
O que muita gente em Bonito já vinha percebendo ganhou repercussão fora da cidade. Na sexta-feira (28), o Teatrine TV, veículo especializado em política cultural, publicou uma reportagem duríssima sobre a 25ª edição do Festival de Inverno de Bonito.
E não foi crítica feita de longe.
O repórter esteve em Bonito na quinta-feira (27), circulou pelo Festival, acompanhou a programação, fotografou a estrutura e resumiu a experiência já no título: “Sesc ‘salva’ o feio Festival de Inverno de Bonito”.
DE FESTIVAL A “QUERMESSE”
A reportagem afirma que a estrutura deste ano se parece com uma “quermesse mal planejada” e chama atenção para algo que o morador não precisa de lupa para enxergar: a cidade praticamente perdeu a ornamentação que em outras edições ajudava a transformar Bonito durante o FIB.
IMAGEM DE BRENO TEIXEIRA/SITE B1

O Teatrine destaca a ausência do tradicional túnel cenográfico, a falta de decoração na região central e critica até a estrutura dos palcos. Segundo o veículo, antigos refletores substituíram painéis de LED e a cobertura do Palco Sol recebeu uma comparação nada elegante: lona de carreta de grãos.
Para um Festival que anuncia que “a arte que voa alto, pousa em Bonito”, parece que parte da decoração perdeu o voo no caminho.
E QUEM SEGURA A PROGRAMAÇÃO?

Aqui aparece talvez o ponto mais incômodo da reportagem.
Durante a tarde acompanhada pelo Teatrine, as atividades observadas eram predominantemente promovidas pelo Sesc MS, que levou ao Festival orquestra, dança, teatro, recreação infantil e artistas sul-mato-grossenses.
Um jovem artista ouvido pela reportagem resumiu a percepção dizendo que o Sesc estava “salvando o festival”.
É uma frase pequena para uma pergunta grande:
Se o Sesc não estivesse lá, o que sobraria do Festival durante boa parte do dia?
O FACÃO PASSOU PELO FIB
A pobreza estrutural não apareceu do nada.
O orçamento do Festival sofreu uma redução brutal em comparação com 2025, passando de aproximadamente R$ 6,8 milhões para cerca de R$ 2,05 milhões em 2026 — um corte próximo de R$ 4,75 milhões.

Só que o facão não passou com a mesma força pelos grandes shows.
Ferrugem: R$ 450 mil.
Léo Foguete: R$ 450 mil.
Seu Jorge: R$ 500 mil.
Somados, apenas esses três cachês chegam a R$ 1,4 milhão.
Enquanto o orçamento encolheu, uma parcela expressiva dos recursos conhecidos ficou concentrada em poucas apresentações nacionais.
A conta começa a explicar por que faltou brilho em outros cantos.
E A CULTURA DE MATO GROSSO DO SUL?
O Festival de Inverno nasceu muito maior do que uma sequência de shows nacionais.
Teatro, dança, artes visuais, literatura, artesanato, oficinas e manifestações populares também fazem parte da identidade construída pelo FIB ao longo de 25 anos.
Por isso chama atenção que uma publicação especializada em cultura tenha vindo até Bonito e saído daqui apontando justamente estrutura empobrecida, pouco destaque para a produção sul-mato-grossense e dependência das atividades promovidas pelo Sesc.
Não significa que não exista programação. Existe.
A pergunta é outra: qual estrutura, protagonismo e visibilidade foram entregues à cultura diante do tamanho e da história do Festival de Inverno de Bonito?
25 ANOS MERECIAM MAIS

IMAGEM BRENO TEIXEIRA
Bonito chegou à 25ª edição de um dos eventos culturais mais conhecidos de Mato Grosso do Sul.
Era aniversário de prata.
Mas uma publicação especializada veio à Capital do Ecoturismo, caminhou pelo Festival, fotografou o que encontrou e saiu daqui usando expressões como “quermesse” e fazendo críticas severas à estética e à organização.
O Sesc merece reconhecimento pelas atividades que colocou nas ruas e pelo espaço destinado aos artistas regionais.
E justamente aí mora a ironia.
Quando uma instituição parceira começa a parecer maior que o próprio Festival, talvez o problema não esteja em quem ajudou demais.
Talvez esteja em quem entregou de menos.
E BONITO AINDA COLOCOU DINHEIRO MUNICIPAL NA FESTA
A conta não termina nos recursos destinados ao Festival pelo Governo do Estado.
O Município de Bonito também abriu o próprio caixa para colocar atração nacional no palco. A Prefeitura contratou Humberto & Ronaldo por R$ 463 mil.
E o valor chama atenção quando colocado ao lado de outra contratação da mesma dupla em Mato Grosso do Sul.
Em Deodápolis, o cachê foi de R$ 260 mil para uma apresentação de 1h30. Em Bonito, o contrato chegou a R$ 463 mil, com duração prevista de 2h30.
São R$ 203 mil a mais.
É verdade que Bonito contratou uma hora adicional de apresentação, portanto seria incorreto tratar os dois contratos como serviços absolutamente idênticos. Mesmo assim, o preço total pago por Bonito foi aproximadamente 78% maior.
A diferença merece explicação: quais condições técnicas, logísticas e comerciais justificaram os R$ 463 mil?
E aqui a fotografia do 25º FIB fica ainda mais curiosa.
De um lado, uma publicação especializada em cultura desembarca em Bonito e encontra pouca ornamentação, cenografia empobrecida e estrutura que chegou a ser comparada a uma “quermesse”.
Do outro, o Município encontra R$ 463 mil para uma única apresentação sertaneja.
Nada contra Humberto & Ronaldo. A dupla sobe ao palco, faz o show contratado, recebe e vai embora.
A decisão sobre onde colocar o dinheiro público não é dos artistas.
É de quem administra.
Por isso, depois de 25 anos de Festival de Inverno, talvez a pergunta mais importante não seja simplesmente quanto dinheiro faltou.
É saber onde foi parar o dinheiro que não faltou.
Bonito Sem Filtro News TODAS AS IMAGENS SÃO DE BRENO TEIXEIRA E DO TERO QUEIROS DO SITE TEATRINETV
25ª edição do Festival de Inverno de Bonito (FLIB) vira plataforma de comercial do Sesc MS. Foto: Tero Queiroz




