Cidade que vende natureza como patrimônio turístico agora enfrenta questionamentos sobre o destino do dinheiro arrecadado para protegê-la
Bonito (MS), vitrine do ecoturismo brasileiro e orgulho sul-mato-grossense, voltou ao centro das discussões políticas — e desta vez não foi pela transparência das águas dos rios. O motivo da polêmica é o remanejamento de recursos da Taxa de Conservação Ambiental (TCA) para outras áreas da administração municipal, situação que acendeu o alerta na Câmara Municipal após requerimento apresentado pelo vereador Angelo Carlos Peres Cheres, o conhecido “Alemão do Som”.
A taxa, criada justamente com a promessa de ajudar na preservação ambiental da cidade, deveria servir para cuidar daquilo que Bonito mais vende ao turista: natureza intacta, rios cristalinos e equilíbrio ambiental. Mas, ao que tudo indica, parte do dinheiro resolveu fazer turismo por outras secretarias.
A situação gerou estranheza porque o discurso oficial sempre foi simples: quem visita Bonito ajuda a preservar Bonito. O turista paga acreditando que está contribuindo para fiscalização ambiental, recuperação de áreas degradadas, proteção dos rios e manutenção dos atrativos naturais. Não exatamente para tapar buracos administrativos em outras áreas da prefeitura.
“Taxa ambiental” ou “pix universal”?
Nos bastidores políticos, o caso começou a levantar uma pergunta inevitável: se o recurso pode ser usado para outras finalidades, então qual é, de fato, a garantia de que a taxa ambiental está cumprindo seu papel?
Pela legislação, taxas públicas possuem destinação específica. Em português claro: o dinheiro arrecadado para o meio ambiente deveria permanecer no meio ambiente. Caso contrário, especialistas apontam possibilidade de questionamentos por órgãos de controle e até investigação sobre eventual desvio de finalidade.
Mesmo que os valores citados não sejam milionários, o que preocupa é a lógica da coisa. Afinal, quase todo desvio começa pequeno — principalmente quando ninguém questiona.
Bonito depende daquilo que está deixando de priorizar
O debate acontece justamente em um momento delicado para o município. Problemas como turvamento de rios, erosão e impactos ambientais relacionados ao uso do solo já vêm preocupando empresários do turismo, ambientalistas e moradores há anos.
E aqui está a ironia difícil de ignorar: Bonito construiu sua economia inteira em cima da preservação ambiental. Ou seja, mexer em recursos destinados ao meio ambiente é quase como uma padaria decidir economizar farinha.
Sem rios limpos, mata preservada e fiscalização eficiente, não existe ecoturismo. E sem ecoturismo, a cidade inevitavelmente sente os impactos no emprego, na renda e na própria arrecadação.
Câmara cobra explicações
O requerimento apresentado pelo vereador Alemão do Som colocou oficialmente o tema em debate no Legislativo municipal. A expectativa agora é que a prefeitura esclareça os critérios utilizados para o remanejamento dos recursos e apresente transparência sobre a aplicação da Taxa de Conservação Ambiental.Porque, no fim das contas, o morador quer entender para onde foi o dinheiro. E o turista também.Principalmente aquele que pagou sorrindo, acreditando que estava ajudando a preservar um pedaço raro da natureza brasileira — e não patrocinando malabarismo orçamentário.
