DO DETRAN AOS LEITOS DO SUS: OPERAÇÕES, PRISÕES E SUSPEITAS SE ACUMULAM NOS CORREDORES DO GOVERNO RIEDEL
Turn Off, Gutenberg, OncoJuris, Detran, Agesul e questionamentos sobre a bilionária PPP do Hospital Regional formam um mapa que já passou da conta de coincidência e coloca sob pressão os mecanismos de controle do Governo de Mato Grosso do Sul
Uma investigação aqui, outra operação acolá, servidores afastados, dirigente preso, contratos milionários sob suspeita, vagas hospitalares aparecendo em investigação criminal e, agora, até um misterioso “jato de ar quente” entrando no vocabulário da administração pública. O Governo Eduardo Riedel ainda não tem contra o governador, até onde mostram os documentos públicos consultados, uma acusação que permita atribuir pessoalmente a ele participação nesses esquemas. Isso, porém, não apaga uma pergunta cada vez mais incômoda: quantas operações precisam bater à porta da máquina estadual para que deixe de parecer uma coleção de casos isolados?
O mapa é extenso e atravessa Saúde, Educação, Administração, Casa Civil, Detran e Agesul. Em alguns episódios, os fatos investigados começaram antes da posse de Riedel, em janeiro de 2023. Em outros, os acontecimentos alcançaram servidores, dirigentes e estruturas que estavam funcionando em plena gestão atual. Misturar tudo seria irresponsável; fingir que nada disso forma um quadro político também seria.
A Operação Turn Off foi um dos primeiros grandes sinais de alerta. Deflagrada pelo Gaeco e pelo Gecoc em novembro de 2023, ela investigou uma organização criminosa que, segundo o Ministério Público de Mato Grosso do Sul, atuava com corrupção ativa e passiva, peculato, fraudes em licitações e contratos públicos e lavagem de dinheiro. Os contratos identificados na investigação ultrapassavam R$ 68 milhões.
As suspeitas envolviam compras de aparelhos de ar-condicionado pela Secretaria de Educação, equipamentos e serviços médico-hospitalares da Secretaria de Saúde e materiais destinados a pacientes atendidos pela Apae. A investigação apontou ainda o pagamento de vantagens indevidas a agentes públicos. Parte dos fatos vinha de períodos anteriores, inclusive com provas compartilhadas da Operação Parasita, de 2022, o que precisa ser registrado para que o calendário eleitoral não vire máquina do tempo.
O problema político para Riedel apareceu porque pessoas alcançadas pela operação estavam ocupando espaços relevantes da administração estadual quando a polícia e o Ministério Público chegaram. Em outras palavras, a herança pode ser antiga, mas quem senta na cadeira hoje precisa saber quem está sentado nas cadeiras ao lado.

Depois veio a Operação Gutenberg, em julho de 2026, e a história ganhou contornos ainda mais delicados. O Gaeco afirmou ter identificado uma organização criminosa que movimentou mais de R$ 27 milhões por meio de fraudes em compras públicas, especialmente na aquisição de livros paradidáticos. Segundo o MPMS, servidores eram corrompidos para direcionar procedimentos e parte dos valores retornava aos integrantes do grupo.
Até aí já seria grave. Mas a investigação avançou para uma área onde dinheiro deixa de ser apenas número em planilha. Segundo o Ministério Público, integrantes do esquema teriam utilizado influência de servidores da saúde pública para condicionar autorizações de exames, cirurgias e até vagas em leitos da rede estadual à aquisição dos livros vendidos pelo grupo. Quando uma vaga hospitalar aparece no meio de uma investigação sobre contratos públicos, já não estamos discutindo apenas eficiência administrativa. Estamos falando da própria porta de entrada do SUS.
Também em 2026, a Operação OncoJuris colocou sob investigação um suposto esquema relacionado à compra de medicamentos oncológicos de alto custo mediante judicialização. Esse caso exige uma ressalva importante: o Governo do Estado declarou que a própria Secretaria de Saúde percebeu anormalidades e levou a situação aos órgãos de controle. Portanto, não seria correto vender a OncoJuris como prova de corrupção praticada pelo governo. O episódio, contudo, mostra novamente o tamanho do território financeiro que circula dentro da Saúde estadual e a necessidade de fiscalização permanente.
E então chegamos ao Detran-MS.

Nesta segunda-feira, 14 de setembro de 2026, veio a público que o MPMS instaurou inquérito civil para investigar suspeitas de fraude, direcionamento e superfaturamento em licitações destinadas à sinalização viária. Segundo os documentos obtidos pelo Campo Grande News, os preços praticados pelo Detran poderiam chegar a 70% acima dos encontrados em outros órgãos do país.
A parte mais curiosa, para dizer o mínimo, está nas exigências dos editais. Entre elas aparece o chamado “preparo da superfície com jato de ar quente”, além de equipamentos de tecnologia recente e pouco utilizados. Segundo a investigação, essas condições poderiam limitar a concorrência a apenas duas empresas em todo o Brasil, justamente empresas que apareceriam repetidamente como vencedoras e dividiriam lotes entre si.
O MP também apura se, em contrato de 2022, o Detran teria pago por serviços não executados. A técnica questionada teria uma peculiaridade quase poética para os padrões da burocracia: depois de executada, não deixaria rastros visíveis para fiscalização. Serviço público invisível é uma inovação que certamente merece muitas explicações.
Não foi o primeiro alerta. Em março de 2025, o Tribunal de Contas suspendeu cautelarmente uma licitação do Detran envolvendo aproximadamente R$ 6,2 milhões. A Corte apontou irregularidades no edital e restrições capazes de afetar a competição. As duas vencedoras provisórias daquela disputa são citadas também na investigação atual do Ministério Público.
O diretor-presidente do Detran, Rudel Espíndola Trindade Júnior, recebeu prazo de 15 dias úteis para explicar, entre outros pontos, a necessidade do jato de ar quente, a fiscalização do serviço e a repetição das mesmas empresas vencedoras. O Detran afirma que suas licitações seguem a legislação e que prestará todos os esclarecimentos solicitados pelos órgãos de controle.
Outro capítulo constrangedor passou pela Agesul.
Rudi Fiorese assumiu a presidência da agência em fevereiro de 2026. Em maio, foi preso na Operação Buraco Sem Fim, investigação sobre supostas fraudes em contratos de tapa-buracos de Campo Grande, referentes principalmente ao período em que ocupava cargo na administração municipal. O conjunto de contratos e aditivos investigados alcançava R$ 113,7 milhões. Portanto, é preciso deixar claro: esse valor não corresponde a contratos desviados da Agesul.
O problema para o Governo do Estado está em outro lugar. Fiorese já estava na Agesul desde 2023 como diretor-executivo e foi escolhido para comandar a agência em 2026. Apenas uma semana depois de assumir a presidência, assinou um aditivo de aproximadamente R$ 1,5 milhão em contrato estadual com a Construtora Rial, cujo representante também seria alcançado pela Operação Buraco Sem Fim. Depois das prisões, o próprio governo decidiu revisar contratos vigentes da empresa com a Agesul.
Fiorese acabou exonerado por Riedel no dia seguinte à operação. Meses depois, a Justiça também proibiu investigados e a empreiteira de participar de novas licitações e contratações públicas, enquanto o processo continua seguindo seus trâmites e com direito de defesa assegurado aos acusados.
E há ainda o Hospital Regional de Mato Grosso do Sul, onde duas histórias completamente diferentes precisam ser separadas.
A primeira pertence ao passado. O Ministério Público informou em 2025 que investigações sobre fraudes praticadas entre 2016 e 2019 apontaram mais de R$ 20 milhões desviados mediante compras fictícias, notas fiscais falsas e esquemas envolvendo servidores e empresários. Cinco ações penais e quatro ações de improbidade foram ajuizadas. Houve também condenações recentes, inclusive uma referente a prejuízo atualizado de aproximadamente R$ 12 milhões. Esses fatos antecedem o Governo Riedel e seria incorreto atribuí-los à atual administração.
A segunda história está acontecendo agora e envolve uma cifra capaz de fazer qualquer contribuinte procurar os óculos.
O Governo formalizou em maio deste ano a Parceria Público-Privada do Hospital Regional por 30 anos. O projeto prevê R$ 7,3 bilhões em custos de operação ao longo do período e aproximadamente R$ 966 milhões em obras, modernização e renovação tecnológica. A proposta vencedora da Construcap estabeleceu contraprestação de aproximadamente R$ 15,9 milhões. O hospital permanecerá público e gratuito pelo SUS, enquanto serviços não assistenciais passam à gestão privada.
Até aí existe uma opção administrativa que pode ser defendida ou criticada. O ponto que merece lupa está no Tribunal de Contas.
Antes da conclusão do processo, o TCE-MS recebeu denúncia questionando o edital da PPP. Um dos pontos centrais foi a chamada “Parcela C”, que envolve itens como materiais, medicamentos e órteses, próteses e materiais especiais. A denúncia sustentou que essa parcela relevante e sujeita a grandes oscilações de preço ficou fora da disputa competitiva que definiu a vencedora, podendo provocar gastos maiores ou futuros pedidos de recomposição econômico-financeira durante um contrato que durará três décadas.
Isso não prova corrupção na PPP. Não há, nos documentos consultados, conclusão do TCE dizendo que houve fraude ou crime nesse contrato. Mas R$ 7,3 bilhões em operação, quase R$ 1 bilhão em obras e 30 anos de relacionamento contratual não combinam com perguntas sem resposta.
Quanto exatamente o Estado poderá desembolsar ao final dessas três décadas? Qual será o peso real da Parcela C? Quem assumirá aumentos extraordinários de medicamentos e insumos? Quantos pedidos de reequilíbrio poderão ocorrer durante 30 anos? Quais garantias existem para impedir que um contrato apresentado inicialmente com determinado custo termine muito mais caro?
É nesse ponto que a sucessão de episódios começa a formar um desenho maior.
Nenhuma investigação citada nesta reportagem autoriza afirmar que Eduardo Riedel pessoalmente comandou, participou ou se beneficiou de esquemas de corrupção. Fazer essa acusação sem prova seria irresponsável.
Mas também seria ingenuidade olhar para Turn Off, Gutenberg, OncoJuris, Detran, Agesul e os questionamentos sobre a PPP do maior hospital público do Estado e concluir que não há absolutamente nada para o governador explicar politicamente.
Governar não significa apenas inaugurar obra, anunciar investimento e aparecer na fotografia quando o contrato é assinado. Governar também significa escolher dirigentes, fiscalizar secretarias, controlar contratos, impedir favorecimentos e perceber quando a máquina começa a produzir fumaça.
E fumaça, convenhamos, já não falta.
Agora apareceu até jato de ar quente.
A pergunta que fica para o eleitor de Mato Grosso do Sul é simples: estamos diante de episódios isolados que os próprios mecanismos de controle estão conseguindo descobrir ou a quantidade de operações revela uma máquina pública onde os controles internos só funcionam depois que o Ministério Público, o Gaeco ou o Tribunal de Contas batem à porta?
Em ano eleitoral, talvez essa seja uma pergunta muito mais importante do que qualquer slogan sobre eficiência, prosperidade ou modernização do Estado.



