Dois alvos de uma ampla investigação federal sobre corrupção no futebol mundial, no caso conhecido como Fifagate, chegaram a um acordo com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos para encerrar acusações de suborno apresentadas há mais de uma década.
Os investigados, Hugo Jinkis e Mariano Jinkis, pai e filho argentinos, devem comparecer na quinta-feira (27) a um tribunal federal do Brooklyn para informar a um juiz que firmaram um acordo de suspensão condicional do processo, negociado ao longo dos últimos meses, segundo os promotores.
Os termos do acordo não foram divulgados na terça-feira (25), mas acertos desse tipo normalmente permitem que as acusações criminais contra os réus sejam retiradas caso eles cumpram determinadas condições. Pai e filho devem ser libertados sob fiança na quinta, de acordo com uma carta dos procuradores federais do Brooklyn protocolada no tribunal.
Como parte do acordo, os réus concordaram em admitir que pagaram “dezenas de milhões de dólares em propinas comerciais” a dirigentes de organizações sul-americanas de futebol em troca de direitos de transmissão televisiva e de patrocínio de torneios lucrativos, escreveram os promotores. Segundo eles, os pagamentos começaram na década de 1990 e se estenderam até 2015, quando os dois foram indiciados no âmbito da investigação do Departamento de Justiça sobre corrupção na Fifa, entidade que rege o futebol mundial.
Os advogados dos dois não responderam de imediato aos pedidos de comentário.
Diferentemente de muitos outros réus no caso, os Jinkis conseguiram evitar a extradição e permaneceram foragidos na Argentina. Em maio, o The New York Times informou que os dois haviam viajado naquele mês a Nova York para negociações sigilosas com promotores federais sobre um acordo judicial.
A chegada dos dois ocorreu em meio a uma enxurrada de questionamentos sobre a corrupção no futebol internacional, quando os Estados Unidos se preparavam para sediar a Copa do Mundo.
Até o momento, o governo federal obteve mais de duas dezenas de condenações no caso de corrupção, que se arrasta há anos. Vários réus cumpriram pena de prisão; muitos outros concordaram em cooperar e pagar multas elevadas, além de passar anos colaborando com os promotores e atuando como testemunhas em julgamentos.
Os Jinkis, por outro lado, dificilmente cumprirão pena de prisão.
No documento apresentado ao tribunal, os promotores disseram que formulariam uma nova acusação contra os dois, da qual os Jinkis se declararão formalmente inocentes na quinta-feira. Não está claro se o acordo incluirá sanções financeiras ou restituição, embora isso seja frequente em acertos desse tipo.
Nos últimos dez anos, um banco suíço e uma empresa argentina de marketing esportivo firmaram acordos de suspensão condicional do processo no âmbito do caso, entregando, juntos, quase US$ 200 milhões (cerca de R$ 1,03 bilhão) em multas e valores confiscados. Até agora, porém, nenhuma pessoa física havia recebido um acordo desse tipo.
A acusação e as condenações decorrentes do caso há muito são vistas como motivo de orgulho dentro da Procuradoria dos Estados Unidos no Brooklyn.
Mas, durante o segundo governo Trump, o Departamento de Justiça enfraqueceu a investigação, ameaçando reverter anos de esforços para erradicar a corrupção do esporte mais popular do mundo.
Em dezembro, o procurador-geral dos Estados Unidos perante a Suprema Corte, D. John Sauer, pediu a retirada das acusações contra Hernán López, ex-executivo da Fox Corp., e a Full Play, empresa de mídia esportiva pertencente aos Jinkis. López e a empresa foram condenados em julgamento em 2023; essas condenações foram posteriormente anuladas pelo juiz responsável pelo caso, mas restabelecidas em julho de 2025 pelo Tribunal de Apelações do 2º Circuito dos Estados Unidos.
Na época, López e a Full Play recorriam de suas condenações à Suprema Corte. As acusações contra eles foram formalmente retiradas em maio.
Desde então, outros cinco réus no caso tentaram anular suas condenações e, potencialmente, recuperar milhões de dólares pagos em multas —pedido ao qual o Departamento de Justiça se opõe.
O órgão argumentou que, embora levar adiante o processo contra López e a Full Play não “se enquadrasse nas prioridades do governo”, desejava manter as acusações contra os demais réus, acusados de participar dos mesmos esquemas de suborno.


