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1 em cada 3 bolsistas de faculdade de elite leva família a voltar a estudar


É comum que, ao crescer, crianças moldem sonhos e atitudes a partir do mundo que as cerca. Mas, de vez em quando, esse fluxo também se inverte. Na família de Henrique Rocha, 22, foi o filho que virou referência dentro de casa. Ao vê-lo atravessar as portas de uma universidade de elite, os pais passaram a considerar a própria volta aos estudos.

Primeiro da família a entrar no ensino superior, o estudante conseguiu uma bolsa no Insper, uma das faculdades mais caras do país. Ele só não imaginava que puxaria outros. Inspirada pelo filho, a mãe, Vanessa Rocha, 47, técnica de enfermagem, decidiu buscar a graduação na área. Em seguida, o irmão gêmeo ingressou em arquitetura.

Diante do movimento dentro de casa, o pai, operador de estoque há quase três décadas, enfrentou a insegurança de ter estudado apenas até o sexto ano. Decidiu voltar à sala de aula pelo EJA (Educação de Jovens e Adultos) e planeja se tornar eletricista para deixar a função atual.

No levantamento interno do Insper, casos como o de Henrique também foram relatados entre bolsistas. A cada 100 estudantes, 34 têm familiares que decidiram retomar os estudos por influência direta deles. Entre bolsistas pretos e pardos, o índice sobe para 72 a cada 100.

Hoje, a instituição tem 438 bolsistas, o equivalente a 11% dos alunos de graduação. Os dados vêm de levantamentos periódicos com os estudantes, baseados em amostras representativas de um grupo com perfil socioeconômico semelhante.

Gerente executiva de relacionamento institucional do Insper, Camila Du Plessis afirma que ess a entrada na universidade altera a dinâmica familiar. Segundo ela, o jovem passa a adquirir conhecimentos que incentivam os pais a retomar os estudos, em busca de manter a conexão e se aproximar do repertório dos filhos.

Du Plessis diz também que, embora o levantamento não detalhe esse recorte, mães e avós costumam reagir mais rapidamente ao exemplo e são, em geral, as primeiras a voltar a estudar.

Antes de entrar no curso de engenharia de computação do Insper, Henrique foi bolsista no ensino médio no Colégio Objetivo da Paulista. No dia a dia, ele acordava às 4h e passava cerca de duas horas no transporte público até a escola.

Criado com dificuldades estruturais, com episódios recorrentes de enchentes que atingiam a casa da família, ele diz que a educação apareceu como forma de mudança. “Eu percebi que queria mudar de alguma forma. Minha família me trocava de escola pública procurando um lugar melhor”, afirma.

Para além do acesso, o desafio das instituições é manter esses alunos até a conclusão do curso. Quando o jovem entra na universidade, a família muitas vezes perde de imediato uma renda que fazia diferença no orçamento.

O presidente do Insper, Guilherme Martins, diz que convencer famílias a abrir mão dessa renda é um dos maiores desafios. Segundo ele, a instituição tenta mostrar o retorno de longo prazo, com salários médios próximos de R$ 10 mil entre formados.

Du Plessis diz que garantir apenas a bolsa integral não resolve. “O difícil é a permanência e a inclusão”, afirma. Por isso, o programa também oferece ajuda financeira extra, como auxílio e moradia, para compensar o problema.

No caso de Henrique, o apoio financeiro que passou a oferecer com o salário reduziu a tensão em casa. “Hoje não há mais discussão para pagar contas básicas”, diz. Com a renda, ele também ajuda a família. Pagou parte de um computador novo para a irmã mais nova, o que melhorou o desempenho dela na escola.

BOLSISTA MIL

O Insper atingiu recentemente uma marca simbólica. A estudante de economia Milena Freire, 19, se tornou a bolsista número 1.000 da instituição.

Moradora do Jardim Ângela, na zona sul de São Paulo, ela viu a própria percepção de futuro mudar ao ter contato com realidades distintas. A mudança começou quando o pai, então porteiro, foi promovido a zelador em um prédio na Vila Nova Conceição, bairro de alto padrão. A experiência a aproximou de condições distintas de infraestrutura e oportunidades.

Milena afirma que estudantes de baixa renda muitas vezes dependem de fatores fora do controle para avançar nos estudos, como encontrar professores que incentivem a trajetória ou ter acesso a informações sobre oportunidades.

Já no ensino médio, Milena também foi bolsista, no Colégio Poliedro. Ao entrar no ensino privado, sentiu o peso da defasagem. “Se um aluno de escola particular precisava correr 2 km, eu precisava correr 10 km”, diz.

Martins diz que esse tipo de informação raramente chega a quem mais precisa. Segundo ele, a mobilidade via educação segue possível no Brasil, mas muitos jovens de baixa renda carecem de referências próximas que mostrem que esse caminho é alcançável.

Também afirma que os bolsistas do Insper apresentam desempenho acadêmico superior aos alunos não bolsistas.

Atualmente, o programa custa cerca de R$ 50 milhões por ano e é financiado por doações e pela própria instituição.



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