O presidente Lula (PT) voltou a chamar seu homólogo americano, Donald Trump, de “imperador” e a afirmar que, caso não haja avanço na negociação das tarifas impostas por Washington, terá de aplicar a Lei da Reciprocidade e sobretaxar os americanos.
O brasileiro concedeu entrevista nesta segunda-feira (21) ao programa de Christiane Amanpour, da rede CNN, como faz com frequência quando viaja a Nova York para participar da Assembleia-Geral da ONU. Ele também fez críticas aos ataques americanos contra a soberania nacional.
Lula afirmou que Trump “tem o direito de governar os Estados Unidos, mas não direito de governar outros países”. “[Trump] não tem direito de impor suas vontades, tem que ter vontade de negociar. Quero respeito e ser respeitado”, disse.
O tema também surgiu quando Lula foi questionado sobre a situação na Venezuela, hoje tutelada pelo governo Trump após a captura do ditador Nicolás Maduro em operação americana. “É grave o que os EUA fizeram à Venezuela. A soberania do país acabou. Isso não é bom para os dois países nem para a democracia. Desse modo os EUA são os chefes da Delcy [Rodríguez].”
A líder interina venezuelana, que era vice de Maduro, está em Nova York e se reúne com Trump na terça-feira (22) para uma conversa informal. Não houve pedido de reunião com Lula, segundo a reportagem apurou.
Sobre as tarifas impostas pelos EUA, Lula disse que, em vez de “chorar o leite derramado”, buscará novos parceiros comerciais, mas ressaltou suas críticas a Trump. “Ele age como um imperador. É um jeito de governar que eu não concordo. É um jeito de que ‘eu sou o mais forte, eu posso fazer tudo e os outros têm que obedecer'”, disse.
“Enquanto estamos na mesa de negociação, eu não tenho que aplicar a Lei de Reciprocidade, tenho que ser mais paciente, mas é importante para você saber que, se não tiver um acordo, teremos que aplicá-la”, seguiu.
O Brasil voltou a ser alvo de tarifas adicionais dos EUA em julho deste ano. O governo americano impôs uma tarifa de 25% no âmbito de uma investigação sobre práticas brasileiras consideradas prejudiciais ao comércio dos EUA e outra de 12,5% pela ausência, segundo Washington, de uma proibição efetiva à importação de produtos feitos com trabalho forçado. Com isso, determinados produtos brasileiros passaram a estar sujeitos a sobretaxas adicionais que somam 37,5%.
“Eu acho que as tarifas são baseadas em mentiras, o Brasil tem um déficit com os EUA”, afirmou. De fato, no início do chamado tarifaço, Washington argumentou que a balança comercial seria mais favorável ao Brasil do que aos EUA, o que era incorreto.
A âncora da CNN também perguntou ao presidente sobre a iniciativa que Brasil, União Europeia, Canadá e Quênia lançaram recentemente, o P4M —Parceiros pelo Multilateralismo—, um grupo que pretende ampliar alianças internacionais na área, em um momento no qual não apenas o comércio internacional caminha na direção contrária, mas também o sistema ONU, baseado neste princípio, está em crise.
Lula disse que o multilateralismo é fundamental para manter o mundo em harmonia. “O presidente Trump tem uma forte tendencia pelo individualismo, e isso é muito perigoso. O comércio tem de ser balanceado para não haver grandes distorções e um pais ser mais favorecido do que outros.”
Às vésperas da eleição, Lula abordou na entrevista muitos dos temas que devem aparecer em seu discurso no púlpito da ONU nesta terça-feira —o Brasil é tradicionalmente sempre o primeiro país a discursar. Também adotou tom eleitoreiro, em aceno à sua base diante de uma disputa páreo a páreo contra o senador Flávio Bolsonaro (PL).
Ele disse que, ainda que preocupado, sabe que vencerá a eleição —as pesquisas não apontam nenhuma margem de vitória confortável. “Ninguém fez mais do que nós em políticas sociais. O que está em disputa no Brasil hoje não são partidos, mas entre ter democracia ou barbarismo. Conservar a natureza ou desmatar. Incluir as pessoas ou abandonar os pobres. Apoiar a cultura ou destruí-la.”
Ainda nesta segunda-feira, Lula recebeu o prefeito de Nova York, o socialista democrata Zohran Mamdani, por quem foi chamado de “inspiração”, e o presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, seu aliado.


