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Bolsonarismo propõe ‘corte brutal’ na Educação e ‘abomina’ a área, diz ministro de Lula


O ministro da Educação, Leonardo Barchini, diz que o atual mandato do governo Lula (PT) garantiu avanços para a área, apesar do desmonte deixado pela gestão anterior de Jair Bolsonaro (PL).

“Se olharmos para o que importa na gestão federal, que é o orçamento, eles não gostam da educação”, afirma em entrevista à Folha. “Esse era o projeto deles para um segundo mandato: um corte brutal.”

A fala do ministro ecoa o próprio plano de governo da candidatura de Lula à reeleição, no qual se exploram mais as realizações nesses quatro anos pós-Bolsonaro do que promessas claras. O principal adversário de Lula é o senador Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente.

À frente do MEC desde abril, Barchini, 50, defende forte expansão do ensino integral. A pasta prepara para outubro um novo projeto, que deve estabelecer meta superior aos 50% de matrículas com a jornada estendida previstos no PNE (Plano Nacional de Educação).

Ainda que não conste nas propostas de Lula, o ministro diz que a ideia de universalizar o Pé-de-Meia para todos os alunos do ensino médio segue firme dentro do governo. O programa federal que paga a estudantes bolsas como incentivo à permanência na escola.

Divulgado neste mês, o Ideb [indicador federal de qualidade da educação] subiu em todas as etapas, mas reforçou tendência dos últimos anos, de avanço lento, com uma melhora nos anos iniciais que perde força nas etapas seguintes. Como encarar esses resultados com o pé no chão?

A gente é otimista e está muito feliz com o que aconteceu de 20 anos para cá. A escola brasileira é tardia. Enquanto outras nações começaram no pós-guerra a investir pesadamente em educação, nós passamos o século 20 inteiro com 2,5%, 1% do PIB. Esse é o nosso retrato, aliado aos 300 anos de escravidão, que marcam profundamente as desigualdades no Brasil até hoje.

Tem um argumento apontado por alguns economistas de que a escola brasileira é ineficiente. O dado concreto é que até hoje investimos 1/3 por aluno do que investem os países da OCDE [grupo de países ricos]. Então, que ineficiência é essa?

A educação respondeu nesses últimos 20 anos em que dobramos o orçamento em educação. A resposta se traduz na melhoria do acesso, trajetória e proficiência, ainda que a proficiência seja talvez o último capítulo para a gente, de vez, ter uma educação de qualidade para todos.

Isso não tira de nós a responsabilidade. E temos uma janela histórica em que o número de estudantes vai diminuindo e o financiamento vai aumentar acima da inflação pelas projeções nos próximos dez anos.

É comum ouvir de eleitores do Lula a sensação de que o atual governo não fez o suficiente, inclusive quando comparado a outros mandatos. Como avalia isso do ponto de vista da educação?

Alcançamos várias vitórias e fizemos um trabalho satisfatório. Claro que gostaríamos de fazer mais, mas pelo estado em que pegamos o ministério, com alternância de comando [Bolsonaro teve quatro ministros da Educação], sem direcionamento ou coordenação federativa, temos muito motivo para celebrar.

Porque não foi fácil reconstruir. E talvez só não foi mais destruído por incompetência deles, porque o objetivo claro era o desmonte do MEC, em linha com o que a extrema direita faz no mundo inteiro. Então precisamos retomar a coordenação federativa, recompor o orçamento, criar programas e dar diretrizes.

Olhando o plano de governo para eleição, as promessas são tímidas e há mais espaço retomando o que foi feito no mandato, sob o argumento de que Bolsonaro destruiu a área. Como convencer a sociedade ao manter esse discurso, sem promessas mais efetivas?

Existe uma estratégia de campanha da qual eu, obviamente, não participo. O que nós temos aqui é o Plano Nacional de Educação, que nos guia, e a obsessão pelo tempo integral, pela melhoria da aprendizagem com equidade. Do ponto de vista do ministério, a gente tem e terá um plano muito ousado.

Os planos de universalizar o Pé-de-Meia ficaram de fora do programa da campanha. A ideia foi abandonada?

Está em discussão. Avaliaremos as condições fiscais e se a expansão será gradativa. A tendência dentro do governo é expandir.

Sobre ampliação do tempo educação integral, como e quando isso será feito?

Com o bônus demográfico, a redução do número de estudantes e o crescimento do Fundeb [mecanismo de financiamento da educação básica] acima da inflação, o investimento por aluno vai subir de forma inédita. Vai permitir financiar o custeio das escolas de tempo integral, que é uma condição indispensável para a melhoria da proficiência, como atestam todas as pesquisas internacionais.

Estamos avaliando os estudos sobre os custos, mas o plano está pronto para ser apresentado em outubro.

Para a infraestrutura, que é a nossa grande dívida histórica, o PNE e um projeto de lei preveem o aporte de recursos do Fundo Social do Pré-Sal. Com essa conjunção de fatores, de recursos do Fundeb para custeio e do pré-sal para construções, o Brasil tem todas as condições de realizar a expansão definitiva da escola pública de tempo integral.

E o tempo integral tem ainda uma dimensão social, principalmente com as mulheres. É muito injusto o país não oferecer uma educação em tempo integral para os filhos das mulheres que mais precisam.

No começo deste governo, a educação integral também foi colocada como prioridade. Depois, por causa do custo do Pé-de-Meia, o modelo perdeu dinheiro, e o governo colocou a expansão para ser financiada com o Fundeb.

A rubrica de tempo integral acabou perdendo espaço nessa escolha. Mas o dinheiro do Pé-de-Meia foi um aporte adicional, quando você olha o que aconteceu a partir de 2023. Nosso discricionário [gastos não obrigatórios] era em torno de R$ 20 bilhões em 2022, em 2023 foi para R$ 40 bilhões, e de 2025 para 2026 subimos R$ 10 bilhões, que é o que se gasta no Pé-de-Meia. E o Fundeb cresceu em torno de R$ 20 bilhões no último ano. Então tem recurso para investir.

O PNE prevê 50% de matrículas em tempo integral em dez anos, mas, se a gente puder fazer em quatro anos, melhor. Estamos avaliando a demanda e, conforme estamos fechando os estudos, talvez a meta seja um pouco maior.

O sr. acredita que a direita tem uma visão diferente da esquerda do que seja educação de qualidade?

Há uma diferença histórica e profunda sobre como a esquerda e a direita enxergam o papel do Estado na educação. Mas o ponto central é que não estamos lidando apenas com a direita tradicional, e, sim, com uma extrema direita que ataca e abomina a instituição escolar. Isso ficou evidente na asfixia orçamentária que eles promoveram [no governo Bolsonaro].

Se olharmos para o que importa na gestão federal, que é o orçamento, eles não gostam da educação. Os ataques ao orçamento da educação e áreas sociais são incontestes. O orçamento de 2023 que o governo anterior enviou ao Congresso previa a compra de apenas um ônibus escolar para o país inteiro.

Esse era o projeto deles para um segundo mandato: um corte brutal. Não é apenas uma visão diferente, é uma visão antagônica, expressa no sufocamento do orçamento.

Como o sr. vê a evolução da rede estadual de SP, a maior do país?

O secretário Renato Feder parece bem-intencionado, mas há um grave problema de subfinanciamento decorrente da emenda estadual que diminuiu o orçamento paulista da educação. Sem dúvida, isso terá efeitos deletérios na qualidade da educação paulista. Fico com pena dos gestores, porque qualquer centavo retirado nos obriga a correr para cobrir o buraco, e alguém sempre sai perdendo.


Raio-X – Leonardo Barchini, 50

Servidor federal desde 2002, ocupou diferentes funções no MEC e foi secretário-executivo da pasta de 2024 a abril de 2026, quando assumiu o cargo de ministro. Foi diretor da OEI (Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, Ciência e Cultura) no Brasil, secretário de Relações Internacionais e chefe de gabinete na Prefeitura de São Paulo, na gestão Fernando Haddad (PT). É graduado em direito e mestre em ciências sociais pela UnB.



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