A Áspide das Águas Turvas.
Por trás dos nossos cartões-postais de águas cristalinas, flutuações perfeitas e araras-vermelhas, há um lodo que eu, o Bonito Sem Filtros, faço questão de revirar.
Se na Salvador do século XVII, Gregório de Matos Guerra usava sua pena como espada para sangrar a hipocrisia dos governantes (exatamente como retratado no clássico Boca do Inferno, de Ana Miranda, em que as intrigas daquela “canalha infernal” culminaram no violento assassinato do alcaide-mor Francisco Teles de Menezes e na implacável perseguição política que quase destruiu o poeta), (É Lambizovo… sinto em te dizer vai ter que ler a respeito, por que afinal a vida não é só ser Lambe botas) eu assumo esse mesmo fardo no cerrado no paraíso ecológico. Mudam-se as caravelas pelos jipes de turismo; saem as batinas jesuítas e entram os coletes oficiais pagos com o seu dinheiro caro leitor e contribuinte.
Aqui, onde Deus caprichou na natureza e na pureza, a política local insiste em turvar a nossa correnteza que segue o fluxo hoje em aguas turvas. E eu não nasci para ser fã de político; nasci para ser o veneno que cura a ilusão.
Minha Redoma de Vidro e o Ecoturismo por Fachada.
Enquanto o turista deslumbra-se com o Rio Sucuri, eu prefiro observar de perto o vaivém dos jipes lotados cruzando as estradas, registrando o contraste brutal que a propaganda oficial tenta esconder. Como a cobra, sigo observando e destilando a verdade sobre:
O Milagre das Diárias: Excelentíssimos vereadores que flutuam mais em viagens oficiais do que os turistas no Rio da Prata.
A Operação “Águas Turvas”: Uma ironia poética que nem o próprio Gregório conseguiria batizar melhor. Onde eu cobro transparência, eles entregam um lodo denso de contratos e mistérios.
O Ecoturismo para inglês Ver: A cidade vende a preservação para o mundo, mas esquece-se de preservar a dignidade de quem nela habita e trabalha.
O Meu Bote como Açoite. Olhar para a beleza monumental da nossa região e ter a audácia de apontar o dedo para a sujeira debaixo do tapete da gestão municipal é um ato de heresia para os “coronéis” que comandam as frotas de jipes e os grandes atrativos. Sei que o meu bote incomoda, que o meu tom ferino causa calafrios nas salas refrigeradas do poder.
“Anjos de rapina que por aqui trafegam no nosso município governar, cobram Taxas de pedágio até para a água que corre livre, enquanto o meu povo assiste, de pés descalços, à riqueza que passa em direção ao aeroporto.”
Se o poeta baiano estivesse vivo hoje, ele não estaria na Bahia. Ele estaria comigo, lado a lado com a sucuri do bonito sem filtro, sentado na praça principal, munido de um olhar cínico e uma coragem implacável, observando as “autoridades” desfilarem suas vaidades custeadas pelo erário público.
Minha missão com o Bonito Sem Filtros é exatamente essa: não deixar ninguém esquecer que, por mais bonita que seja a superfície, é no fundo do rio que os peixes grandes e as sucuris se escondem e é exatamente lá que o meu ataque não envolve veneno, mas sim a constrição. Ela abate sua presa enrolando-se ao redor do corpo para sufocar e interromper o fluxo sanguíneo quase igual a um infarto, podendo também afogar o animal. Humanos não fazem parte da dieta natural delas e os raros incidentes são geralmente motivados por defesa ou sentir se ameaçada.
Referência literária: Boca do Inferno, de Ana Miranda, é um romance inspirado em Gregório de Matos, poeta barroco conhecido por suas críticas mordazes ao poder e às hipocrisias da sociedade baiana do século XVII. A referência nesta matéria é apenas literária e simbólica.


