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Em Bonito, será que um bonobo faria um discurso melhor que alguns vereadores? A pergunta é incômoda, mas necessária.

Antes que alguém torça o nariz, vale um fato científico: bonobos e chimpanzés são os parentes vivos mais próximos do ser humano. Compartilhamos cerca de 98,7% a 99% do DNA. A principal diferença genética é que os seres humanos possuem 46 cromossomos (23 pares), enquanto bonobos e chimpanzés possuem 48 cromossomos (24 pares). Isso aconteceu porque, durante a evolução humana, dois cromossomos ancestrais se fundiram, formando o atual cromossomo 2. Ter mais ou menos cromossomos não torna uma espécie mais inteligente; trata-se apenas de uma organização diferente do material genético.

Foi um bonobo chamado Kanzi, nascido em 28 de outubro de 1980, que chamou a atenção do mundo. Sem treinamento formal, aprendeu a utilizar um teclado de lexigramas para se comunicar com pesquisadores. Ao longo da vida, demonstrou compreender milhares de palavras em inglês falado, utilizava centenas de símbolos para expressar ideias, resolvia problemas, fabricava ferramentas de pedra, utilizava computadores e participou de experimentos supervisionados envolvendo o uso do fogo para preparar alimentos.

Kanzi morreu em 18 de março de 2025, aos 44 anos, no centro de pesquisas Ape Initiative, em Iowa, nos Estados Unidos. Segundo a instituição, sua morte foi inesperada e representou uma grande perda para a primatologia e para os estudos sobre cognição animal.

Os trabalhos desenvolvidos com Kanzi continuam sendo referência mundial e ajudaram a mudar a compreensão científica sobre as capacidades cognitivas dos grandes primatas.

Bonito Sem Filtro

Agora vamos sair do laboratório e entrar na Câmara Municipal.

Se Kanzi aparecesse em uma sessão, certamente não poderia ocupar uma cadeira de vereador.

Mas talvez, depois de ouvir alguns discursos, olhasse para os pesquisadores e perguntasse, em seus lexigramas:

“Era só isso?”

Porque a tribuna da Câmara foi criada para ser o espaço da fiscalização, do contraditório, da cobrança e da defesa do interesse da população.

Não foi feita para virar púlpito de pregação política, onde alguns sobem apenas para distribuir elogios, agradecer ao Executivo, repetir discursos prontos ou transformar a sessão em um culto permanente de aprovação.

Tribuna não é altar.

Mandato não é sacerdócio.

E vereador não foi eleito para ser coroinha de prefeito.

Quem ocupa aquela tribuna recebe da população o direito — e o dever — de usar a palavra para questionar, investigar, denunciar irregularidades, cobrar soluções e representar o cidadão.

Quando esse espaço é usado apenas para aplausos e afagos ao poder, quem perde não é a oposição.

É a democracia.

Talvez Kanzi nunca tenha lido a Lei Orgânica do Município ou o Regimento Interno da Câmara.

Mas passou a vida aprendendo, compreendendo, resolvendo problemas e surpreendendo cientistas.

Enquanto isso, há parlamentares que parecem acreditar que o mandato se resume a levantar a mão na votação, fazer um discurso protocolar e bater palmas na hora certa.

A população não elege animadores de sessão.

Elege fiscais do dinheiro público.

No fim, fica a reflexão.

Quem demonstra maior evolução: um bonobo que dedicou a vida ao aprendizado ou um agente público que transforma a tribuna em palco de elogios e evita fazer as perguntas que a sociedade espera ouvir?

Bonito Sem Filtro News — A ciência provou que a inteligência pode surgir onde muitos não imaginavam. Já a coragem para fiscalizar continua sendo uma escolha de quem foi eleito.

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