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De igreja e escola a empreendimento milionário: a história da Ilha do Padre

Área teria sido cedida para atender moradores e crianças da região, acabou reconhecida por usucapião em nome de Roosevelt, foi anunciada por R$ 6 milhões e hoje está ligada a um empreendimento milionário às margens do Rio Formoso

A história da antiga Ilha do Padre começa bem diferente da imagem de empreendimento turístico que existe hoje. Naquele tempo, Bonito ainda não tinha a indústria do turismo que conhecemos, as famílias viviam espalhadas pela zona rural e coisas básicas faziam falta. Entre elas estavam uma igreja para atender os moradores e uma escola para que as crianças daquela região não precisassem enfrentar grandes distâncias para estudar. É nesse cenário que aparece a família Ovando Rodrigues, ligada a Eleutério Ovando Rodrigues, o conhecido Téio.

A informação preservada pela família e pela memória dos antigos moradores é de que aquela área foi cedida para a Igreja, justamente para possibilitar o atendimento religioso e a escola. Esse detalhe é fundamental para entender a história. A área não teria sido entregue ao padre Roosevelt de Sá Medeiros como patrimônio pessoal, presente ou negócio imobiliário. Roosevelt estava ali na condição de padre, enquanto a finalidade da cessão era comunitária. Era para servir às famílias e, principalmente, às crianças daquela região.

Com o passar dos anos, entretanto, igreja, escola e comunidade foram ficando no passado, enquanto Roosevelt permaneceu ligado ao imóvel. O lugar ganhou o nome de Ilha do Padre, começou a receber visitantes e se tornou um dos pontos conhecidos do Rio Formoso quando Bonito ainda dava os primeiros passos no turismo. Roosevelt entrou para a política e foi prefeito de Bonito entre 1977 e 1983. O padre saiu de cena  foi expulso da Igreja Catolica, e  virou bispo de outra seita, mas a Ilha do Padre continuou associada a Roosevelt.

É justamente nesse ponto que a história começa a exigir documentos. Se a área havia sido cedida para a Igreja com a finalidade de atender moradores e crianças, como ela terminou reconhecida como propriedade particular de Roosevelt? A resposta jurídica conhecida passa por uma ação de usucapião, instrumento legal que permite, quando preenchidos os requisitos previstos em lei, transformar uma situação de posse prolongada em propriedade.

O usucapião não significa, por si só, qualquer irregularidade. O que chama atenção neste caso é outra coisa. Anos depois, Roosevelt declarou publicamente uma versão diferente sobre a origem da propriedade. Em reportagem publicada em 2011, afirmou que teria recebido aquela área como herança de seus pais. É aí que a história fica curiosa, porque se temos de um lado uma cessão para finalidade religiosa e educacional e, do outro, uma propriedade posteriormente reconhecida através de usucapião, a alegação de que tudo teria vindo de herança familiar precisa ser acompanhada da documentação correspondente.

Se realmente era herança, deveria existir alguma origem patrimonial capaz de demonstrar de onde veio o imóvel: propriedade dos pais, matrícula anterior, inventário, formal de partilha ou outro documento que explique essa transmissão. Até agora, o que encontramos publicamente é a declaração de Roosevelt de que teria herdado a propriedade e, ao mesmo tempo, a confirmação de que o domínio foi consolidado através de usucapião. Uma situação não torna juridicamente impossível a outra, mas é uma combinação que merece explicação, principalmente quando estamos falando de uma área que décadas depois alcançaria valor milionário.

E essa dúvida não nasceu agora. Em junho de 2003, quando Roosevelt anunciava a Ilha do Padre por nada menos que R$ 6 milhões, reportagem da época já mencionava uma disputa envolvendo descendentes da família Rodrigues e Roosevelt. A mesma publicação registrava que a regularização da propriedade havia ocorrido por usucapião. Portanto, mais de vinte anos antes da atual decisão envolvendo a União, a origem e a propriedade daquela área já eram assunto de discussão.

A transformação impressiona quando se olha para o começo da história. Estamos falando de uma área cuja cessão é lembrada dentro de um contexto de igreja e escola para moradores e crianças da zona rural e que, em 2003, já aparecia no mercado por R$ 6 milhões. A escola pode ter ficado na memória, a finalidade comunitária pode ter desaparecido com o tempo, mas o terreno seguiu um caminho bem diferente. O pedaço de terra que deveria ajudar criança a estudar aprendeu rapidamente uma matéria que Bonito conhece muito bem: valorização imobiliária.

A novela ainda ganhou participação do Governo do Estado. Em outubro de 2003 foi criado o Monumento Natural do Rio Formoso, unidade de conservação destinada a proteger aquele trecho ambientalmente excepcional do rio. Vieram discussões sobre desapropriação e conservação, mas Roosevelt continuou relacionado à propriedade. Em 2011, ainda falava em vender o imóvel por R$ 6 milhões e dizia estar cansado da longa disputa envolvendo a área.

Em janeiro de 2014, Roosevelt ainda aparecia publicamente como proprietário, mas o empreendimento já era administrado por um grupo formado por sete empresários de Bonito. Pouco depois ganhou força a presença empresarial da Eco Park Porto da Ilha Ltda. Em 2017, a própria Prefeitura de Bonito apresentou a empresa como nova proprietária do lugar. A antiga Ilha do Padre ganhou estrutura empresarial, novos investimentos e passou a ser conhecida comercialmente como Porto da Ilha.

A mudança é daquelas que merecem ser contadas sem pressa. Lá atrás, a história era uma área cedida para a Igreja, uma escola para crianças e atendimento aos moradores. Décadas depois havia empresários, empresa constituída, atividade turística organizada e um imóvel que já não era contado em metros de necessidade comunitária, mas em milhões de reais. Nada disso prova sozinho qualquer ilegalidade, mas certamente justifica perguntar como ocorreu cada etapa dessa transformação patrimonial.

Quando parecia que todos os capítulos possíveis já tinham sido escritos, apareceu a União. A Advocacia-Geral da União resolveu questionar a propriedade alegando que a Ilha do Padre seria efetivamente uma ilha e, por isso, poderia constituir patrimônio federal. Para sustentar a tese, tentou atingir justamente o reconhecimento do usucapião que havia consolidado a propriedade em nome de Roosevelt.

Foi então que décadas de discussão sobre quem era dono daquele lugar produziram uma situação quase perfeita para Bonito Sem Filtro: antes de decidir de quem era a Ilha do Padre, a Justiça precisou descobrir se a Ilha do Padre era realmente uma ilha. A perícia concluiu que não. Tecnicamente, trata-se de uma península, porque o canal secundário existente está relacionado aos períodos de cheia e ao represamento natural do Rio Formoso.

A tese da União perdeu força e havia ainda outro problema. A União havia sido intimada na época da ação original de usucapião e não demonstrou naquele momento interesse jurídico ou domínio sobre a área. O Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul rejeitou o recurso, e o processo transitou em julgado em 13 de agosto de 2026. Depois de anos tentando reivindicar a famosa Ilha do Padre, Brasília acabou descobrindo na perícia que estava brigando por uma ilha que, tecnicamente, nunca foi ilha.

Segundo informação publicada durante a cobertura da disputa judicial, a área é atualmente estimada em aproximadamente R$ 25 milhões. A comparação é inevitável. A história começa com uma área cedida para possibilitar igreja e escola para moradores da região, passa por um usucapião em nome de Roosevelt, aparece anunciada por R$ 6 milhões em 2003, entra posteriormente numa estrutura empresarial ligada ao turismo e chega aos dias atuais associada a um patrimônio estimado na casa dos R$ 25 milhões.

É justamente por isso que a alegação de Roosevelt de que teria recebido a propriedade como herança familiar merece ser esclarecida documentalmente. Não se trata de afirmar que ele não herdou alguma posse ou direito de seus pais, porque isso exigiria acesso aos documentos. Trata-se de perguntar onde está a prova dessa origem patrimonial e como ela se encaixa com a história da cessão para a Igreja e, principalmente, com a necessidade posterior de recorrer ao usucapião para obter o reconhecimento da propriedade.

O processo original do usucapião pode ser a peça capaz de colocar cada personagem no lugar correto. É nele que devem aparecer a origem da posse alegada por Roosevelt, o período de ocupação, os confrontantes, os interessados chamados ao processo e os fundamentos utilizados pela Justiça para reconhecer o domínio. É também esse documento que pode esclarecer definitivamente como uma área cuja história é relacionada pela família Ovando Rodrigues a uma cessão para Igreja, escola, moradores e crianças terminou incorporada ao patrimônio particular.

A decisão de 2026 resolveu a briga mais recente: a União perdeu e a propriedade permaneceu particular. Mas não respondeu à pergunta histórica que interessa a Bonito. Antes dos empresários, antes do Porto da Ilha, antes dos R$ 6 milhões e muito antes de se falar em R$ 25 milhões, existia uma comunidade que precisava de igreja e crianças que precisavam de escola.

A ironia é que a Justiça já conseguiu esclarecer até que a Ilha do Padre não é uma ilha. Agora falta esclarecer uma questão aparentemente bem mais terrestre: qual foi o caminho documental que levou uma área cedida para atender Igreja, moradores e crianças da região a terminar como um empreendimento turístico milionário?

Porque memória pode desaparecer, versões podem mudar e o valor do metro quadrado pode subir. Documento, quando existe, conta uma história bem mais difícil de filtrar.

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