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BONITO NO MAPA DA CORRUPÇÃO: Águas Turvas, livros, milhões e uma homenagem que envelheceu mal

Operação atingiu setores estratégicos da Prefeitura, colocou R$ 4,39 milhões em contratos sob investigação e prendeu a responsável por Licitações, esposa do vereador Pedrinho da Marambaia. Meses depois, um pagamento de R$ 818 mil feito por Bonito apareceu na investigação da Gutenberg.

Bonito construiu sua fama sobre águas tão transparentes que é possível enxergar o fundo. Nos corredores do poder público, porém, o Ministério Público encontrou motivos para escolher um nome bem menos turístico: Operação Águas Turvas. Deflagrada em 7 de outubro de 2025 pelo Gecoc, com apoio do Gaeco e da 1ª Promotoria de Justiça de Bonito, a operação cumpriu quatro mandados de prisão preventiva e 15 de busca e apreensão.

Segundo o MPMS, a investigação identificou uma organização que estaria fraudando sistematicamente licitações de obras e serviços de engenharia do Município desde 2021, mediante simulação de concorrência, direcionamento e fornecimento de informações privilegiadas. Os contratos apurados somavam R$ 4.397.966,86. Quase R$ 4,4 milhões e, dessa vez, o passeio não era de bote: o Gaeco entrou pela porta da Prefeitura.

Entre os presos estavam o então secretário municipal de Administração e Finanças, Edilberto Cruz Gonçalves, a então responsável pelo setor de Licitações, Luciane Cíntia Pazette, o fiscal de obras Carlos Henrique Sanches Corrêa e o empreiteiro Genilton da Silva Moreira. Todos têm direito à defesa e à presunção de inocência, e as acusações ainda dependem de julgamento.

Politicamente, a história ganhou um ingrediente especialmente indigesto. Luciane é esposa do vereador Pedro Aparecido Rosário, o Pedrinho da Marambaia e, poucos dias antes da operação, o parlamentar havia apresentado uma moção de parabenização justamente à equipe de Licitações da Prefeitura. A homenagem envelheceu numa velocidade impressionante: primeiro vieram os parabéns; depois, os mandados.

O constrangimento aumentou quando trechos da investigação vieram a público. Segundo informações extraídas dos autos e divulgadas pela imprensa, em maio de 2022 Luciane teria solicitado ao empresário Genilton um “brinde”, mencionando que seria utilizado para “fazer política para meu marido”. Em outro episódio apontado na apuração, teria ocorrido novo pedido, seguido de um pagamento de R$ 120 pelo empresário.

Pedrinho afirmou que desconhecia os pedidos feitos pela esposa e declarou confiar na inocência dela. Não há base nesses fatos para afirmar que o vereador tenha participado do esquema investigado. O que existe é uma sequência politicamente desconfortável: a responsável por Licitações era esposa de um vereador, o parlamentar homenageou o setor e uma mensagem atribuída a ela na investigação mencionou atividade política para o marido. Não precisa temperar muito. O prato já chegou apimentado.

A Águas Turvas também deixou uma pergunta administrativa: quais mecanismos existiam para impedir que situações semelhantes ocorressem? O Ministério Público instaurou procedimento para avaliar as práticas de integridade da administração e, segundo o próprio MPMS, ofícios enviados à Prefeitura não foram respondidos, dificultando a avaliação.

Em março de 2026, o MP recomendou formalmente a implantação de um Programa de Integridade, incluindo Código de Ética, canal de denúncias, gestão de riscos, prevenção de conflitos de interesse e mecanismos de responsabilização. O Município recebeu prazo de 90 dias para apresentar providências. Depois de uma operação anticorrupção, o Ministério Público foi procurar os instrumentos de prevenção e acabou precisando recomendar que fossem estruturados. Bonito continuava oferecendo transparência — pelo menos nos passeios turísticos.

Em 7 de julho de 2026, outra investigação colocou dinheiro público de Bonito sob os holofotes. A Operação Gutenberg cumpriu 16 mandados de prisão preventiva e 43 de busca e apreensão numa apuração que, segundo o MPMS, alcançou mais de R$ 27 milhões em contratos públicos, principalmente relacionados à compra de livros paradidáticos.

Bonito havia contratado a Editora Avante, razão social Souza & Fanaia Comércio de Livros e Serviços Editoriais Ltda., e pagou R$ 818.958,50. Após a entrada desse dinheiro, movimentações financeiras da empresa passaram a integrar a reconstrução realizada pelos investigadores. Uma delas foi de R$ 8.189,59, exatamente 1% do valor pago pelo Município. Segundo informações da investigação divulgadas pela imprensa, padrões semelhantes apareceram depois de pagamentos realizados por outras prefeituras.

A transferência isoladamente não comprova corrupção. Sua natureza e eventual relação com crimes dependem da investigação e do processo, mas o movimento ajuda a explicar por que o Gaeco decidiu seguir o caminho do dinheiro. Extrato bancário tem uma qualidade rara na política: não faz discurso.

Somando exclusivamente os valores de Bonito identificados nesses dois contextos, são R$ 4.397.966,86 em contratos apurados na Águas Turvas e R$ 818.958,50 pagos à Editora Avante, totalizando R$ 5.216.925,36. Isso não significa que R$ 5,2 milhões tenham sido desviados. É o volume de contratos e pagamentos aqui identificados dentro das duas investigações; eventual prejuízo, responsabilidade criminal e valores ilícitos dependem das provas e das decisões judiciais. Aqui a picardia pode até ser gratuita. A matemática, não.

Bonito também apareceu na Operação Auditus, com cumprimento de mandados e prisão de empresários na cidade, mas os milhões investigados naquele núcleo estão relacionados principalmente a contratos da Saúde de Nioaque e, por isso, não entram nessa soma. Mandado cumprido em Bonito não transforma automaticamente dinheiro de outro município em dinheiro daqui. No supermercado pode existir “leve três, pague dois”. Em investigação criminal, não.

Passado o barulho das operações, interessa saber o que mudou. A Prefeitura implantou integralmente o Programa de Integridade recomendado pelo MP? Quais controles das licitações foram alterados? Quais contratos da Águas Turvas foram suspensos, rescindidos ou retomados? Quanto dos R$ 4,39 milhões foi efetivamente pago? Houve recuperação de valores? Qual foi o resultado das sindicâncias internas?

E na compra dos livros, quem justificou a contratação, quantos exemplares foram adquiridos, qual foi o preço unitário, quem atestou o recebimento e onde o material foi distribuído? Nenhuma dessas perguntas condena alguém. Todas fazem algo muito mais simples: fiscalizam dinheiro público.

O problema de Bonito não é aparecer numa reportagem intitulada “mapa da corrupção”, mas os fatos que levaram o município até esse mapa. O nome Águas Turvas já carregava ironia suficiente; depois vieram a homenagem ao setor de Licitações, os “brindes”, a cobrança do MP por mecanismos de integridade e os R$ 818 mil dos livros examinados no contexto da Gutenberg.

Agora, mais do que novos discursos sobre transparência, o contribuinte precisa de respostas, documentos, resultados das sindicâncias, contratos acessíveis e dinheiro explicado. Bonito já mostrou ao mundo como é possível enxergar o fundo de um rio. Está na hora de permitir ao cidadão enxergar, com a mesma clareza, o fundo das contas públicas.

Porque filtro pode até ajudar na fotografia turística. Para dinheiro público, não.

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