O Debate Midiamax reuniu candidatos ao Governo de Mato Grosso do Sul para discutir propostas, segurança pública e feminicídio. Do lado de fora do Crea-MS, porém, o discurso sobre proteção às mulheres encontrou uma realidade bem menos elegante: uma apoiadora de João Henrique Catan, do Novo, afirmou ter sido atingida na cabeça por um homem com um megafone durante uma confusão entre grupos políticos.
A mulher foi identificada pela assessoria de Catan como Dilza Paula Caetano. Segundo seu relato, ela tentava retirar a filha do tumulto quando percebeu que uma senhora havia sido empurrada e outra jovem atingida com uma bandeira. Ao pedir que o homem parasse, acabou recebendo uma pancada na testa, que deixou um inchaço visível.
“Eu tava muito junto, eles estavam muito perto um do outro e daí, na hora, ele acertou, ele deu uma pesada em uma senhorinha. Eu sei que ele tá de chapéu e tacou o megafone. Eu fui pra defender a senhorinha e aí ele pegou, tacou a bandeira na outra menina, aí eu falei: ‘não faz isso’. Foi a hora que ele pegou o megafone e meteu na minha cabeça”, relatou.
Dilza afirmou que procuraria a Casa da Mulher Brasileira e a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher para denunciar o episódio. “Agora eu vou dar parte dele lá na Casa da Mulher Brasileira porque eu fui agredida por um homem. Isso não pode. Eu nem agredi ele, eu não fiz nada”, declarou. A reportagem original não informou a identidade do suposto agressor nem apontou oficialmente qual candidato ele apoiava.
João Henrique Catan lamentou o ocorrido e destacou a contradição entre o debate realizado no auditório e a confusão registrada do lado de fora. “É lamentável que, enquanto estávamos ali dentro debatendo, propondo ideias para Mato Grosso do Sul, do lado de fora uma pessoa que só estava tentando ajudar outra tenha sido agredida. Isso não representa o debate democrático que a gente quer para o nosso Estado”, afirmou.
A assessoria do candidato também contestou versões divulgadas posteriormente que tentavam apresentar o grupo de Catan como responsável pela agressão. “Não vamos aceitar que uma equipe que foi vítima de agressão seja apontada como agressora. Os fatos estão documentados e a verdade vai prevalecer”, declarou. Como existem narrativas divergentes, a apuração deverá considerar depoimentos, imagens, eventual boletim de ocorrência e a identificação dos envolvidos.
A cena deixou uma ironia amarga para a noite eleitoral. Dentro do auditório, candidatos falavam sobre feminicídio e prometiam políticas de proteção às mulheres. Alguns metros adiante, uma mulher dizia ter levado um megafone na cabeça por tentar impedir novas agressões. No palco, compromisso e indignação; na calçada, a velha brutalidade mostrando que não acompanha intervalo comercial nem espera o encerramento do debate.
Apesar da gravidade, é necessário cuidado com o enquadramento jurídico. A Lei Maria da Penha não alcança automaticamente toda agressão praticada por um homem contra uma mulher. Sua aplicação depende, em regra, da existência de contexto doméstico, familiar ou de relação íntima de afeto. Pelas informações conhecidas, vítima e suspeito seriam integrantes de grupos políticos adversários, sem vínculo dessa natureza. A definição caberá à Polícia Civil e ao Ministério Público, que poderão analisar possível lesão corporal e outros delitos identificados durante a investigação.
Também não se trata de feminicídio, crime caracterizado pela morte de uma mulher em razão de violência doméstica e familiar, menosprezo ou discriminação à condição feminina. A relação com o tema está na contradição política e social exposta naquela noite: enquanto o feminicídio ocupava espaço no debate, uma mulher denunciava ter sido agredida na área externa do evento.
Democracia comporta disputa, crítica, bandeira e megafone. O que não comporta é transformar o megafone em arma e depois tentar vencer a discussão no grito, na pancada ou na versão mais conveniente. Agora, menos torcida e mais apuração: identificar o agressor, preservar as imagens e esclarecer exatamente o que aconteceu.



