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Dispensa de alunos em jogos da Copa levanta debate sobre papéis de família e escola


A liberação antecipada de alunos e professores em dias de jogos do Brasil na Copa do Mundo reanimou um debate sobre o papel da escola.

De um lado, famílias argumentam não ter com quem deixar os filhos por causa do trabalho. De outro, as instituições de ensino defendem que há um excesso da transferência de responsabilidade a elas para os cuidados com as crianças.

Até essa etapa do Mundial, apenas dois jogos da seleção brasileira aconteceram em dias úteis, e as maiores redes públicas de ensino do país decidiram dispensar estudantes e professores das aulas.

Em São Paulo, por exemplo, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o prefeito Ricardo Nunes (MDB) liberaram as escolas a não ter atividades presenciais no horário das partidas. No Rio de Janeiro, tanto na rede estadual quanto municipal, houve ponto facultativo.

Já prefeitos de cidades menores, como Tubarão, em Santa Catarina, e Nova Lima, em Minas Gerais, determinaram que as escolas deveriam funcionar normalmente durante os jogos, sob a justificativa de serem consideradas serviços essenciais. Em algumas escolas particulares, as atividades também foram mantidas.

A discussão já envolve o planejamento do ano que vem, quando o Brasil sediará a Copa do Mundo Feminina. Uma lei federal sancionada pelo presidente Lula (PT) determinou que todas as escolas do país, públicas e privadas, organizem seus calendários de 2027 para que as férias escolares coincidam com o período do torneio, que acontecerá de 24 de junho a 25 de julho.

Uma professora de uma escola particular de São Paulo contou à Folha que não apenas os alunos e funcionários não foram dispensados para assistir aos jogos, como a direção ainda determinou que as aulas deveriam ser retomadas após o fim da partida.

A educadora, que pediu para não ter o nome identificado por medo de represália, contou que a maioria dos alunos faltou naquele dia. Os poucos presentes estavam desanimados de estar na escola e ficaram agitados demais após o jogo para conseguir assistir à aula.

Ela diz compreender pais que precisam trabalhar, mas também reflete sobre a necessidade das crianças e adolescentes viverem momentos importantes, como a Copa do Mundo, em família e entre amigos.

Até mesmo o técnico da Inglaterra, Thomas Tuchel, pediu aos pais que deixem seus filhos faltarem à escola na próxima segunda-feira (6) para poderem torcer para a seleção inglesa na partida contra o México, que só deve terminar na madrugada do horário local.

“Eles têm muitas aulas para frequentar, mas a Copa do Mundo acontece só a cada quatro anos”, disse o treinador.

Para os educadores, o embate entre pais e escolas diante da dispensa em dias de jogos expõe uma discussão maior sobre o dissenso em relação ao papel das instituições de ensino.

“A gente vive atualmente uma grande confusão de responsabilidades. Muitas vezes as famílias entendem que a escola deve trabalhar mais para satisfazer suas necessidades do que para garantir um direito da criança”, diz a pedagoga Januária Cristino, que trabalha como formadora de professores.

Para ela, em vez de enxergar a alteração pontual no calendário escolar como um problema, a sociedade deveria questionar as condições estruturais que levam a esse impasse.

“Será que a escola é o problema quando ela se organiza para uma mudança pontual na rotina, como tantos outros setores do mundo do trabalho estão fazendo? O problema é a falta de flexibilidade do mercado de trabalho, a ausência de políticas públicas de cuidado com as crianças, mas cobram que a escola seja a solução”, diz Cristino.

Ela não desconsidera a dificuldade de famílias que precisam trabalhar e não têm com quem deixar os filhos, mas considera ser negativo que a escola sempre seja apontada como solução para o problema.

Cristino destaca ainda que a discussão foi despertada pelos jogos da Copa, mas lembra que há colégios particulares que ficam com as crianças até três horas após o fim das aulas porque os pais não conseguem buscá-las antes. Ou o caso da rede municipal de São Paulo, que reduziu as férias escolares de julho de 30 para 15 dias.

“Por que continuamos esperando que a escola resolva problemas produzidos por um mercado de trabalho pouco sensível à infância, por políticas públicas insuficientes e por uma sociedade que ainda concentra o cuidado dos filhos sobre as mulheres? Mesmo tentando, a escola vai continuar falhando porque essa demanda só aumenta”, diz.

A pedagoga Andrea Santos diz que é preciso considerar o caso de pais que trabalham em profissões que não conseguem a dispensa do expediente. No entanto, destaca que, em situações como a Copa do Mundo, é importante que as escolas pensem em um cronograma diferente.

“É preciso pensar em atividades que façam a criança se sentir também envolvida com aquele momento, que ela sabe que todos estão vivendo. Não adianta e nem será produtivo continuar com as aulas normalmente. Isso pode até ser prejudicial.”



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