Demorou 192 dias.
Esse foi o tempo que a Prefeitura de Bonito levou para apresentar ao Ministério Público as respostas aos questionamentos sobre a Taxa de Conservação Ambiental (TCA). O prazo inicial era de 15 dias úteis. Depois veio um pedido de prorrogação de 30 dias. O tempo passou, o silêncio continuou e, somente após um novo ofício do Ministério Público, a resposta finalmente chegou.
Mas a documentação entregue resolveu todas as dúvidas?
Pelo despacho mais recente do promotor, ainda não.
A história começou em 2025
Tudo teve início em 4 de dezembro de 2025, quando foi protocolado um pedido de providências.
Cinco dias depois, em 9 de dezembro, nasceu oficialmente o Procedimento Administrativo nº 09.2025.00014172-7, destinado a verificar se a criação, a cobrança e a aplicação da TCA estão em conformidade com a legislação constitucional, tributária e ambiental.
Em janeiro de 2026, o Ministério Público encaminhou oito perguntas objetivas ao Município.
Queria saber:
- qual é exatamente o fato gerador da taxa;
- como foi calculado o valor de R$ 15;
- por que a cobrança é diária;
- como ocorre a arrecadação;
- quais serviços são custeados;
- como funciona o seguro ao visitante;
- e quais mecanismos garantem transparência na aplicação do dinheiro.
No dia 29 de janeiro, a Prefeitura respondeu dizendo que ainda estava finalizando estudos e projetos ligados ao meio ambiente e pediu mais 30 dias para elaborar uma resposta completa.
O problema é que esse prazo passou.
A resposta simplesmente não apareceu.
Ministério Público cobra novamente
Depois de meses sem manifestação completa, em 1º de julho, o promotor determinou que o ofício fosse reiterado.
No dia 9 de julho, um novo documento foi encaminhado à Prefeitura concedendo mais 15 dias úteis.
Somente em 23 de julho de 2026, por meio do Ofício nº 312/2026-GAB/PREFEITO, assinado pelo prefeito Josmail Rodrigues, as respostas chegaram oficialmente ao procedimento.
Do primeiro ofício até a resposta final passaram-se 192 dias.
Prefeitura apresenta números da TCA
Na resposta enviada ao MP, o Município informou que a taxa está vinculada ao exercício do poder de polícia ambiental e turístico.
Também apresentou os números da operação desde dezembro de 2025:
- 64 agências cadastradas;
- 38 atrativos turísticos;
- 156 guias;
- 239.312 vouchers emitidos;
- 195.331 visitantes únicos registrados.
E apresentou o dado financeiro que mais chamou atenção:
R$ 4.648.488,46 de arrecadação relacionada à TCA.
A matemática levanta perguntas
A Taxa de Conservação Ambiental custa R$ 15 por visitante, por dia.
Quando o valor informado pela Prefeitura é dividido pelo valor unitário da taxa, o resultado é:
R$ 4.648.488,46 ÷ R$ 15 = 309.899,2306 diárias.
E aí surge uma questão simples.
Não existe 0,2306 de uma diária.
Isso, por si só, não comprova qualquer irregularidade.
O próprio documento admite que podem existir rendimentos bancários, ajustes contábeis, estornos, restituições ou outras movimentações que expliquem a diferença.
Mas justamente por isso nasce uma nova pergunta:
O valor informado representa arrecadação bruta, saldo financeiro, receita líquida ou inclui outras movimentações?
Sem essa conciliação, a conta continua aberta.
Como nasceu o valor de R$ 15?
Outro ponto importante envolve a formação da própria taxa.
Segundo a Prefeitura, foram considerados:
- fiscalização ambiental;
- fiscalização turística;
- conservação ambiental;
- manutenção dos recursos naturais;
- prevenção e combate a incêndios;
- atendimento aos visitantes;
- e o seguro obrigatório.
O problema é que, nas sete páginas do ofício, não aparece uma memória matemática demonstrando como todos esses custos chegaram exatamente aos R$ 15 cobrados por diária.
A Prefeitura afirma que os documentos estão disponíveis para análise do Ministério Público, mas eles não aparecem detalhados na resposta principal.
Seguro existe. Mas quanto custa?
A Prefeitura confirmou que existe contratação de seguro ao visitante.
Também informou que o valor máximo estimado passou de R$ 1,18 para até R$ 3 por pessoa.
Entretanto, o documento não informa qual foi o valor efetivamente contratado por segurado.
Esse dado deverá ser buscado diretamente nos processos licitatórios mencionados.
E o caminho do dinheiro?
Outro detalhe chamou atenção.
A Prefeitura explicou como funciona o voucher digital.
Mas o ofício não informa:
- quem processa os pagamentos;
- qual é a primeira conta que recebe os recursos;
- para qual conta municipal o dinheiro é transferido;
- qual o prazo do repasse;
- se existem tarifas descontadas;
- nem apresenta uma conciliação entre o valor pago pelo turista e o efetivamente recebido pelo Município.
São informações diferentes do funcionamento do voucher e importantes para reconstruir todo o fluxo financeiro da arrecadação.
Portal da Transparência
Quando questionada sobre prestação de contas, a Prefeitura informou que as informações podem ser consultadas no Portal da Transparência.
Ainda assim, permanecem relevantes documentos como:
- extratos bancários;
- arrecadação mensal;
- saldo existente;
- restituições;
- despesas realizadas;
- e conciliações financeiras.
Prefeitura pediu arquivamento
Ao final da manifestação, o Município solicitou ao Ministério Público o arquivamento do procedimento, alegando economia processual e segurança jurídica.
Mas o despacho seguinte foi curto.
No dia 28 de julho, cinco dias depois da resposta, o promotor registrou apenas:
“Ciente. Junte-se ao respectivo procedimento. Às providências. Cumpra-se.”
Não houve arquivamento.
Também não houve manifestação afirmando que todos os esclarecimentos foram considerados suficientes.
Na prática, o procedimento continua aberto.
Ponto de Vista – Bonito Sem Filtro News
O que esta história mostra é que responder não significa, necessariamente, encerrar uma discussão.
A Prefeitura apresentou sua versão, trouxe números importantes e respondeu aos questionamentos formulados pelo Ministério Público. Mas os próprios documentos revelam que ainda existem pontos que podem exigir esclarecimentos adicionais, principalmente sobre a formação dos R$ 15 da taxa, a composição dos R$ 4,648 milhões arrecadados e o fluxo completo desse dinheiro.
Quando se trata de recursos públicos, matemática e transparência precisam caminhar juntas.
Porque, no fim das contas, a pergunta continua simples: cada turista paga R$ 15 por dia. Então cada real arrecadado precisa encontrar sua explicação com a mesma precisão.
Agora, a próxima palavra não é da Prefeitura.
É do Ministério Público.
