InícioEducaçãoEstudantes apoiam exame para medicina, mas temem desvalorização das aulas práticas

Estudantes apoiam exame para medicina, mas temem desvalorização das aulas práticas


A implementação do Enamed (Exame Nacional de Medicina) como critério obrigatório para a exercer a profissão médica acendeu um debate dentro e fora das salas de aula dos cursos de medicina.

O governo federal publicou medida provisória que estabelece que os estudantes realizem o Enamed no quarto e no sexto ano da graduação, exigindo um desempenho mínimo no final do curso para que os recém-formados possam exercer a profissão.

Na opinião dos estudantes ouvidos pela Folha, a criação de um exame de proficiência é um passo necessário para a medicina.

Para Bernardo Ciminelli, estudante de medicina na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), a existência do exame nas atuais circunstâncias é favorável, mas ressalta que a medida não combate a principal causa do problema —e a regulação do governo acaba focando apenas a consequência.

O problema seria a expansão desenfreada das faculdades de medicina. Instituições privadas e decisões judiciais e liminares impulsionam esse crescimento. “Essas faculdades às vezes não têm hospital universitário, não têm um corpo docente muito bem qualificado, não têm uma infraestrutura básica”, diz.

“Você está dizendo que autorizou a abertura daquela faculdade, permitiu que um aluno cursasse seis anos, para no final falar: ‘Espera aí, então essa faculdade não te prepara tão bem assim’. Parece uma contradição para mim”, questiona Ciminelli.

Para Raphaella Marques, estudante do nono semestre de medicina na Unilago (União das Faculdades dos Grandes Lagos), o aumento de novos profissionais no mercado justifica uma avaliação.

“Há um aumento significativo no número de médicos se formando todos os anos e nem todos saem da graduação com a competência necessária para exercer a profissão de forma segura”, afirma.

Para Marques, a avaliação trará benefícios tanto para a população quanto para a própria categoria, funcionando inclusive como um incentivo para que as instituições de ensino invistam mais na qualidade da formação oferecida.

Gabriel Jie Bang, estudante do quarto ano de medicina da Famerp (Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto), concorda com a percepção de urgência em relação à segurança dos pacientes.

O exame, diz, é necessário para avaliar se os novos profissionais estão de fato aptos para o mercado de trabalho. Ele também aponta que a realidade prática expõe lacunas na formação atual.

“É muito frequente nos depararmos com situações em que um colega médico acaba conduzindo um paciente de maneira inadequada”, afirma o estudante.

Outra questão levantada pelos universitários é o impacto negativo que a obrigatoriedade do teste pode causar na dinâmica pedagógica das faculdades. O teste pode esvaziar a importância das atividades práticas, segundo eles.

Raphaella Marques aponta o risco de as instituições focarem excessivamente o desempenho teórico dos alunos no Enamed. “O modelo pode fazer com que o ensino seja direcionado mais para a aprovação em testes do que para a formação prática do futuro médico.”

Além disso, Jie Bang também aponta para uma possível distorção da rotina de estudos no final do curso. Segundo o estudante da Famerp, a preparação para o exame pode desviar a atenção do desenvolvimento de outras competências essenciais.

Ciminelli diz que demonstrar proficiência em um exame teórico de múltipla escolha não equivale a estar pronto para o ambiente de um consultório ou plantão. “Isso só vai abrir um novo mercado de cursinhos para passar no Enamed, sem necessariamente preparar o médico para a prática clínica.”

Nas redes sociais, como o X (antigo Twitter) e o Instagram, há apoio à aplicação da prova, e usuários argumentam que a medida é o caminho viável para frear a precarização da formação após o aumento de faculdades médicas no país. Além disso, os usuários também apontam para possíveis criações de cursos voltados para aprovação no Enamed.

Iolanda de Fátima Lopes Calvo Tibério, médica, professora e presidente da comissão de graduação da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), ressalta que o Enamed funciona como um balizador para o momento em que o médico encerra a graduação e decide dar o próximo passo na profissão. “É importantíssimo alcançar uma formação adequada na graduação para depois pleitear residência.”

Diante do cenário de expansão de vagas, a docente afirma que a implementação da prova não é uma punição ao aluno, mas sim uma resposta necessária às exigências da população por segurança nos atendimentos.

“É uma demanda da sociedade e ele veio para melhorar a formação médica.”

Além disso, a docente reforça que as falhas estruturais do ensino superior não devem ser empurradas para a etapa seguinte da carreira. A residência médica não vem para resolver o que a graduação não resolveu, mas sim para oferecer um treinamento especializado, diz.



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