Diogo Defante tinha apenas 13 anos quando investiu em sua primeira banda, chamada Let’s Go, mas poucos sabem de suas ambições musicais — ainda. Mais de duas décadas depois, aos 35, ele faz sua estreia no festival Rock in Rio, comandando o palco Supernova a partir das 20h10 desta sexta-feira, 4.
Lá, demonstra o repertório de rock no qual tem trabalhado, inspirado em Mamonas Assassinas e outros expoentes bem-humorados do rock, mas não limitado às piadas. Em entrevista a VEJA, o influenciador com mais de 5,5 milhões de seguidores no Instagram esclarece a mudança de rota inusitada:
Você compartilhou recentemente uma reflexão sobre a retirada de um tumor benigno no ano passado e o processo árduo de voltar a ficar em forma. A ambição de estar nos palcos foi uma das suas motivações nesse período? Quando percebi que a situação estava piorando, resolvi operar. O médico me explicou que, se eu esperasse mais, poderia perder força e que, quanto mais velho, mais difícil seria a recuperação. Foi uma decisão que eu sabia que teria de enfrentar. Mesmo nervoso com a cirurgia, eu ainda tive a frieza de pensar: “Eu quero lançar um álbum, já tenho as músicas”. Então, mesmo naquele momento, a música continuava muito presente para mim. Eu queria seguir com o projeto, lançar o álbum e voltar a fazer aquilo que gosto. Acho que ter esse objetivo ajudou a atravessar aquele período e a pensar no que viria depois da recuperação.
O público já está habituado à sua imagem como humorista, e muitos vão se surpreender com essa empreitada. Como explica sua identidade musical aos que não a conhecem? A trajetória da música é uma coisa que estou fazendo aos poucos, porque não gosto muito da ideia de ficar colocando isso à força em todos os meus vídeos, dizendo que as pessoas precisam conhecer o meu projeto musical. Quero que elas gostem organicamente, genuinamente. Quero criar um público para a música, uma galera que vá ao show porque gosta do som, que queira saber qual será a próxima música que vou lançar e queira assistir ao próximo clipe.
Então, aos poucos, estou traçando esse caminho, meio paralelo, que durante um tempo foi quase um plano B. Mas a música já está tão forte na minha vida que hoje considero que ela está caminhando junto com o entretenimento, com meu programa, o Rango Brabo, e com esse projeto musical.
Suas letras ainda carregam um forte teor cômico, que faz pensar no Mamonas Assassinas e no Raimundos. Quais suas principais referências? O Mamonas Assassinas obviamente faz parte da minha geração dos anos 1990 e está na veia de todos os brasileiros daquela época. Não tem como não passar pelo Mamonas quando começo a escrever uma letra que tem alguma zoeira ou alguma brincadeira. Para mim, eles foram os caras que desbravaram uma coisa que considero muito difícil hoje, justamente por existir esse vácuo: fazer uma brincadeira ser levada a sério.
Eu também cresci ouvindo Raimundos. Quando comecei a ter contato com o rock, passei por várias referências, como Offspring, Guns N’ Roses, Red Hot Chili Peppers e Green Day. Mas os Mamonas tiveram uma importância muito particular porque mostraram que uma música com galhofa, besteirol ou humor também pode ser levada a sério dentro do mercado musical, tocar em programas, vender ingressos e chegar a grandes palcos. Ao mesmo tempo, não fico preso à obrigação de colocar uma piada ou alguma coisa engraçada em toda música. O humor faz parte de mim, mas a música não precisa necessariamente ser uma piada.
Até onde quer chegar na música? Quero construir esse público de maneira orgânica e genuína, fazendo com que as pessoas conheçam as músicas, queiram ir aos shows e acompanhem os próximos lançamentos. Sei que a trajetória e o caminho são árduos. É uma maratona, não uma corrida de 100 metros rasos. Então quero construir isso aos poucos e fazer com que a música conquiste seu próprio espaço na minha carreira.
Humanoide tem temática futurista e é crítico sobre a inteligência artificial, mas ela ainda foi utilizada para gerar certas imagens do clipe. Qual sua posição sobre o uso dessa ferramenta? A inteligência artificial é um assunto muito atual e ainda meio tabu, principalmente para os artistas. Eu vi muita gente incomodada com a utilização da IA, mas, ao mesmo tempo, entendo que, em alguns pontos, ela auxilia algumas pessoas. Eu não tenho uma resposta definitiva sobre até onde pode ou não pode, mas quis provocar essa discussão com a música e colocar o assunto na mesa. Acho que é importante não ter a cabeça fechada para as possibilidades que a tecnologia traz, mas também entender os excessos e pensar no quanto isso pode fazer mal, quais são os limites e até onde dá para ir. Para mim, o mais importante é justamente essa discussão sobre como a gente vai conviver com essa tecnologia.
No Rock in Rio, cantará perante o maior público de sua carreira. Como estão as expectativas para essa interação? É o show mais importante da minha carreira até aqui, então não tem como ignorar o tamanho disso. É uma sensação esquisita, porque muita coisa passou pela minha cabeça desde o primeiro show que fiz no Circo Voador em 2023. Eu tive bandas, Let’s Go (2008), Me Gusta Rock (2013) e Catch Side (2015), e tentei fazer a música autoral dar certo como baterista. A gente sabe que não é fácil. Agora, o Rock in Rio é uma coisa inacreditável, inimaginável. Estou com um misto de gratidão e insegurança, querendo me preparar o máximo possível para esse dia.
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