Resumo
No julgamento pela morte de Tupac Shakur, jurados em Las Vegas assistiram a vídeos em que Duane “Keefe D” Davis detalha o crime de 1996. Segundo a acusação, a participação de Davis em um documentário e a publicação de um livro anularam seu acordo prévio de imunidade, embasando a denúncia por homicídio qualificado. Davis, que agora alega ter mentido publicamente em troca de dinheiro, declarou-se inocente, mas enfrenta a possibilidade de prisão perpétua caso seja condenado.
Os jurados assistiram na última sexta, 21, a trechos de um documentário da BET no qual Duane “Keefe D” Davis relembrou o tiroteio de 1996 que matou o lendário rapper Tupac Shakur, repetindo um relato que havia feito pela primeira vez à polícia em uma entrevista secreta em 2008.
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Os promotores afirmam que a decisão de Davis de participar do documentário e, posteriormente, publicar uma autobiografia retirou as proteções que envolviam a entrevista anterior, ajudando a abrir caminho para a acusação de assassinato que agora está sendo julgada em Las Vegas.
“Estou vindo agora para contar a história porque estou com câncer”, disse Davis em um trecho da docussérie de 2018 exibido no tribunal (via Rolling Stone). “Não tenho mais nada a perder. Tudo o que me importa agora é a verdade.”
Davis disse diante das câmeras que estava em um Cadillac branco com seu sobrinho, Orlando “Baby Lane” Anderson, e outros dois homens quando viram Tupac em um BMW preto interagindo com fãs “como se estivesse em um desfile”. Ele disse que seu grupo fez um retorno para alcançar o carro dirigido por Suge Knight, cofundador da Death Row Records.
“Se ele não tivesse colocado a cabeça para fora da janela, nunca o teríamos visto”, disse Davis no trecho, que mostrava uma reconstituição com um ator interpretando Shakur, em pé através do teto solar do BMW. Questionado sobre quem atirou em Shakur, Davis respondeu: “Vou guardar isso pelo código das ruas. Simplesmente veio do banco de trás, mano.”
Em sua entrevista de 2008 com a polícia, exibida aos jurados na quinta, 20, Davis disse que entregou uma Glock calibre .40 carregada ao ocupante do banco traseiro porque não tinha uma linha de tiro clara. Ele afirmou que Anderson pegou a arma e disparou.
O vídeo exibido na sexta-feira, da docussérie de seis episódios da BET Death Row Chronicles, pode ser significativo porque ofereceu aos jurados um relato vívido da versão que Davis contou pela primeira vez à Polícia de Los Angeles (LAPD) e a integrantes de uma força-tarefa federal durante a entrevista de 18 de dezembro de 2008, no escritório de seu advogado no condado de Los Angeles. Davis agora afirma que mentiu naquela ocasião para obter vantagem enquanto enfrentava uma possível prisão perpétua por acusações relacionadas a drogas. Ele diz que repetiu a história inventada em sua entrevista à BET por motivos de entretenimento, porque recebeu dinheiro para isso.
Durante a entrevista de 2008, o detetive do LAPD Greg Kading disse a Davis: “Nada do que você disser poderá ser usado contra você.” Mas a sessão de depoimento não equivalia a uma imunidade ampla. Sob o chamado acordo “queen for a day“, os promotores concordaram em não usar contra Davis as declarações feitas por ele durante a reunião, embora ainda pudessem apresentar acusações com base em provas obtidas de forma independente.
Agora, os promotores afirmam que Davis anulou o acordo ao participar da docussérie da BET e publicar sua autobiografia, Compton Street Legend, na qual repetiu publicamente elementos fundamentais do relato. Eles conseguiram autorização para exibir a entrevista de 2008 aos jurados, alegando que ela era admissível como forma de corroborar as declarações públicas de Davis.
Mario Diaz, diretor da docussérie, testemunhou na sexta-feira que entregou pelo menos um cheque a Davis por sua participação. Ele estimou que o pagamento a Davis foi de “algo entre US$ 10 mil e US$ 20 mil”, mas disse não ter certeza. Durante o interrogatório feito pelo advogado de defesa de Davis, Diaz afirmou que também era possível que Davis tivesse recebido o pagamento em uma série de parcelas de US$ 5 mil. Nesse momento, Davis foi visto balançando a cabeça negativamente no tribunal.
Depois que Diaz deixou o banco das testemunhas, os promotores exibiram uma entrevista gravada que Davis concedeu em 2009 a um detetive de Las Vegas, com a presença de um dos detetives do LAPD que haviam participado da sessão de 2008. Davis descreveu novamente que estava em um carro com outros três homens, incluindo Anderson, quando avistaram Knight e Shakur no BMW preto.
Na gravação, Davis disse que Anderson estava furioso e acreditava que seu braço havia sido quebrado quando Shakur e integrantes de sua comitiva o atacaram dentro do MGM Grand naquela noite. Segundo os promotores, a agressão foi resultado de uma disputa entre gangues envolvendo uma corrente e um medalhão da Death Row Records supostamente roubados durante um confronto anterior em um shopping entre integrantes dos South Side Compton Crips, grupo ligado a Davis e Anderson, e integrantes dos Mob Piru Bloods, associados a Knight. De acordo com os promotores, o tiroteio em Las Vegas foi “um ato de vingança” dentro de um ciclo contínuo de retaliações.
Davis contou ao detetive de Las Vegas que, após o tiroteio, seu grupo estacionou o Cadillac atrás do hotel Carriage House e deixou a arma sobre o pneu dianteiro do lado do passageiro do veículo. Ele afirmou que Anderson desapareceu por cerca de 20 minutos.
“Ele disse que foi urinar nas mãos… para tirar a pólvora”, explicou Davis. Ele chamou a prática de “coisa de rua”.
O detetive de Las Vegas fez uma série de perguntas a Davis sobre o magnata da música Sean Combs, fundador da Bad Boy Records, conhecido na época como Puff Daddy. Davis disse que conheceu Combs por meio de um associado, Eric “Von Zip” Martin. Davis afirmou que Combs lhe disse que queria Knight morto e estava disposto a pagar por isso. Segundo ele, Combs tinha medo de Knight e se sentiu desrespeitado depois que Knight o ridicularizou publicamente no Source Awards de 1995, em Nova York, criticando o hábito de Combs de aparecer em destaque nos vídeos e gravações de seus artistas. Davis disse que tentou receber o pagamento após o tiroteio, mas nunca foi pago. Combs nega qualquer envolvimento na morte de Shakur.
“Eu queria nunca ter conhecido o Puff Daddy, ponto final. Juro por Deus. Ele acabou com a minha vida, cara. Eu era rico, estava fora do radar, tudo isso, cara”, disse Davis ao detetive Dan Long, do Departamento de Polícia Metropolitana de Las Vegas. “Tudo acabou.”
Davis, de 63 anos, se declarou inocente de uma acusação de assassinato com uso de arma mortal e está preso desde sua detenção, em setembro de 2023. Se for condenado, poderá receber prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional.

