Nos Estados Unidos, o Dr. Anthony Fauci foi sabatinado no dia 29 de julho no senado americano, acerca da procedência do vírus da covid-19. O senador Rand Paul preside a comissão que o interrogou. Na prática, o senador busca um culpado pela epidemia e identifica, como muitos republicanos, esse culpado na figura do Dr. Fauci — personalidade que durante a pandemia dirigia o laboratório do NIH (National Studies of Health) que respondia por doenças infectocontagiosas.
O senador acredita que o médico escondeu da população americana a real origem do vírus e inclusive também se colocou contra os melhores tratamentos que deveriam ser adotados (cloroquina, ivermectina, etc.) e conta o uso de máscaras e a política do isolamento. Na opinião abalizada do senador, o médico esconde da população americana as relações que o NIH estabeleceu com um laboratório de segurança máxima, um nível P4 (grau máximo de segurança biológica) chinês em Wuhan e que em colaboração com o laboratório americano estudava os vírus dos morcegos — sempre grandes candidatos a saltarem dos animais e habitarem os homens e outros mamíferos. Muitas famílias de vírus dos morcegos são candidatos a isso e devem ser estudados. E se os países têm fronteiras, a doenças não têm.
Daí a importância de estabelecer pesquisas com laboratórios de outros países e investigar o potencial de doenças que poderão aparecer em qualquer local do mundo e dar origem a pandemias. Está aí também o interesse dos EUA pelo vírus nipah, típico de morcegos asiáticos e que eventualmente salta para mamíferos e para homens, mas que até hoje não fez o salto definitivo de um homem para o outro – ainda bem! Mas está sendo continuamente observado.
Da mesma maneira, essa é a razão pela qual os laboratórios americanos acompanhavam, até o início da atual gestão, o vírus ebola da estirpe Bundibugyo na África. Sim, existe algo humanitário por trás, mas a preocupação na verdade é se preparar para o fato de que ele poderá se transformar em uma ameaça mundial e o CDC (“Centro de Controle e Prevenção de Doenças”) de Atlanta, ligado à Marinha americana, deve monitorar o que ocorre.
No Brasil, em diversos momentos, tivemos a assessoria do CDC para nos ajudar a entender doenças que apareceram por aqui — como a peste negra de Lábrea (uma forma rara e grave de hepatite que ocorreu na Amazônia ocidental) e os episódios aqui e na América do Sul com os frequentes casos de hantavírus. Enfim, a cooperação entre países para entender os ciclos que ocorrem na natureza envolvendo micro organismos são muito frequentes.
O Dr. Fauci, comandando o importante laboratório de moléstias infectocontagiosas do NIH, era o responsável pelas relações entre os laboratórios americanos, chineses e de vários outros lugares do mundo, com protocolos de cooperação e inclusive de cofinanciamento. A tese do senador e de muitos conservadores dentro e fora dos EUA é de que os chineses estavam produzindo uma arma em seu laboratório de segurança máxima com intenções não declaradas, usando dinheiro americano fornecido pelo Dr. Fauci e de que esse experimento fugiu do controle. E no caminho para colocar a China no centro do alvo, está o Dr. Fauci. E também as acusações de uso inadequado de vacinas, máscaras e lockdown.
E por que esse assunto interessa aos brasileiros?
É uma luta da ignorância contra a ciência. Com certeza, a cooperação entre países é fundamental para entender e enfrentar as doenças, que como dito acima não respeitam fronteiras geopolíticas. Definitivamente podem ter ocorrido erros, mas até agora as análises das autoridades ligadas à OMS descartaram essas possibilidades. Mas políticos que cometeram atrocidades durante a pandemia têm todo interesse de encontrar culpados e se livrarem do peso das mortes que hoje estão em suas contas.
A pandemia nos EUA foi tão grave quanto no Brasil, mas os americanos tiveram acesso mais rápido às vacinas, apesar de parte da população ter se negado a tomá-las. Mas quando uma parte importante da população se vacina, essa parte protege os idiotas. No Brasil, a situação foi pior, pois ficamos dependentes das vacinas produzidas pelo Butantan e pela Fiocruz, que tardaram para chegar no volume necessário para um país grande.
O que o senador quer é um bode expiatório e, a partir daí, criar uma condição para desenvolver uma disputa maior com a China. E ao mesmo tempo limpar a biografia dos políticos americanos que foram responsáveis por mais de 1.000.000 de mortos pela covid em um país com 350 milhões de habitantes.
Também aqui nos trópicos, já tivemos a caça às bruxas, mas não temos um Dr. Fauci para chamar de nosso e, portanto, não encontraremos bodes expiatórios. Somente bodes responsáveis pelas nossas 700.000 mortes.
Nos EUA, junto com o processo do Dr. Fauci, está ocorrendo um desmonte das instituições que podem dar o alarme da próxima peste, que é inevitável – fruto da destruição do meio ambiente e consequente às crises climáticas que estamos provocando. O ano de 2024 foi o pior ano da dengue no Brasil: tivemos quatro vezes mais casos e mortes por dengue! Por quê? Foi o ano mais quente desde 1940, tivemos um aumento de 1,5 grau na temperatura média. As condições para o aparecimento de uma nova crise, nós homens estamos criando em todo o mundo e portanto temos que nos preparar e como estamos perdendo os EUA com a imensa capacidade da sua máquina da ciência que está sendo destruída, temos que conseguir por a nossa em pé.
O Brasil precisa construir seu CDC. Uma entidade científica e ágil que seja capaz de monitorar os nossos seis biomas (Amazônia, Pantanal, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica e Pampa) todos sob ataque – sendo devastados, destruídos e pressionando a vida aí existente a encontrar caminhos alternativos. Além de criar uma estrutura científica capaz de monitorar a vida nos biomas, que desenvolva uma rede de laboratórios com capacidade de sequenciar microrganismos existentes nesses biomas e acompanhar de maneira mais efetiva a destruição e sua recomposição.
Os americanos, dentro de algum tempo, terão condição de recompor, espero, suas estruturas científicas. A democracia é assim: de quatro em quatro anos passa por testes de funcionamento. Nós que estamos construindo nosso modelo civilizatório não podemos cometer mais erros. Temos pouco tempo para nos colocar em condição de enfrentar os difíceis tempos que teremos pela frente.
Já cometemos erros suficientes. É tempo de acertar.

