Em junho de 2025, o tradicional Clube Atlético Juventus, da Mooca, em São Paulo, aprovou a constituição de uma SAF (Sociedade Anônima do Futebol), em um projeto com investimentos previstos de meio bilhão de reais no departamento de futebol profissional.
Cerca de um ano depois, a centenária agremiação é alvo de investigações da Polícia Civil por suspeitas de intimidações e desvios de dinheiro relacionado à operação por parte de dirigentes do clube social. A informação foi publicada inicialmente pelo GE e confirmada pela Folha.
De acordo com as apurações preliminares da Polícia Civil, há suspeitas de que parte do dinheiro que entrou no clube por causa da venda da SAF nos últimos meses tenha sido desviado irregularmente para as contas do presidente do Juventus, Tadeu Deradeli, e do presidente do Conselho Deliberativo, Carlos Eduardo Gomes Pedroso.
Em nota, a Polícia Civil confirmou que, por meio da 3ª Delegacia da Divisão de Combate à Lavagem de Dinheiro, do DPPC (Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania), investiga o caso por meio de inquérito policial.
“Diversas diligências já foram realizadas, incluindo a expedição de ofícios às secretarias municipais envolvidas no acordo. As medidas permitiram identificar as empresas responsáveis pelos repasses dos valores previstos no termo de parceria”, informou a Polícia Civil.
Ainda segundo a corporação, a partir das informações coletadas, os investigadores passaram a rastrear a movimentação financeira dos recursos, com o objetivo de verificar de que forma —e se efetivamente— os valores ingressaram nas contas do clube. “As investigações prosseguem para o completo esclarecimento dos fatos.”
Já o Juventus, também por meio de nota, informou que não comenta “o mérito de questões que tramitam em sigilo perante as autoridades competentes”.
“O Juventus ressalta que questões de foro íntimo, estritamente pessoal de indivíduos que pertencem ao seu quadro associativo, trabalham, prestam ou prestaram serviços ao clube não se confundem com sua atuação, gestão e atividades institucionais. Portanto, não podem nem devem ser utilizadas para atribuir à instituição qualquer responsabilidade ou posicionamento”, disse o clube.
“Com mais de um século de história e uma trajetória profundamente ligada ao esporte e à cidade de São Paulo, o Juventus preserva o compromisso de conduzir sua atuação institucional com responsabilidade, transparência e respeito à sua comunidade e tradição”, acrescentou a agremiação.
A investigação também busca esclarecer se Pedroso, que é escrivão da polícia, valeu-se de sua condição de policial e de uma arma da instituição para intimidar adversários dentro do clube. Segundo as acusações que chegaram à Polícia Civil, ele colocou uma arma sobre a mesa durante discussões com integrantes do Juventus como forma de constrangê-los.
As suspeitas são objeto de apuração, e, até o momento, não há conclusão sobre a ocorrência de crime. A versão de Pedroso precisa ser considerada no inquérito.
Segundo uma fonte da cúpula policial ouvida pela reportagem, a investigação foi aberta para dar transparência às acusações e verificar “o eventual abuso dele como policial”, incluindo a suspeita de uso de arma de fogo para “coagir” e “silenciar” pessoas.
Na avaliação de pessoas que acompanham a investigação, o conflito interno pelo comando do clube é o pano de fundo das denúncias.
Pedroso, por sua vez, afirma, segundo relato feito à polícia, que as acusações partiram de antigos integrantes do Conselho afastados por ele sob a alegação de irregularidades na administração da associação.
De acordo com essa versão, oito ou nove conselheiros foram retirados de suas funções sob acusação de prejudicar financeiramente o Juventus. Parte deles teria posteriormente se unido para apresentar as denúncias contra o escrivão. A polícia pretende ouvir integrantes dos dois grupos e confrontar as diferentes versões.
Contrato de estacionamento também será analisado
A apuração também deve alcançar um contrato envolvendo o estacionamento do Juventus e uma empresa pertencente à mulher de um delegado da Polícia Civil.
Segundo o relato obtido pela reportagem, Pedroso teria participado da cessão do estacionamento para a empresa. Investigadores pretendem solicitar cópia do contrato para verificar quais foram as circunstâncias da contratação e se houve algum favorecimento.
O delegado, porém, não é investigado até o momento, segundo a fonte ouvida pela reportagem. Ele é citado no caso e deverá prestar esclarecimentos.
A polícia ressalta que o Juventus é uma associação privada e que, portanto, suas contratações não estão necessariamente submetidas às mesmas regras de licitação aplicáveis a órgãos públicos. A análise deverá verificar quais normas internas do clube eram aplicáveis ao negócio e se houve alguma irregularidade.
Caso surjam indícios relacionados ao contrato que não sejam de atribuição da investigação administrativa ou policial atualmente em andamento, a documentação poderá ser encaminhada ao Ministério Público ou a outra unidade policial.
A disputa dentro do Juventus ganhou intensidade diante das negociações relacionadas à SAF e dos valores envolvidos no futuro do futebol e do patrimônio da associação.
A Polícia Civil deverá agora ouvir os citados e reunir documentos para determinar se as denúncias contra Pedroso têm fundamento ou se fazem parte da disputa política entre grupos rivais do clube.

