Enquanto a Prefeitura de Bonito alardeia nos portais de notícias um investimento de cerca de R$ 1,8 milhão por ano na coleta de resíduos na zona rural e destaca o deslocamento de 1.200 quilômetros por semana, a rotina de quem empreende na região conta outra história. Em Águas do Miranda, o otimismo do discurso oficial esbarra na frustração diária de proprietários de pousadas, pesqueiros e ranchos de lazer, que enfrentam gargalos históricos com a destinação do lixo e a falta de suporte estrutural do poder público.
A celeuma gira em torno da divergência sobre como o serviço é prestado. Por meio de nota oficial, a administração municipal sustenta que o distrito conta com coleta porta a porta nas áreas contempladas e com a disponibilização de caçambas em pontos estratégicos, funcionando nos dias de segunda, quarta e sexta-feira. No entanto, para os proprietários de pousadas e pesqueiros da região, o modelo baseado em caçambas distantes e rotas engessadas é totalmente incompatível com a realidade do turismo local, especialmente nos fins de semana e feriados prolongados, quando o fluxo de visitantes explode e os pontos de descarte rapidamente viram focos de acúmulo de resíduos a céu aberto.
Outro ponto de forte atrito é o enquadramento desses estabelecimentos como “grandes geradores”. A Prefeitura bate na tecla de que hotéis, pousadas, ranchos e pesqueiros devem arcar com suas próprias responsabilidades legais quanto ao acondicionamento, transporte e destinação final dos materiais gerados em suas atividades. Os proprietários, por sua vez, questionam o peso dessa exigência quando o município falha justamente na entrega do básico: sem uma coleta porta a porta eficiente ou saneamento adequado que acompanhe o crescimento da região, cabem aos próprios empreendedores ter que carregar sacos de lixo em veículos particulares até as caçambas, ou arcar com custos particulares pesados para suprir uma lacuna que deveria ser atenuada pelo poder público.
A contradição da versão oficial ganhou um capítulo ainda mais grave com a intervenção da Justiça. O Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) instaurou um inquérito civil após constatar que as explicações da Prefeitura eram vagas e não comprovavam a limpeza efetiva dos pontos críticos. A investigação cobra da gestão municipal laudos detalhados, licenças ambientais e providências urgentes sobre o acúmulo de lixo doméstico, entulho e restos de animais a céu aberto, apurando inclusive a denúncia de que o chorume gerado por esse descarte irregular estaria escoando em direção ao Córrego da Onça, com risco de atingir o próprio Rio Miranda.
Enquanto a Prefeitura apela para a colaboração de moradores e visitantes e discute planejamentos dentro de gabinetes e conselhos municipais, a base produtiva de Águas do Miranda cobra um olhar mais proporcional ao retorno financeiro e turístico que o distrito gera para o município. Para quem comanda pousadas e pesqueiros na ponta, os números bilionários ou milionários estampados em releases oficiais pouco importam quando o lixo acumula, o mau cheiro toma conta e a ameaça ambiental bate à porta dos nossos rios.





