Por Luís Alberto Busin de Aguiar
Bonito Sem Filtro News
A chikungunya não é apenas uma estatística fria nos relatórios de saúde pública. Ela tem rosto, tem corpo e deixa marcas que vão muito além dos dias de febre. Senti na pele o impacto real dessa doença transmitida pelo Aedes aegypti, enfrentando uma jornada dolorosa que se estendeu por quatro longos e árduos meses.
A dor na pele e o tratamento na raça
Tudo começou de forma repentina: febre alta e uma dor articular devastadora. A palavra chikungunya vem do idioma makonde e significa “aquele que se dobra” — uma tradução perfeita e cruel para o que acontece com o corpo. As articulações dos pulsos, joelhos, tornozelos e mãos incharam e travaram a ponto de transformar qualquer movimento simples em um suplício.
Na minha experiência, não fui ao hospital. O enfrentamento foi feito em casa, na raça, contando apenas com dipirona e Tylenol para tentar amenizar o sofrimento.
A febre passou, mas a inflamação nas juntas e a rigidez persistiram, ultrapassando a marca dos três meses e me jogando na fase crônica da enfermidade. Foram 120 dias ininterruptos lidando com dores intensas e limitação de movimentos.
Para tentar buscar algum alívio por vias naturais, apelei para o chá de picão-preto e fedegoso. Mas fica o aviso para os corajosos: o remédio popular cobra seu preço no paladar. A sensação amarga ao se alimentar é tão marcante que parece que você passa o dia inteiro comendo jiló puro.
Despertador às 4h38, fumaça no quarto e a lição de casa
Enquanto quem padece da doença enfrenta essa maratona invisível dentro de casa, a resposta oficial da cidade beira o absurdo.
Madrugada em Bonito. 4h38 para ser exato. Você acorda sobressaltado com o barulho infernal e a nuvem tóxica do fumacê invadindo o quarto. Motivo? Nobre, dizem eles: conter o mosquito e nos “salvar” das epidemias.
A cobrança do poder público vem antes do sol nascer e sem margem para conversa: o cidadão que se vire. Vistorie o quintal, lave o pratinho do vaso, passe pente fino até em tampinha de xarope. Faça a sua lição de casa.
Tudo muito bonito no papel. Mas basta colocar o pé na rua para a piada se contar sozinha.
Enquanto a gestão torra verba com veneno no ar e acorda o morador na madrugada exigindo disciplina de exército, as ruas da cidade viraram um verdadeiro piscinão público. Não estamos falando de pequenas imperfeições no asfalto: são verdadeiras panelas cheias de água parada, servindo de berçário VIP para o mosquito em cada esquina.
Para completar o cenário de abandono, os bueiros seguem completamente entupidos de sujeira. Basta uma chuva rápida para a água transbordar e formar uma lagoa podre no meio do caminho.
A lógica da Prefeitura é fascinante: água parada na tampinha do seu quintal é crime e irresponsabilidade; água acumulada na panela do asfalto e no bueiro entupido é só charme da infraestrutura municipal.
A pergunta que não quer calar
O sofrimento causado pela chikungunya é incapacitante. Se a população é cobrada — e deve sim fazer a sua parte —, o poder público não pode agir como mero espectador.
Fica a dúvida para a nossa admirável gestão: a população vai ter que continuar limpando o quintal enquanto a Prefeitura mantém um parque aquático de criadouros em pleno asfalto?
Ou a solução para as panelas da rua e os bueiros entupidos vai ser a de sempre: passar pano, literalmente?
Cria vergonha nessa cara,homem!



