Bonito Sem Filtro News – Editorial
sessão da Câmara realizada na última segunda-feira, 1º de junho de 2026, deixou uma imagem difícil de ignorar.
De um lado, uma estrutura mantida por um duodécimo na casa de R$ 1 milhão por mês, 11 vereadores, 27 assessores e toda a engrenagem de um Poder que existe para representar e fiscalizar.
Do outro, uma plateia com meia dúzia de gatos pingados.
Aliás, nem mesmo a numerosa estrutura de assessorias parecia ter comparecido em peso. Sobrou cadeira. Faltou público.
Mas talvez o detalhe mais curioso não estivesse na plateia. Estava no debate.
Enquanto a população reclama de obras que apresentam problemas pouco tempo após serem executadas, de ruas que continuam exigindo reparos e do aumento da taxa do lixo, surgem propostas de CPI para investigar os fatos.
E é aí que a política local entra no território do paradoxo.
As reclamações existem.
As dúvidas existem.
Os questionamentos existem.
Mas as CPIs não.
Não porque faltam assuntos para investigar. Não porque faltam reclamações da população. Não porque faltam motivos.
Faltam assinaturas.
É uma situação quase poética. A ferramenta criada para investigar não consegue sequer nascer porque não encontra apoio suficiente para existir.
O cidadão olha para um problema e pergunta: “O que aconteceu?”
A resposta que recebe é algo próximo de: “Excelente pergunta. Pena que não haverá investigação para descobrir.”
Talvez seja apenas coincidência que as dificuldades para criar CPIs apareçam justamente quando os assuntos envolvem temas que geram desconforto político.
Talvez seja apenas coincidência que a Câmara possua uma ampla maioria alinhada ao Executivo.
Talvez seja apenas coincidência que tantas perguntas continuem sem respostas.
Coincidências acontecem.
Mas quando elas começam a acontecer sempre para o mesmo lado, deixam de parecer tão coincidentes.
Também merece reflexão o dia e o horário das sessões. Realizadas em plena segunda-feira, quando a maior parte da população está trabalhando, acabam sendo acompanhadas por poucos cidadãos. Depois nos perguntamos por que a Casa do Povo está vazia.
E já que a palavra da moda é transparência, vale lembrar que transparência não é apenas ligar uma câmera, abrir uma live e transmitir a sessão pela internet. Transparência é responder requerimentos, prestar contas, fornecer documentos quando solicitados, explicar decisões que afetam a população e permitir que os cidadãos compreendam como e por que as decisões estão sendo tomadas.
Uma transmissão ao vivo mostra o que acontece. Transparência explica por que acontece.
São coisas bem diferentes.
No fim das contas, a questão não é ser contra ou a favor do prefeito.
A questão é outra.
O cidadão elege vereadores para fiscalizar, questionar, cobrar explicações e defender o interesse público.
Porque quando a fiscalização desaparece, as perguntas se acumulam.
E quando as perguntas se acumulam, quem perde não é a oposição, nem a situação.
É a população.


