tiveram”, explicou. Para ela, o ritual também é uma forma de oferecer carinho e acolhimento às famílias que visitam os túmulos.

A recepção, segundo a juremeira, mudou ao longo dos anos. No início, a presença do grupo causava estranhamento entre os visitantes, pouco acostumados a encontrar praticantes de religiões de matriz afro-indígena no cemitério. Hoje, a aproximação acontece de forma mais natural. “Agora já é mais tranquilo, as pessoas já chegam, nos abraçam, já pedem uma acolhida. Perguntam se pode tomar um passe, se pode participar junto com a gente”, contou.

Mãe Adriana acredita que o contato com os visitantes também ajuda a combater o preconceito e a intolerância religiosa. Para ela, os abraços e as demonstrações de afeto são maneiras de apresentar sua fé a quem ainda a desconhece. “Ainda existe muita intolerância religiosa, racismo religioso. E as pessoas precisam entender e precisam nos ver com amor, com fé, com respeito”, afirmou. “Quando a gente chega no cemitério e abraça, seja o idoso como a criança, a gente quebra essas barreiras.”



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