InícioBonito"Pintadedo", o Brazil Bonito e a Literatura que a Flib não conta

“Pintadedo”, o Brazil Bonito e a Literatura que a Flib não conta

O Manifesto

Em Defesa da Cultura e da Liberdade de Expressão

Atenção, respeitável público! Pega a pipoca que o espetáculo vai começar!

Quem me vê hoje soltando essa minha verborreia na internet, essa enxurrada de verdades sem anestesia que me faz arrepiar o pelo das costas, o lombo de muitos e os gaiatos por perto sorrirem, precisam entender que o meu vernáculo não veio de dicionário chique, veio do tranco.

Essa oratória xucra, destilada com uma boa dose de picardia e sarcasmo para cutucar os hipócritas, tem dono, nome e tem endereço. Eu sou cria dos campos de Vacaria, lá no Rio Grande do Sul, a terra do maior rodeio internacional do Brasil. Cresci com o vento minuano soprando forte na coxilha e com a geada cobrindo os campos de cima da serra, nos domingos uma pilha de Jornal Zero Hora, me aguardava para ganhar os trocados, para o matine no Cine Guarani ou no Querência. Foi essa alma de gaúcho, forjada no frio do Sul, que me deu a audácia de encarar a lida da vida sem papas na língua.

Mas a minha couraça começou a ser moldada no sofrimento, ainda piá. Com apenas 7 anos de idade, fui atropelado por um Gordini, carro que muita gente hoje em dia não sabe nem que existiu. O baque foi violento: quebrou o Fêmur da minha perna direita e perdi todos os meus dentes de leite, alguns da segunda dentição, de uma vez só.

Fiquei hospitalizado e, para piorar, engessaram a minha perna errado. O resultado? Tiveram que quebrar o meu osso de novo para refazer o serviço. Andei de muletas por muito tempo, sofri bullying (nem existia isso) na escola, mas nunca me fiz de vítima. Encarei todo mundo de muleta na mão, pronto para a peleia.

Dali em diante, aprendi a não aceitar desaforo. Nunca tive problemas com crianças, não sou bobofóbico e não tenho o menor preconceito com raça, religião, sexo ou cor. Respeito todo mundo por igual. Só não aceito mimimi e, principalmente: não pisa nos meus calos, porque a resposta vem na hora.

Dali, minha escola foi a lona, o picadeiro e o chão da estrada. Eu era piazão, estava na fase da adolescência, e trabalhei duro quando os grandes espetáculos passaram por Ponta Porã, para garantir meu ingresso de graça e aprender as engrenagens do espetáculo, para a garantir minha pipoca. Ia vender pirulitos, maçã do amor e ficava rodando em volta dos picadeiro dos circos, Orlando Orfei, Vostok e Robatini, ralei muito no Coney Island Park eram muitos brinquedos e novidades, e como sempre a diversão nunca foi no 0800.

Sei muito bem como se monta um espetáculo e como tentam mexer com a ilusão do povo. Dos bastidores dos picadeiros e da poeira dos parques, fui parar nas oficinas de jornal, e a minha estreia na imprensa da fronteira foi no velho Correio do Povo, lá na fronteira, dobrando papel e sendo tipógrafo, catando letra por letra nas caixas e sujando os dedos nos velhos tipos de chumbo. Foi ali, na fumaça da tinta e na prensa de ferro, que comecei a ganhar o tino jornalístico que tenho hoje.

Por isso, quando olho para os tapetes vermelhos, as estruturas monumentais e os discursos inflamados da Feira Literária de Bonito (Flib), não consigo evitar um sorriso de canto de boca. É bonito de ver. Tão chique, cheio de fomento, tapinha nas costas de comissionado e crachá VIP no peito. Mas a memória, essa velha senhora que não aceita pix por fora, insiste em me lembrar de como a cultura, a imprensa e a ecologia de verdade começaram por aqui.

E que fique bem claro: a FLIB tem gente de valor que carrega o piano. O meu amigo Carlinhos Porto é a prova viva disso um cara que, independentemente de ideologia política, tem todo o meu respeito, porque sempre ajudou e se dedicou por Bonito. A crítica aqui não é a quem constrói na arena hoje, mas a quem tenta apagar o passado para fingir que a história começou ontem.

E por falar em apagar o passado, o que essa e outras administrações vêm fazendo com o Festival da Guavira é uma vergonha de proporções históricas. E aqui eu preciso render homenagens à bendita chatice do meu amigo Antônio Carlos Soares, o vulgo Tó. 

O Tó é chato? É para caramba. Cobra, incomoda, bate o pé e não deixa o assunto morrer. Mas sem a “chatice” desse homem, o turismo de Bonito não seria o que é hoje. Foi o Tó o pai da ideia do Voucher Único, o sistema que revolucionou e organizou o ecoturismo, controlando o número de visitantes e virando exemplo mundial que cidades do planeta inteiro vêm aqui copiar.

Hoje, vejo ele esquecido, sem o devido reconhecimento, enquanto uma cambada fatura alto em cima da genialidade que ele plantou. Não é babação de ovo não, até porque aguentar o Tó não é fácil, é justiça histórica. Se a administração pública acha ruim o barulho que ele faz defendendo a identidade de Bonito, se preparem, porque a teimosia dele é o combustível que não deixa a nossa essência virar cinza.  Enquanto gastam fortunas com eventos gourmetizados, tentam calar os “chatos” da cidade para esconder o descaso com o que é genuinamente nosso.

Porque a cultura neste chão já foi feita com o estômago, com o coração, raça e muito suor derramado. O salão do Center Clube que abrigou as aulas do primeiro e mais tradicional grupo de teatro formado no município de Bonito o “Senta que o Leão é Manso” e a professora era a Andreia Freire, esposa do Belchior, figuras que estão aqui desde os primórdios da nossa história cultural, desde o primeiro festival de inverno eram muitos dias de eventos.

Aquilo era feito na parceria pura com o Jaiminho Panizza, com a Maceuda e o projeto Brazil Bonito (com Z). Nunca envolveu um centavo de cobrança por parte do Center Club foram meses de ensaio; era retribuição honesta pelo trabalho artístico e artesanal de valor inestimável que eles plantaram aqui, junto com a Francisca, a gerentona do Projeto Vivo.

A nossa história é uma sequência de ocorrências reais, de quem colocava o corpo à prova. No terceiro Festival de Inverno, por exemplo, o tempo virou e desabou um temporal daqueles. A estrutura de circo e o palco balançaram, quase rodaram na tempestade. A luz apagou, ficou tudo no escuro e o pânico tomou conta: todo mundo correu para se salvar.

Eu estava lá trabalhando, assando linguiça de Maracaju feita pelo saudoso libero e a Sueza. Quando a tempestade apertou, adivinhem quem sobrou lá dentro no escuro embaixo da lona? Só eu, o Palhaço Macarrão e o meu irmão Lissandro. A gente fazia de coração, para depois tomar uma pinga, uma cerveja e celebrar a vida. Não tinha cachê milionário, tinha entrega.

Nós três ficamos na raça para tentar salvar os equipamentos, as coisas do festival, agindo até como bombeiros no improviso para apagar o fogo e recolher o que dava. Ali se via a garra de quem trabalhava de verdade, como o Roque nosso eletricista de estimação, a Ceceu, Cegonha, o Juquinha Igarapé e o Afonsinho do La Paloma.

Essa mesma teimosia nos movia nas causas da nossa terra. A conscientização ambiental começou na raça na Praça da Liberdade para a formação do grupo Pró-Formoso e a comemoração do primeiro Dia Mundial do Meio Ambiente.

E quem estava junto com a gente nessa lida era o Sérgio da Gruta, o nosso primeiro guia de turismo de Bonito, aquele mesmo que marcou a cidade se vestindo de homem das cavernas no carnaval. Ao lado dele, do Dr. Sérgio Felga, do Dr. Wilson Godói, do Jaiminho e do Lissandro, nós criamos o primeiro evento ecológico de Bonito, a primeira Comemoração do Dia Mundial do Meio Ambiente.

E nessa trincheira de preservação e das grandes gincanas da cidade, nós tínhamos parceiros de peso que hoje a memória oficial ignora. O grande Major Francisco Solano Espindola, o nosso Chico Marruá, estava lá com a gente desde o início. Um homem que dá a vida pelas nossas crianças e em prol da segurança da comunidade e hoje, no Instituto Mirim, está lá precisando de apoio e ajuda para construir e reformar o espaço, uma causa que esses que gastam fortunas com eventos gourmetizados fingem não ver.

Junto conosco nas ações da PMA e pelo meio ambiente, estavam caras como o Gerson Sovernigo e Osnei Robaina (que hoje são sargento da PMA), gente que botava a mão na massa. Dessa semente na praça, nasceu o monstro sagrado que hoje é a afamada Feira Ambiental do IASB, o início de tudo foi fruto deste trabalho de 5 edições da Semana do meio ambiente, evento que o Eduardo Coelho nunca apoiou (acho que não vai com a minha cara).

Eu lembro do Macarrão da Biroska chegando na praça no dia do evento vestido com um palitó xadrez secular do meu pai, uma gravata que levantava e ficava dura, pintura facial e bermuda amarela, meião vermelho e botina.

Dali também nasceu o Palhaço Chupetinha, o personagem do Lissandro, que foi pioneiro com o trenzinho que dava transporte a preço acessível para o povo ir ao balneário municipal, era mais caronas que passageiros, o Papai Noel da charrete, que hoje está numa cadeira de rodas, a vida sendo como ela é.

E por falar em gastar dinheiro público, antes de essas gestões torrarem milhões e milhões para fazer decoração de Natal Milionário, nós fizemos o verdadeiro Natal no peito e na raça. Nos juntamos no pátio da Capela de São Pedro, com o apoio do padre Almir que era o pároco, e construímos uma das casinhas de Papai Noel mais bonitas que Bonito já viu. Tudo feito com orgulho, voluntariado e sem um único centavo do município, que na época nem o espaço da praça cedeu, íamos enfeiar a praça da Piraputangas, ali eu acredito que assassinaram a fonte e a praça da Liberdade do Prefeito Padre.  O nosso “coquetel” era uma roda de tereré e pacotes de bala para a piazada.

Muitos dos “pseudointelectuais” de hoje, que desfilam sua erudição de gabinete pelas ruas de Bonito, se achando os nobres do reino das águas turvas, não aguentariam meia hora na pele de um escriba independente daquela época. Não sabem o que é escrever sabendo que o comércio não vai te patrocinar por medo de represália do poder público.

E se me chamam de pseudojornalista, a matemática do Estado diz o contrário. Tenho um orgulho danado de ter sido recenseador por aqui. Fiz o censo econômico e demográfico tantas vezes que perdi a conta. Conheço cada palmo da área rural deste município porque gastei pneus onde o asfalto nunca sonha em chegar.

Minha mente sempre foi afiada, apesar da rebeldia.

Passei muito bem colocado em várias provas do IBGE, mas teve uma vez que entrou para o folclore: eu era apenado e fui conduzido sob escolta policial até o local da prova. O resultado? Passei em primeiro lugar no estado do Mato Grosso do Sul. Grato ao IBGE por ter testado a minha capacidade quando muitos achavam que eu estava acabado. E já que falei em prisão, aí vai um fato que a nova geração de Bonito desconhece: eu ajudei a fundar a cadeia desta cidade. Antigamente, quem era condenado por aqui tinha que ser transferido para Jardim.

Num legítimo acordo de cavalheiros com o Dr. Ruy Celso Barbosa Florence, que anos mais tarde viraria desembargador e hoje presidente do Tribunal de Justiça do MS, tive a oportunidade de ficar pousando na delegacia local. Foi ali, vivendo a realidade do sistema, que defendi a necessidade de Bonito ter a sua própria estrutura. Quando a Cadeia Pública Municipal finalmente saiu do papel, adivinhem quem carimbou a ficha de entrada? Eu fui o preso número 001. Inaugurei a história daquele lugar pelo lado de dentro.

Antes de chegar ao que hoje é o nosso portal Bonito Sem Filtro, eu gastei muita sola de sapato e tinta de verdade. Escrevi para o jornal de Bela Vista com o finado Ivaldo Pereira (o Pedro Pedreira), Tinha uma coluna no O progresso a “ossos do ofício’’ todas as quintas e vendi muitas assinaturas para a Dona Adiles também colaborei na página de Bonito no Jornal a Cidade do Irineu Ferrari a de Miranda.

Mas o meu maior orgulho foi peitar o sistema político local de peito aberto. Na época em que o prefeito José Arthur comandava cidade com o seu “exército de soldadinhos de chumbo”, eu me tornei quase o seu arqui-inimigo.

Para combater O “Ditador” de plantão, sem recurso algum e com os comerciantes acuados pelo medo de perseguição política, eu rodava jornal em folha A4 no fundo de quintal. A gente molhava o polegar na saliva para virar e dobrar as páginas; os dedos ficavam pintados de tinta.

Ganhei mais um apelido “Pintadedo”, mais uma marca de resistência gráfica gravada na pele que começou a calejar nas prensas de Ponta Porã e se consagrou aqui. Hoje o tempo passou, somos amigos e nos respeitamos, mas a história não aceita borracha.

Não tenho faculdade, terminei o segundo grau por correspondência, mas tenho pós-graduação nas esquinas da vida e encruzilhadas de Bonito. Fui acusado de “roubar o lixo” quando comecei a catar latinha no Balneário Municipal, décadas antes de existir a palavra “sustentabilidade’’ O secretário municipal de turismo e lazer era o José Sanches Cavalheiro, o Zezão Papagaio.

Fiz o primeiro o jornal local (O Atual) totalmente colorido impresso na gráfica do Gael em Guia Lopes, quando a política já se achava a dona da opinião pública.

A identidade desta cidade não nasceu nos gabinetes climatizados.

Ela nasceu na poeira da praça, no escuro do temporal do Festival de Inverno, nas cores improvisadas dos Palhaços Macarrão e Chupetinha que dupla kkkk, na casinha de Papai Noel na Capela de São Pedro, na luta pelo meio ao lado do Chico Marruá, Gerson Sovernigo e Osnei Robaina da PMA, no cheiro da guavira, do festival e na genialidade do Voucher Único criado pelo Tó, no peito de quem nunca aceitou ter rabo preso, e na audácia dessa legião de loucos.

Muito prazer, sou o Beto Busin, o Gauchinho Louco do Center Club, o Beto briguento, o bêbado chato e tantas outras alcunhas que ganhei nesta caminhada. Deixo o nome de “Luís Alberto” apenas para a burocracia dos oficiais de justiça e alguns que insistem em me nomear assim, porque a minha verdadeira assinatura está fincada na história viva e sem filtro deste chão que me acolheu.

Por isso, doa a quem doer, encerro este manifesto trazendo à tona a verdade nua e crua ou, como diria o eterno personagem Odorico Paraguaçu: A verdade cuspida e escarrada, lavada e encharcada nas lágrimas do orgulho de fazer parte da história dessa cidade.

E para essa gestão e os Lambizovo de plantão que acharam que o passado estava enterrado sob o luxo dos seus tapetes vermelhos, um aviso de quem tem casca grossa e não verga para soldadinho de chumbo nenhum: nós vamos soltar o verbo e a poesia desta cidade para que ela volte a ser reconhecida e famosa por suas belezas naturais e águas cristalinas não por operações policiais e investigações do Gaeco.

A sucuri do portal Bonito Sem Filtro não é à toa; a cobra acordou e o veneno da verdade vai direto na jugular do sistema.

E para quem achou que eu ia recuar, escuta bem o sibilado da cobra! Sujei as minhas mãos de tinta para que o povo pudesse saber a verdade, e não vai ser agora na era digital que vou me calar.

Peguem mais pipoca, porque o show do “Bonito Sem Filtro” está só começando.

E para fechar a conta vou plagiar, o velho e bom Raul Seixas:

Eu nasci há 62 anos atrás e não tem nada nesse Bonito que eu não saiba demais e que eu não souber vou atrás. E para quem disser que eu estou mentindo, eu tiro o meu chapéu.

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