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Estudantes do Xingu formam primeira equipe indígena brasileira em competição internacional de robótica


Num intervalo de apenas dois anos, estudantes e professores da etnia juruna saíram do primeiro contato com a tecnologia robótica para formar a primeira equipe indígena do Brasil na FTC (First Tech Challenge), uma das principais competições estudantis de robótica do mundo.

Esse avanço ocorreu na escola indígena Francisca de Oliveira Lemos Juruna, na aldeia Boa Vista, no município de Vitória do Xingu (PA), onde a rotina inclui programação, projetos de engenharia e testes com robôs.

Iniciado em 2024 pelo Sesi (Serviço Social da Indústria) Pará, o projeto Tecendo Saberes com Robótica reúne 14 estudantes indígenas em duas equipes. A Jurunabots, da FLL (First Lego League), é formada por sete alunos do 7º ao 9º anos do ensino fundamental, de 12 a 14 anos, acompanhados por três professores indígenas.

Já a Yudjatech, da FTC, reúne sete estudantes do 9º ano do ensino fundamental ao 2º ano do ensino médio, de 14 a 17 anos, orientados por quatro professores indígenas da comunidade.

A FLL é considerada a porta de entrada para a robótica educacional, que utiliza peças de Lego para criação dos robôs, enquanto a FTC reúne desafios mais complexos, com estruturas metálicas, motores, sensores e programação avançada para produção de robôs maiores.

Nas aulas, os estudantes projetam, programam e testam robôs para cumprir desafios. Os equipamentos são viabilizados pelo projeto, que também capacita os professores.

A rotina exige trabalho em equipe, criatividade e resolução de problemas. Morador da aldeia, o estudante indígena Hermelinho Ribeiro Juruna, 18, integra a equipe Yudjatech e diz que o interesse pela tecnologia surgiu da curiosidade.

“Hoje o mundo é diferente. Temos um celular na palma da mão e ele nos mostra muitas possibilidades. Então, eu quis aprender a construir robôs e mostrar que nós, indígenas, também podemos estar envolvidos na ciência e inovação”, disse o estudante do 2º ano do ensino médio.

Segundo o Censo 2022, o Brasil tem cerca de 1,7 milhão de indígenas, dos quais 51,2% vivem na Amazônia Legal. No Pará, são mais de 81 mil dessa população. A experiência no Xingu ocorre num contexto de ampliação do acesso à educação tecnológica em comunidades indígenas da região.

Resultados

Em 2025, a Jurunabots se tornou a primeira equipe indígena brasileira a disputar a etapa nacional do Torneio Sesi de Robótica, em Brasília. Neste ano, os estudantes conquistaram o prêmio Revelação na etapa nacional da FLL, em São Paulo, uma das principais competições de robótica educacional do país.

Antes de integrar a Yudjatech, a estudante indígena Eduarda Carolina Machado Juruna, 17, participou da Jurunabots e das primeiras competições com a equipe. “A robótica mudou a forma como eu vejo os desafios. Aprendi a ter mais responsabilidade, confiança, disciplina e a trabalhar melhor em equipe”, conta ela, que também mora na aldeia Boa Vista.

Com o avanço do projeto, foi criada neste ano a primeira equipe indígena brasileira para competir na FTC, considerada a categoria mais avançada de robótica educacional do mundo. Os estudantes já se preparam para competir na etapa regional, no início de 2027, em Belém.

“Nós sempre desenvolvemos projetos ligados à sustentabilidade e ao meio ambiente. Como indígenas, queremos levar nossos conhecimentos para esses espaços da tecnologia e contribuir com projetos para a sociedade, mas sem perder a nossa identidade”, disse o estudante Flávio da Silva Juruna, 15, que cursa o 2º ano do ensino médio e está há dois anos no projeto.

Para Fernando Machado Juruna, 42, segundo cacique da aldeia e professor coordenador do projeto, a robótica se tornou ferramenta para formar novas lideranças indígenas na escola.

A unidade atende 157 estudantes e oferece a educação infantil, além dos ensinos fundamental e médio, com foco na aprendizagem da língua juruna.

“Temos um lema na nossa escola: formar grandes lideranças. Para isso, é preciso ter um pé dentro da nossa terra e outro fora da aldeia. É isso que a robótica está nos proporcionando. Por meio dela, estamos conseguindo levar nossa cultura e nossas tradições para o mundo”, disse.

Ainda segundo ele, após o projeto, os alunos desenvolveram raciocínio lógico, disciplina e compromisso com as atividades.

De acordo com Alex Carvalho, diretor regional do Sesi Pará, o projeto chegará a outras dez escolas indígenas da região do Xingu para ampliar o acesso dos estudantes à educação tecnológica.



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