Águas do Miranda consolidou-se como um dos principais destinos de pesca esportiva de Mato Grosso do Sul. Com aproximadamente 2 mil habitantes na região , o distrito movimenta uma importante cadeia econômica formada por pousadas, ranchos, aluguel de barcos, guias de pesca, restaurantes, mercados e diversos prestadores de serviços.
Reconhecendo a relevância do setor, o município tem investido na promoção da atividade por meio de festivais, torneios de pesca, premiações, eventos voltados ao público feminino e atrações culturais que ajudam a fortalecer a economia local e divulgar o destino.
Porém, o crescimento do turismo também traz responsabilidades. E é justamente nesse ponto que surge um debate importante para a comunidade, para os vereadores e para as secretarias de Turismo e Meio Ambiente.
Quem chega a Águas do Miranda encontra uma das regiões mais piscosas do Estado e um dos mais importantes patrimônios naturais de Bonito. Em contrapartida, moradores convivem há anos com problemas relacionados à destinação de resíduos sólidos e com a ausência de um sistema de coleta e tratamento de esgoto compatível com a importância turística da localidade.
A situação leva a um questionamento legítimo: se Águas do Miranda é um destino turístico consolidado, por que os visitantes da pesca esportiva não contribuem por meio da Taxa de Conservação Ambiental?
A discussão ganha ainda mais relevância quando observamos que tanto o turista da pesca esportiva quanto o visitante dos atrativos de contemplação utilizam recursos naturais como principal motivação da viagem. Ambos dependem da preservação ambiental, ambos geram impactos sobre a infraestrutura pública e ambos contribuem para a movimentação da economia local.
Diante disso, cabe uma reflexão: até que ponto a legislação municipal diferencia essas modalidades de turismo e quais critérios justificam a cobrança da Taxa de Conservação Ambiental para um segmento e não para o outro?
Mas existe uma pergunta que talvez seja ainda mais importante.
Quantos turistas visitam Águas do Miranda todos os anos?

Existe um controle oficial do número de pescadores que chegam ao distrito durante a temporada? O município possui dados sobre acompanhantes, familiares e demais visitantes que utilizam a infraestrutura local? Como são medidos os impactos gerados sobre a coleta de lixo, o saneamento, a conservação ambiental e os serviços públicos?
Sem essas informações, torna-se difícil planejar investimentos, dimensionar necessidades futuras e avaliar com precisão os impactos do turismo sobre a comunidade.
Nesse contexto, seria importante que a Secretaria Municipal de Turismo, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e os vereadores de Bonito debatessem alguns pontos fundamentais:
• Existe um levantamento oficial do fluxo anual de visitantes em Águas do Miranda?
• Como é realizado o monitoramento desse turismo?
• Existe estudo sobre os impactos econômicos e ambientais da pesca esportiva no distrito?
• Há viabilidade jurídica e econômica para a inclusão desse segmento na cobrança da Taxa de Conservação Ambiental?
• Quanto poderia ser arrecadado e quais investimentos poderiam ser realizados na própria comunidade?
• Existe planejamento para a implantação de um sistema adequado de coleta e tratamento de esgoto?
• Quais ações permanentes estão previstas para solucionar os problemas relacionados à destinação dos resíduos sólidos?
O objetivo desse debate não é questionar a importância da pesca esportiva, uma atividade essencial para a economia de Águas do Miranda. Pelo contrário. Trata-se de discutir como o crescimento do turismo pode caminhar ao lado da preservação ambiental, do saneamento básico e da melhoria da qualidade de vida da população local.
Se o município investe recursos públicos para promover o destino por meio de festivais, torneios e eventos, é natural que a sociedade também discuta como ocorre o controle dos visitantes, quais são os impactos gerados por essa atividade e de que forma parte dessa riqueza pode retornar para a própria comunidade.
Mais do que uma discussão sobre taxas, trata-se de uma discussão sobre planejamento, transparência e desenvolvimento sustentável. Afinal, uma das principais portas de entrada do turismo de pesca de Bonito merece mais do que eventos de sucesso: merece infraestrutura compatível com sua importância econômica e ambiental.

