InícioMundoJornalista recorda trabalho escondido do Estado Islâmico - 27/07/2026 - Mundo

Jornalista recorda trabalho escondido do Estado Islâmico – 27/07/2026 – Mundo


O historiador iraquiano Omar Mohammed havia acabado de começar sua carreira como professor universitário quando a cidade de Mossul, onde nasceu e cresceu, foi capturada pelo Estado Islâmico (EI), em 2014. O grupo terrorista, que chegou a dominar um território com 8 milhões de pessoas, do tamanho do estado de Santa Catarina, conduziu uma brutal ocupação na cidade, que era a mais populosa sob seu comando.

Execuções públicas de pessoas acusadas de roubo, adultério e homossexualidade se tornaram rotina, assim como estupros sistemáticos, casamentos forçados de mulheres com membros do grupo e perseguição a minorias étnicas e religiosas.

Que esses fatos sejam hoje de conhecimento público se deve em parte a Mohammed e seu blog, o Mosul Eye (Olho de Mossul, em português). Por quase dois anos, o historiador tornou-se jornalista, escrevendo de maneira anônima sobre a vida na cidade enquanto cumpria ostensivamente as exigências que o EI fazia de todos os homens —como utilizar calças acima dos tornozelos, participar das rezas obrigatórias e não aparar a barba, apesar de um problema de pele que tornava isso doloroso.

“Para registrar a história, eu precisava ficar vivo”, diz Mohammed sobre a forma como se portava em público. De junho de 2014 a dezembro de 2015, quando conseguiu pagar coiotes e fugir pela fronteira com a Turquia, o historiador foi a principal fonte de informação independente sobre a vida em Mossul.

Em julho de 2017, a cidade foi liberada pelas Forças Armadas do Iraque e tropas curdas. Em dezembro do mesmo ano, em entrevista à Associated Press, Mohammed revelou sua identidade. No exílio há mais de uma década, o jornalista diz hoje que, mesmo depois de todos esses anos, não pode retornar ao seu país ou à cidade que ama.

“Foi um dos maiores preços que paguei pelo caminho que escolhi”, afirma Mohammed à Folha. “Sei o que aconteceria se eu voltasse. As milícias paramilitares deixaram muito claro que me matariam na hora. E o que sobrou do Estado Islâmico prometeu me matar de maneiras que a humanidade ainda não descobriu”, diz, rindo.

O que faria, entretanto, se pudesse voltar? “Respiraria. E olharia para o céu. De todos os lugares em que estive, Mossul é a cidade onde é mais fácil ver as estrelas.”

Mohammed também diz sentir falta do período em que passou infiltrado na própria cidade, vivendo uma vida dupla como súdito subserviente do EI e autor do Mosul Eye.

“Não sinto falta do medo e do trauma. Mas sinto falta de controlar meu anonimato. Eles não conseguiam me encontrar, não conseguiam descobrir quem estava por trás [do blog]. Tenho saudade do sentido que isso me dava —e da adrenalina”, afirma.

O historiador e jornalista vive hoje na França, onde leciona na Sciences Po (Instituto de Estudos Políticos de Paris). Convidado do 21º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), em São Paulo, Mohammed avalia que a profissão sofre pressão dupla de regimes autoritários e do público que consome notícias.

“A única coisa que provavelmente nunca vai mudar no jornalismo é o fato de que ditaduras sempre querem controlá-lo“, diz. “Ditadores odeiam jornalistas, porque o que fazemos é tornar a mentira custosa. Graças ao jornalista, mentir não é mais de graça. Se o ditador quiser mentir, precisa gastar muito dinheiro pra isso, e muitos desistem”, afirma Mohammed, que dará palestra na quinta-feira (30) pela manhã.

Por outro lado, o historiador vê uma mudança na forma como leitores, espectadores e ouvintes se relacionam com o jornalismo.

“O público agora pressiona jornalistas a tomar lados, o que acho errado. Nosso trabalho não é ter um lado. No momento em que você faz isso, não é mais jornalista, é ativista —e não tem nada de errado com ser um ativista, mas aí você não pode se chamar de jornalista”, afirma. “Esse é o problema. As pessoas estão pedindo de jornalistas muito mais do que o jornalismo está autorizado a fazer.”

Ao mesmo tempo, a proteção de jornalistas é cada vez mais precária, avalia. “Isso aconteceu, é claro, quando [Estado Islâmico] ocupou boa parte do Iraque. Mas, mesmo antes disso, depois de 2003 [quando os Estados Unidos invadiram o país], centenas de jornalistas foram mortos e sequestrados. Sempre aconteceu e, infelizmente, não vai parar. Não acredito na habilidade da assim chamada comunidade internacional de proteger jornalistas.”

Assim, o cenário que se desenha é pouco animador. “Estava conversando com um amigo jornalista do Iraque. Ele me ligou e disse: ‘estou com medo’. Não do governo, que quer prendê-lo porque não gosta do que escreve, mas do fato de que não há mais jornalistas jovens no Iraque. Se não há mais jornalistas, estamos perdendo a batalha.”



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