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Lula autoriza operação de bet ligada a ‘maior grupo de apostas ilegais’


Enquanto o governo federal endurece o discurso contra as casas de apostas, a 1xBet, conhecida internacionalmente por operar de forma irregular, conseguiu autorização oficial para atuar no Brasil. O aval, concedido pelo Ministério da Fazenda em julho, ocorreu mesmo com a empresa respondendo a processos judiciais relacionados ao bloqueio de prêmios para apostadores durante o período em que atuava sem licença no país, conforme revelou o jornal O Estado de S. Paulo.

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Segundo a própria 1xBet, a operação brasileira é independente e segue padrões rigorosos de compliance, governança e jogo responsável, além de declarar observar as leis nacionais e a autorização concedida. Entretanto, documentos judiciais mostram que clientes tiveram saques bloqueados e que a empresa tentava se eximir da responsabilidade, ao alegar não controlar o site envolvido, argumento rejeitado por tribunais em Santa Catarina, Goiás, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Estrutura societária e histórico de atuação no Brasil

No Brasil, a 1xBet é operada pela Defy Ltda, empresa de Caxias do Sul (RS), ligada a Carlos Eduardo Ferreira e à Lutum Limited, registrada no Chipre, onde está a sede da operação. A Defy alterou sua razão social durante o andamento dos processos, inicialmente se chamando 1xBet Intermediação de Negócios LTDA. As defesas apresentadas negavam ligação com o site br.1xbet.com e sugeriam que a Justiça considerasse informações do próprio portal, registrado em Curaçao. No entanto, investigação apontou conexão clara com o domínio da 1xBet.

Paralelamente à tramitação do pedido de licença, a empresa já oferecia apostas sem autorização federal, mesmo depois de 2025, quando novas regras passaram a vigorar. Até então, as apostas on-line funcionavam em uma “zona cinzenta” da legislação, baseando-se em sedes externas. A autorização para a Defy operar com a 1xBet foi obtida apenas em 29 de julho, depois de solicitações negadas desde o final de 2024.

Dois processos judiciais ilustram a situação: em Goiás, a Defy pagou, sem contestação, R$ 3,1 mil a um apostador que perdeu o valor antes da regulação. Em Santa Catarina, uma mulher teve R$ 5,2 mil bloqueados em janeiro de 2025, com a Justiça determinando a devolução do dinheiro, decisão que a empresa já perdeu em dois recursos, restando um a ser julgado.

Questionamentos sobre responsabilidade e sede operacional

Advogados de clientes alegam que a bet empregou “manobra para se furtar à responsabilidade jurídica frente aos consumidores”, operando ilegalmente por diversos domínios e arrecadando de diferentes apostadores. A Defy informou à Receita e ao Ministério da Fazenda funcionar em um prédio comercial de Caxias do Sul, mas, em abril de 2025, foi constatado que a empresa deixou o local sem informar novo endereço.

Possuir sede no Brasil é requisito para a liberação de apostas. Questionado sobre o paradeiro da Defy, o Ministério da Fazenda disse não ter identificado irregularidades durante o licenciamento, mas que pode abrir fiscalização se surgirem fatos novos. Fundada por empresários russos em 2007, a 1xBet está atualmente sediada no Chipre e já foi proibida em vários países, acusada de envolvimento com lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

Controvérsias internacionais e acusações graves

Especialistas estrangeiros, como Corentin Ségalen, da Autoridade Nacional de Jogos da França, nomearam a empresa como “Grupo Wagner das Apostas”, referência à organização paramilitar russa. O apelido circula em fóruns internacionais do setor e o Brasil aderiu, em setembro, à Convenção de Macolin, iniciativa global contra manipulação esportiva.

O histórico da 1xBet ganhou destaque recente depois de relatórios financeiros apontarem conexão da Sportradar, empresa de monitoramento esportivo, com operadores ilegais, sendo a 1xBet citada como principal parceira no mercado irregular. Segundo a Callisto Research, a 1xBet movimenta cerca de US$ 2 bilhões anuais, promovendo lavagem de dinheiro, exploração infantil e manipulação de eventos esportivos.

Uma reportagem do Bellingcat mostrou que a 1xBet organiza até 1,2 mil eventos esportivos falsos por dia, inclusive com times fictícios e uso de crianças, em países onde a bet é proibida, como Ucrânia e Belarus. Outro relatório, do Muddy Waters Research, destaca que a empresa pertence a russos procurados pelas autoridades do próprio país por promover jogos ilegais.

Postura do governo Lula

A divulgação dos relatórios impactou ações da Sportradar na bolsa Nasdaq. Ambos os grupos admitem interesse financeiro nos efeitos sobre empresas que investigam. A legalização das bets e a autorização para a 1xBet foram decisões do governo Lula (PT), que, apesar disso, passou a criticar abertamente o setor, chegando a defender o fim das apostas on-line no Brasil.

“Se as bets causam mal, porque não acabamos com elas?”, declarou Lula, em abril, em entrevista ao canal ICL, alinhado com o governo. “Não é possível continuar com essa jogatina desenfreada nesse País.” Representantes das casas de apostas consideram contraditório o posicionamento, argumentando que a proibição levaria jogadores ao mercado clandestino.

Leia também: “Os tentáculos do Master”, artigo de Carlo Cauti na Edição 305 da Revista Oeste

No dia 4, Lula (PT) lançou o Novo Desenrola Brasil, programa que impede beneficiários de apostar por um ano. “Não pode continuar jogando em bets“, disse Lula. “Estamos proibindo, durante um ano, gastar um pouco dos recursos em jogo.” O setor criticou a medida e a Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) afirmou que o endividamento dos brasileiros está mais relacionado aos altos juros do que às apostas.



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