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Além da inserção de comandos, advogados usam até ações falsas geradas por IA – Cidades


Defensores citaram sentenças de processos inexistentes em petições ajuizadas no TJMS

Além da inserção de comandos, advogados usam até ações falsas geradas por IA
Servidora do TJMS em curso sobre assinaturas eletrônicas e risco sistêmico de fraude.(Foto: TJMS)

Na era em que a tecnologia generativa é usada frequentemente para golpes, o Poder Judiciário também se torna alvo e a atenção de juízes e desembargadores precisa ser redobrada para que decisões preliminares e sentenças não sejam induzidas por peças fraudulentas peticionadas ou pelo chamado “prompt injection”, situação em que ocorre a inclusão de comando escondido dentro da documentação que vai ser apreciada em juízo.

O Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul identificou casos de advogados que usaram inteligência artificial para fabricar jurisprudências inexistentes em petições, citando decisões falsas atribuídas ao STJ e outros tribunais. Magistrados recusaram as ações e alertaram para litigância de má-fé, enquanto especialistas advertem sobre o risco do “prompt injection”, técnica que pode induzir decisões judiciais equivocadas. A OAB/MS afirmou que adotará medidas disciplinares caso receba denúncias formais.

Desde o ano passado, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul se deparou com pedidos e manifestações de advogados em diversas ações que usaram como exemplo, para defender teses, sentenças de processos que nunca existiram. Em um dos casos, o juiz detalhou que “a utilização deliberada de jurisprudência inexistente configura litigância de má-fé, (…). A prática de manipulação de precedentes enseja comunicação à OAB para apuração de infração ético disciplinar”.

A ação era referente ao Imposto de Transmissão Causa Mortis e o advogado dos autores usou, para tentar convencer o juiz, a citação de decisões supostamente do Superior Tribunal de Justiça, do Tribunal de Justiça de São Paulo e do próprio Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul. Ao analisá-las, a fiscalização descobriu que as decisões eram inventadas e que os números dos processos citados não existiam ou tratavam de assuntos diferentes.

Diante disso, o magistrado da 1ª Vara de Bonito recusou a ação alegando não ter como “conferir validade à argumentação criada pela IA sem supervisão humana e, sobretudo, sem nenhum respaldo na realidade jurídica”.

Em outro processo, um procurador municipal de Mato Grosso do Sul entrou com recurso contra a decisão de primeiro grau que havia condenado a prefeitura à obrigação de revisar seu Plano Diretor. No embargo, o defensor municipal usou o sistema automatizado para tentar convencer o desembargador José Eduardo Neder Meneghelli a reformar a sentença.

Identificada a situação, Meneghelli destacou no acórdão que a peça trazia “julgado inexistente atribuído a magistrado que nunca integrou o TJMS, configurando tentativa de induzir o juízo a erro por meio da utilização de conteúdo fictício, aparentemente gerado por inteligência artificial”.

Direito Digital – O presidente da Comissão de Direito Digital e Inteligência Artificial da OAB/MS, Raphael Chaia, comentou que o uso de ferramentas tecnológicas de forma a fraudar processos deve ser comum. Ele afirma que há possibilidade de uma sentença judicial ser definida de forma errônea se a análise for feita por tecnologia generativa em caso de prompt injection.

“Se o juiz ou analistas e assessores usarem IA em 100% do processo, a IA vai ler o comando e atender o comando que está lá. Isso pode levar a um desfecho equivocado porque a estrutura da sentença, ou rascunho ou outro despacho vai ser conforme a programação do prompt”, afirma.

Ele analisa que, se houver magistrados que se fiem na inteligência artificial, isso pode criar um ponto de vulnerabilidade na análise dos processos e decisões. Chaia destaca, entretanto, que caso haja esse tipo de atuação no Judiciário, ocorre em escala reduzida.

Em relação aos advogados, o presidente da comissão avalia que eles apostam que o sistema judicial não vai identificar a fraude.

“Se as etapas do processo são encaminhadas 100% por IA, o advogado ganha a causa, consegue a sentença que ele quer. Mas se a fraude é identificada, o advogado pode responder em ação ético-disciplinar da OAB, ter o registro suspenso ou cassado”.

Até o momento, segundo Chaia, a Ordem não recebeu denúncia de inserção de comandos em petições para analisar, e o secretário de ética da categoria, Luiz Renê, sustentou que a instituição vai atuar sempre que comunicada oficialmente. Em nota oficial, a OAB/MS afirmou que, se receber denúncias dessa vertente, a entidade “adotará as medidas éticas disciplinares correspondentes, sempre respeitando o direito à ampla defesa e ao contraditório”.



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